Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.03.2012 28.03.2012

A resistência política na linguagem documental

Por Sarah Corrêa

Se, após o ano de 2001, com o marco histórico do ataque terrorista às Torres Gêmeas, o cinema documental ganhou ares mais políticos, nesta década “estamos passando por um momento mais nebuloso. Não há um vetor hegemônico que aponte uma direção para o registro documental”, aponta Amir Labaki, organizador do Festival É Tudo Verdade, que está em sua 17ª edição.
 
Embora esses vetores apontem o fazer do documentário para várias direções, a programação do É Tudo Verdade, que acontece na capital paulista até o dia 1º de abril, expõe alguns títulos que trazem consigo uma referência em comum: conflitos políticos.
 
Krisis (Nikos Katsaounis e Nina Maria Paschalidou), ½ Revolução (Omar Shargawi e Karin El Haki) e Cinco Câmeras Quebradas (Emad Bornat e Guy Davidi) fazem parte da Mostra Internacional do festival.
 
Produções de regiões distintas do mundo, mas com visões para o mesmo horizonte. Apesar do pano de fundo de cada uma dessas obras serem os conflitos políticos em seus países de origem, como Krisis (Grécia), é especialmente sobre a visão e vivência humana nessas situações que a tela reflete.
 
“A história é escrita por cada um de nós. E ela pode mudar através de cada um também. Não é sobre o 11 de setembro, mas em especial às pessoas que perderam a vida em Nova York, aos árabes que perderam a vida em seus países. E penso que não há uma maneira melhor de se contar uma visão política do que através do olhar de cada pessoa que participou daquele momento”, relata Nina, diretora de Krisis.
 
O documentário levou um ano e meio desde a concepção até a realização. A ideia surgiu em maio de 2010, quando quatro pessoas foram queimadas até a morte na capital grega Atenas.
 
Nina, diretora de Krisis
Nina, que é jornalista e nasceu na Grécia, estava cursando Relações Internacionais na Universidade de Washington (EUA), quando muitas pessoas pediram a ela que relatasse notícias de seu país.
 
“Pensei, então, que eu deveria voltar para meu país para filmar aquela história. Falei com Nikos [também diretor e produtor do documentário] e organizamos um coletivo de jornalistas que pudessem registrar seus pontos de vista sobre aquele momento de crise”, conta a cineasta. O produto final ganhou menções no The New York Times e na revista Time.
 
Assim como Krisis, a produção francesa Cinco Câmeras Quebradas se encaixa na questão política contada pela subjetividade humana. 
 
Mas, neste caso, o longa-metragem relata a construção de um muro em um povoado na região da Cisjordânia. O registro da resistência pacífica de um fazendeiro palestino contra essa barreira construída para abrigar um povo israelense ganhou o prêmio de melhor direção no festival de Sundance.
 
Ao lado destas duas produções, ½ Revolução conta ao mundo o desenrolar dos primeiros protestos na praça Tahrir, no Cairo, que levaram, algum tempo depois, à queda do ditador Hosni Mubaraki.
 
Se o cinema documental, por um lado, carrega essa forte tendência a registrar as reivindicações políticas dos povos, por outro, caminha cada vez mais para o lado multicultural. “Desde 2001, foi a fase mais prolífica na história do documentário. Com certeza, o olhar subjetivo e íntimo do ser humano contribui com essa riqueza que tem se percebido nesse gênero”, analisa Andres Di Tella, cineasta argentino, homenageado na Retrospectiva Internacional nesta edição do É Tudo Verdade.
 
Assista ao trailer do filme Krisis:
 
 
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