Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.04.2014 29.04.2014

A receita do humor de Jerry Seinfeld

Por Andréia Martins
 
“Meus pais estão indo para a Flórida (EUA). Eles não queriam, mas chegaram aos 60. Essa é a regra”. Ou ainda: “Minha avó começou a caminhar cinco quilômetros por dia quando completou 60 anos. Ela está com 97 agora e não sabemos onde ela está”.
Jerry Seinfeld já fez muitas piadas sobre ter 60 anos e, agora, ele sabe bem o que isso significa. Nascido no dia 29 de abril de 1954, em Nova York, Seinfeld é responsável por uma das mais famosas sitcoms da TV norte-americana (Seinfeld, no ar de 1989 a 1998) e chega aos 60 anos como um dos humoristas mais prestigiados do meio. E se houvesse uma fórmula, quais seriam os ingredientes do humor desse nova-iorquino?
VALORIZAR O COMUM
“As pessoas querem que eu perca meu tempo escrevendo essas coisas para depois fazê-las perder tempo com isso. Então perder tempo com algo tão estúpido é bom para mim”, disse Seinfeld ao revelar o segredo de suas piadas em entrevista ao New York Times.
Esse interesse pelos simples fatos do cotidiano que ganham uma dimensão de extraordinário é sem dúvida um dos motivos do sucesso da série Seinfeld. No livro Seinfeld e Filosofia (Madras), o professor de filosofia Jorge J.E. Gracia escreve que uma boa comédia geralmente faz com que as insignificâncias do dia a dia “ganhem vida” e que nós, o público, as vejamos sob uma nova perspectiva.
“A comédia é sobre o que é comum, mas tem a ver com não aceitá-la como normal, mas sim a vê-la como extraordinário. Aqui reside a chave para o sucesso na comédia, e aqui está o segredo de humor em Seinfeld. O programa não é sobre acontecimentos importantes na vida dos personagens; é sobre o que ninguém considera importante”, afirma Gracia.
FALAR SOBRE O QUE NINGUÉM SE IMPORTA
Quando estava lançando a nova temporada do webshow Comedians in Cars Getting Coffee, em abril deste ano, Seinfeld falou sobre não explorar elementos como sexo, sensualidade, violência, política e outros em seus textos, o que poderia lhe render uma audiência mais fácil.
“Uma pessoa que pode se defender com uma arma não é muito interessante. Mas uma pessoa que se defende com aikido ou tai chi? Muito interessante. É muito mais fácil quando você está falando de algo que é realmente importante. Você tem uma base melhor do que alguém que está trazendo à tona algo que não precisa ser discutido”, defende o comediante.
Para ele, o grande desafio é falar sobre o que ninguém considera importante e fazer esse assunto ser visto como interessante. “Eu faço um monte de material sobre a cadeira. Eu acho a cadeira muito engraçada. Isso me anima. Ninguém está realmente interessado nisso – mas eu vou fazer você se interessar. Isso, para mim, é apenas um jogo divertido. E é toda a base da minha carreira”.
 
O elenco principal da série Seinfeld
CRIAR PERSONAGENS QUE SÃO GENTE COMO A GENTE
Outra característica da série Seinfeld é criar personagens que são tão comuns quanto o espectador que a assiste. George, Kramer e Elaine poderiam ser qualquer um de nossos conhecidos e, em cada um, os criadores da série exploram uma vertente humorística.
“Seinfeld faz a função de Groucho Marx, a comédia intelectual baseada em comentário. George faz o gênero de palhaço intelectualizado, ‘noiado’ e que pensa em tudo, sempre atrás de mulheres, que lembra muito o palhaço que Woody Allen interpreta em todos os seus filmes. A comédia física de Harpo Marx está em Kramer, que trabalha com a autodepreciação em chave de comédia física”, escreve o roteirista e escritor Newton Cannito, ao comentar as características dos personagens do seriado.
A HERANÇA DO HUMOR JUDAICO
A veia humorística de Seinfeld segue o tom dos outros humoristas judeus – curiosamente, muito interessados em situações e tipos de pessoas comuns. Estão nessa lista nomes como Groucho Marx, Mel Brooks, Jerry Lewis, Eddie Cantor, Max Apple e Woody Allen. Aliás, o primeiro piloto da série Seinfeld foi recusado por ser “judeu demais”. No entanto, o tema foi abordado várias vezes no seriado – entre elas, a vez em que Elaine descobriu que fazia sucesso com os homens judeus por não ser judia ou do dentista que se converte ao judaísmo apenas para fazer piadas. Ou seja: no humor, não basta ser judeu, é preciso saber fazer boas piadas sobre isso.
NÃO QUEBRAR A SEQUÊNCIA DE IDEIAS
A alta produtividade de Seinfeld é fruto de um método que parece simples e lá fora ganhou o nome de “não quebre a sequência” (em inglês, “don’t break the chain”). Para o humorista, o segredo para escrever boas piadas é escrever todo dia, criando uma sequência e marcando um “X” numa tabela para que você possa ver sua produtividade diária. O método – que, para o humorista, é um hábito tão óbvio que ele não acredita que isso seja, de fato, um conselho relevante para alguém – virou até um aplicativo para celular e tablet (com o nome Don’t Break The Chain) e pode ser usado para diferentes atividades.
EVITAR A REPETIÇÃO
Quando Seinfeld acabou, em 1998, muitos esperavam que Jerry logo se aventuraria em outra sitcom. Só que não. Desde então, o humorista vem se dedicando a projetos menos ambiciosos em diferentes formatos, entre eles o documentário Comedian (2002), o filme Bee Movie (2007), o programa The Marriage Ref (2010) e o mais atual Comedians in Cars Getting Coffee, iniciado em 2012 e onde ele leva humoristas como Seth Meyers, Chris Rock, Tina Fey, Jason Alexander (George Constanza), entre outros, para uma volta de carro e um café.
Em entrevista recente, Jerry comentou que após o sucesso, nos anos 1990, todos esperam dele um novo grande sucesso na TV, menos ele. Por outro lado, ele e Larry David, sua dupla no texto e produção da série Seinfeld, estão trabalhando em um novo projeto guardado a sete chaves. No entanto, devido ao histórico da dupla, fica difícil para o público não esperar algo grandioso.
 
Larry David, parceiro de longa data de Jerry, no programa Comedians In Cars Getting Coffee
 
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