Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 12.09.2011 12.09.2011

A receita da felicidade de Martha Medeiros

Por Cintia Lopes
Na foto ao lado, a escritora Martha Medeiros / Crédito: Carlos Contreras

Martha Medeiros é daquelas pessoas que têm a capacidade de engatar um animado papo mesmo sem nunca antes ter visto você. Histórias e “causos” divertidos não faltam a essa gaúcha de Porto Alegre, uma das cronistas mais bem-sucedidas do país, e que acumula legião de fãs não somente entre os leitores dos jornais O Globo e Zero Hora, dos quais é colunista há vários anos, como na internet, onde seus textos são reproduzidos a exaustão e muitas vezes atribuídos erradamente como sendo de sua autoria. “Eu prefiro ser lida por menos gente a ser conhecida por um milhão de pessoas por um texto falso e com final cafona”, compara.

Craque na arte de comentar sobre as questões do cotidiano, em especial quando a temática envolve as relações humanas, Martha marca a chegada aos 50 anos com o lançamento do livro Feliz Por Nada (L&PM), que reúne 80 crônicas, e dá a sua receita de felicidade: simplicidade. “Acho bom a gente sempre lembrar que pode ser feliz com poucas coisas. Que não é preciso estar na capa da Caras nem ser milionária… As coisas do dia a dia, a nossa família…tudo é fonte de felicidade”, ensina.
Ela, que se auto-intitula uma dona-de-casa que escreve livros, relembra o início da carreira como publicitária e conta que se tornou escritora por acaso. Nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, a autora de 16 publicações, cinco delas lançadas no ano passado também em uma caixa especial pela editora L&PM.
Comenta ainda as adaptações de seus livros para o teatro, cinema e até TV, como o “clássico” Divã, que virou filme e série estrelados por Lilia Cabral. Além de Doidas e Santas, adaptação do volume de crônicas homônimo levado aos palcos por Cissa Guimarães.
 
Em que o livro Feliz Por Nada se diferencia dos seus trabalhos anteriores?
Martha Medeiros. Ele é mais uma coletânea de crônicas. Costumo selecionar crônicas a cada dois anos para publicação. Por que tu sabes que crônica é um gênero que some, né? Tu publicas num dia e no outro já está servindo pra embrulhar peixe. Então é uma maneira que eu tenho de dar uma vida útil um pouco maior ao texto e de garantir meu direito autoral. Porque circulam muitos textos na internet com a autoria trocada então, o livro serve como um certificado de originalidade. O diferencial é que o título traz uma visão mais positiva do mundo. Estamos vivendo uma época que é tudo tão catastrofista então, acho bom a gente sempre lembrar que pode ser feliz com poucas coisas. Que não é preciso estar na capa da Caras, nem ser milionária… enfim, as coisas do dia a dia, a nossa rotina, a nossa família… isso tudo é fonte de felicidade.
Como surge a inspiração para as crônicas publicadas nos jornais O Globo e Zero Hora?
Martha Medeiros. Escrevo crônicas há 17 anos. Antes, tudo era novidade e tinha todos os assuntos pra falar. Depois de tanto tempo essa é a parte mais difícil. O que ainda pode ser original e interessante? O que ainda eu não escrevi?  e cheguei a conclusão de que nada mais é original (risos). Às vezes eu fico mais ligada nos detalhes… identifico numa frase de um livro, num trecho de um filme o que me serve de inspiração. Ou até mesmo um bate-papo durante um chope com uma amiga que me conta uma historia interessante. Acontecimentos do cotidiano. Começa sempre de uma palavra e as ideias vão surgindo.
Mas os textos que abordam a questão dos relacionamentos são geralmente os mais comentados entre os leitores. Como você avalia esse fascínio do público pelo tema?
Martha Medeiros. Relacionamento em geral, sejam eles: homem x mulher, pais x filhos formam um universo muito rico e amplo. Sou tão atraída por esses temas da psicanálise que de vez em quando me atrevo a dar pitacos nas histórias. Eu mesma comecei a fazer análise no final do ano passado. Quando escrevi Divã, há dez anos, eu nunca tinha entrado num consultório. Não fui lá pra resolver um problema específico. É mais uma troca de ideias, uma maneira de conversar e identificar o que ainda pode ser descoberto dentro da gente.  É um processo de autoconhecimento.
O fato de você escrever crônicas do cotidiano cria um grau de intimidade maior com os leitores e muitos acham que podem ter suas histórias retratadas nos jornais. Como você lida com isso?
Martha Medeiros. O engraçado é que as pessoas acham que daria não só uma crônica como um livro! Isso eu também já levei pra discutir na análise (risos). É claro que eu digo não! Não existe isso. Todas as vidas podem render um livro dependendo da forma como é contada, mas não é assim que funciona. As pessoas contam as histórias e dizem: quando você for escrever, por favor, omite o meu nome… (risos) já certo que eu irei escrever. É uma fantasia. Eu até entendo esse fascínio porque estamos vivendo numa sociedade onde estamos expostos a todo momento. Parece que se tu não se expõem, não existe. Parece que a vida entre quatro paredes é invisível. Então todo mundo fica nessa fissura para se abrir. Acho um pouquinho neurótico. Com essa história das redes sociais parece que está todo mundo numa vitrine.
Por falar nisso… qual a sua ligação com as redes sociais?
Martha Medeiros. Inexistente. Eu sou totalmente jurássica nesse aspecto. Tem vários perfis “fakes” nas redes sociais. Não tenho facebook nem twitter… e a explicação é simples: eu já me exponho tanto escrevendo que acho que não precisa de mais nada. O meu papel é escrever e ficar em casa. Porque senão acham que é de domínio público também manter esse laço e eu realmente não tenho tempo pra isso. Também acho chato ver esses falsos textos de minha autoria circulando pela internet. É complicado, mas não tem muito o que fazer. Eu prefiro ser lida por menos gente, mas que as pessoas tenham acesso ao texto original, a ser lida por um milhão de pessoas com um texto falso, trouxa e com final cafona.
Antes de se tornar escritora você trabalhou como publicitária por 14 anos. O que essa experiência acrescentou à sua atual carreira?
Martha Medeiros.  A propaganda lida com o humor, tem uma grande objetividade e isso eu trouxe para os meus textos. Acho que é fruto dessa experiência que eu tive também nessa área. Na verdade, eu troquei de produto. Meu produto agora sou eu. Eu acho que meu texto continua sedutor e continuo, de certa forma, a vender… ideias, impressões e pontos de vista em relação ao mundo.
Como funciona a adaptação de textos para teatro e cinema? Você costuma opinar na produção e escolha de elenco?
Martha Medeiros. Nunca precisei. Com a peça Divã, por exemplo, estava em casa e quando tocou o telefone era a Lilia Cabral! Não a conhecia pessoalmente e adorei a proposta. Com a Cissa Guimarães, com Doidas e Santas, foi o mesmo caso. Ela me procurou e depois acompanhei uma leitura de texto na casa dela. Eu até dou algumas sugestões, mas temos que entender que aquilo não é mais literatura e sim teatro.
Como costuma ser a sua reação ao assistir pela primeira vez um texto de sua autoria encenado no palco?
Martha Medeiros. Agora já estou acostumada… Tem que se desapegar (risos). Porque senão fica todo mundo sofrendo, né?  Quando estou escrevendo um livro é propriedade privada. Depois que adaptar, não passa a ser exclusivamente meu. É claro que isso também alavanca a venda de livros e o mantém em evidência nas livrarias. Também atrai um público que às vezes nem tem o costume de ler. O Divã é um caso clássico. Agora estamos em negociação para a adaptação do Fora de Mim para o teatro no ano que vem.
Como foi a chegada aos 50 anos… Enfrentou alguma crise?
Martha Medeiros. Como eu escrevo coisas do cotidiano, vivência… nunca tinha pensado nessa questão da idade. Passei pelos 30, 40 anos, mas quando se chega aos 50 não é brincadeira. Por mais que eu tenha a noção de finitude, a saúde esteja em dia, a aparência ok… dá um pouco de medo. Acho que o lado bom de se fazer 50 anos é não desperdiçar o tempo com bobagens. Agora tu sabes quem são seus afetos verdadeiros, o que tu gostas na vida, o que te irrita, o que te traz momentos bons. A tua qualidade de vida nesse sentido é muito melhor. Deixar de querer ser boazinha com todo mundo. Deixar de sofrer, de ter culpa. Valorizar o que realmente nos interessa.
Qual dica você daria para aqueles que querem se aventurar no ramo da literatura?
Martha Medeiros. Primeira dica: seja humilde. Mas parece que com a literatura as pessoas acham: sei escrever, vou lançar um livro. Acho que é preciso identificar realmente se o que tu escreves tem um diferencial. Ler muito e, de preferência, frequentar uma oficina de literatura. As pessoas que escrevem querem publicar. Esses cursos são bons para receber orientação de um profissional. Mas acredito que o fator sorte também é determinante nessa carreira.
 
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