Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 26.03.2012 26.03.2012

A realidade e o cinema documental de Andrés Di Tella

Por Sarah Corrêa

Muitas vezes, entrevistar alguém com uma rotina sabidamente corrida pode se tornar um desafio quase impossível de ser completado.

 
Cineasta, crítico de cinema, professor em Princeton (EUA), jurado e palestrante. Ao entrar em contato com Andrés Di Tella, surgiu logo um receio de a pauta cair. Afinal, com tantas tarefas, responder a um e-mail pode custar um tempo precioso.
Contudo, para a minha surpresa, o bate-papo por e-mail se deu de forma fluente. Começou com o inglês, passamos para o espanhol e logo as trocas de e-mail acabaram no portunhol. Diferenças idiomáticas à parte, é rápida a relação de simpatia criada com Di Tella.
A atenção e simpatia dispensadas a seus interlocutores são responsáveis, em parte, pela efetivação da produção documental deste argentino.
 
Além dessas qualidades intrínsecas a ele, as ascendências maternas e paternas também se encaixam como ingredientes indispensáveis ao olhar rico de Di Tella.
 
Filho de pai italiano, Torcuato Di Tella – fomentador do cenário cultural argentino na década de 60 – e com a mãe de origem indiana, Kamala Apparao, o cineasta carrega nas ideias o signo da importância familiar.
 
Foi Di Tella que idealizou o BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires).
 
Em 1999, logo na primeira edição, convidou a então jovem Sophia Coppola, que, para surpresa do argentino, viajou ao país sul-americano com seu pai e mestre, Francis Ford Coppola.
Com passado e presente gloriosos, Andres Di Tella é o homenageado na Retrospectiva Internacional desta 17 ª edição do Festival É Tudo Verdade. 
 
Estarão em cartaz, até o dia 28 deste mês, em sessões gratuitas no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), na capital paulista, algumas obras fundamentais do diretor, dentre elas A Televisão e Eu, País do Diabo, Fotografias e Proibido.
 
Francis Ford Coppola e Andrés Di Tella
Leia na íntegra a entrevista que Di Tella deu ao SaraivaConteúdo.

Sua relação com o É Tudo Verdade já vem de um certo tempo. Depois de participar da competição internacional e de ser jurado, como é estar na posição de homenageado?

Andrés Di Tella. É uma grande honra ser homenageado neste festival de documentários, que é o mais antigo e importante da América Latina. O gênero documental parece ter contornos cada vez mais imprecisos. O público, os críticos e os cineastas vivem se perguntando onde termina o documental e começa a ficção. Todos reconhecemos que, assim como na ficção, também são usados alguns artifícios no documentário. Reconheço meu trabalho como peça de uma tradição, que vai de Robert Flaherty a Jonas Mekas e de Joris Ivens a Eduardo Coutinho. E, dentro desta tradição a que pertenço, é muito significativo um festival como o É Tudo Verdade, por isso fico muito agradecido desta ser minha terceira participação nele.
 
Qual seu contato com a produção documental brasileira?
Andrés Di Tella. Além de cineasta, também sou curador de cinema. Fui o fundador e idealizador do primeiro BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires) e, desde 2002, dirijo o Princeton Documentary Festival (da Universidade de Princeton, nos EUA), que tem um foco especial na produção documental latino-americana. E, nesse sentido, temos muitos títulos brasileiros. Inclusive, alguns dos títulos mais memoráveis deste ano são do Brasil, como Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut; Peões e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho; Entreatos e Santiago, de João Moreira Salles; Justiça e Juízo, de Maria Augusta Ramos; Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Eu não só participo desta programação, que recebe esses títulos, mas também reflito sobre a minha própria prática enquanto diretor estando em contato com essas obras.

Como surgiu a sua relação com o É Tudo Verdade?

Andrés Di Tella. Conheci o festival através de referência, antes de vir pela primeira vez. É preciso lembrar que, há alguns anos, o cinema documental era uma terra esquecida e não havia tantos festivais consagrados dedicados ao gênero. Então, fui convidado para ser jurado da Competição Internacional, no É Tudo Verdade. Também participei da competição por duas vezes, com La Television Y Yo (2002), que teve a estreia mundial primeiro aqui, no Brasil, mesmo antes da Argentina, e com Fotografias (2008). Também participei da Conferência Internacional, que é uma das atividades mais importantes deste evento, já que muitos festivais não fazem isso, e é o que dá para ter uma visão e reflexão mais ampla sobre a produção estrangeira.

Na coletiva de imprensa que ocorreu recentemente pra apresentar esta edição do festival, Amir Labaki comentou que, nesta década, temos uma nova estética na produção documental. Se, após 2001, os documentários foram muito influenciados pelo viés político, pelo fato dos ataques às torres gêmeas, agora, temos uma volta à estética mais intimista. O que você acha dessa opinião?

Andrés Di Tella. Não posso dizer que os ataques de 11 de setembro influenciaram no ato de fazer documentário na América Latina, tanto quanto podem ter influenciado os próprios Estados Unidos e a Europa. Na Argentina, por exemplo, foi muito mais decisiva a crise política e econômica de 2001, que gerou um aumento na produção de documentários. Em qualquer caso ou razões, não há dúvidas que a última década foi marcada por um intenso crescimento na produção documental. Desde 2001, foi a fase mais prolífica na história do documentário. Com certeza, o olhar subjetivo e íntimo do ser humano contribui com essa riqueza que tem se percebido nesse gênero.
Você é um dos grandes nomes do Novo Cinema Argentino. Na sua visão, qual é a característica que mais reflete sua produção?
Andrés Di Tella. Uma das características do chamado ‘Novo Cinema Argentino’ é a influência do documentário na ficção. Por isso, creio que muitos dos títulos mais significativos dos últimos anos têm, digamos, reflexos documentais que os cercam, ainda que não de uma forma direta e complacente. Meu trabalho, por si, tem que enxergar estas curvas entre a ficção e o documentário, narrativa e documento, testemunhos e fábula, memória e invenção, intimidade e política, público e privado.

Filho de Torcuato Di Tella, fomentador do cenário cultural argentino na década de 60, e de Kamala Apparao, de origem Hindu, como absorveu esta herança étnica que seus pais deixaram a você?

Andrés Di Tella. Creio que, na Argentina, ser filho de um pai com ascendência italiana é tão exótico quanto ser filho de uma mãe nascida na Índia. Essa condição me predispõe a entender os caminhos e contradições das nossas sociedades. Também me permitiu descobrir que não existe família que não tenha uma história que não mereça ser contada. Aliás, uma não, muitas histórias.
 
 
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