Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.10.2010 11.10.2010

A prosa nua de Martha Medeiros

Da Redação

O mais novo romance de Martha Medeiros, Fora de mim (Objetiva) é íntimo, confessional, umbilical. Tudo o que os leitores de suas crônicas semanais nos jornais Zero Hora e O Globo poderiam esperar. O momento posterior à explosão, à separação, “a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda”, é o mote inicial da mulher fora de si, que narra.

Poucas horas após encerrar um casamento de 14 anos, a protagonista se envolve com um homem de personalidade conturbada que a levará, ela mesma sempre soube, à dor. A simplicidade da prosa não é rasa e a impressão do estilo é a de um Luis Fernando Veríssimo mulher. Como seu conterrâneo, Martha já teve seu humor adaptado a outros meios. Doidas e Santas (L&Pm), com Cissa Guimarães, e Divã (Objetiva), com Lilia Cabral, já foram sucessos no teatro, esse último levado ao cinema pelo diretor José Alvarenga Jr.

O primeiro livro da autora, de poesia, publicado há 25 anos, já se chamava Strip-tease, uma pista da prosa nua, cheia de doação, que cativa um público feminino fiel. “Tudo aconteceu de forma circunstancial”, diz a cronista, que em certas ocasiões chega a dizer ainda não saber escrever ficção. Confira abaixo cinco perguntas feitas à Martha Medeiros, seguidas da entrevista em vídeo para o SaraivaConteúdo, realizada na Escola Lucinda de Poesia Viva, no Rio de Janeiro.

 

Com mais de 18 livros publicados, você completou 25 anos de carreira. Como avalia essa trajetória? O que faria diferente?

Martha Medeiros. A trajetória é surpreendente, já que não foi arquitetada. Tudo aconteceu de forma circunstancial. Eu era uma publicitária que gostava de escrever poemas e tive meu primeiro livro publicado aos 23 anos de idade, numa coleção de muito prestígio na época, a Cantadas Literárias, da editora Brasiliense. Achei que a poesia seria um hobby para sempre, mas depois tive a oportunidade de escrever para jornal, e aí me aventurei na ficção, e tudo continuou dando certo, sempre certo. Até hoje olho para trás e me sinto grata e honrada, pois tenho consciência de que há muita gente boa escrevendo no Brasil e o mercado editorial não consegue absorver todos esses talentos.

Se eu faria algo diferente? Talvez trocasse os títulos de alguns livros meus, bobagens assim, mas de radical, nada. Estou plenamente satisfeita com a maneira que as coisas andaram.  

Seu novo livro, o romance Fora de mim (Objetiva, 2010), trata da dor da separação. Até que ponto sua vida pessoal se mistura com seus escritos?

Medeiros. Tudo que eu escrevo (poemas, crônicas, ficção) tem algo de mim, do que penso, sinto, vivo, e também do que idealizo, fantasio, imagino. Não há um grande distanciamento, o que não significa que tudo que eu faça seja biográfico. Não tenho uma vida tão movimentada e exótica que me permita preencher 19 livros, então óbvio que há muita ficção, mas o pontapé inicial é sempre algo que dentro de mim está pedindo para ser expressado.

Você vive e trabalha em Porto Alegre. De que forma essa localização geográfica interfere em seu trabalho?

Medeiros. No resultado final, em nada. Se eu vivesse no Rio ou em Bali o meu estilo seria o mesmo. Os assuntos tratados poderiam ser outros, uma vez que o cotidiano me abastece, e o cotidiano das cidades são diversos, mas mesmo isso acho que não haveria muita alteração, porque gosto de escrever sobre as relações humanas, sobre nossas complexidades, e isso é universal. Porto Alegre me convida a ficar mais em casa, não tem praia, o inverno é forte, e isso tudo estimula a leitura e a introspecção, mas admito que estou especulando, porque essa é uma pergunta que não me faço.      

O livro de poemas Strip-Tease, publicado em 1985 na coleção Cantadas Literárias, foi sua estréia na literatura. Como é sua relação com a poesia hoje?

Medeiros. Os primeiros quatro livros foram de poemas. Naquele tempo eu não imaginava que pudesse desenvolver prosa, sempre tive mais facilidade para a síntese, para a literatura econômica, de poucas palavras. De certa forma, isso continua: crônica geralmente é um texto curto, e mesmo meus trabalhos de ficção não são longos, eu tenho o vício da objetividade, gosto de buscar o caminho mais rápido para chegar na emoção. Hoje a poesia está um pouco de lado porque tenho prazos a cumprir com os jornais, então eu fiquei mais absorvida pelas colunas, e a ficção tem me cativado mais do que os versos, mas não abandonei nada, é apenas uma trégua. Meu último livro de poemas foi publicado em 2001. Tenho algum material inédito guardado, então talvez publique um novo livro de poesia no próximo ano.     

Doidas e Santas ganhou uma adaptação teatral com a atriz Cissa Guimarães, assim como Tudo que eu queria te dizer com Ana Beatriz Nogueira. Além disso, Divã já foi sucesso no teatro e no cinema com Lilia Cabral. Como você encara essas adaptações de seus livros?

Medeiros. Eu gosto demais quando isso acontece. É a chance de levar meu trabalho a outro tipo de público, muitas vezes um público que não tem o hábito da leitura e que através da peça se sente estimulado a buscar os livros. É a oportunidade também de eu testemunhar a reação coletiva da platéia, de assistir suas gargalhadas ou soluços…  O escritor nunca temo privilégio de “ver” seu leitor consumindo sua obra, ao contrário do músico, do ator, do bailarino, que interagem instantaneamente com seu público. Além de tudo isso, através do teatro tenho conhecido pessoas muito bacanas, que acabaram se tornando amigas. Enfim, até aqui, nada a reclamar, só a festejar.  
  

> Leia um trecho de Fora de mim (Objetiva)
 

 

Recomendamos para você