Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 02.12.2011 02.12.2011

A Prisioneira, 5º volume da obra Em Busca do Tempo Perdido de Proust, ganha edição com trechos adicionais

Por Andréia Silva
Na imagem ao lado, Proust
 
"Eu também tenho uma opinião sobre Proust. Dois pontos: é o autor mais difícil do século 20. Não que ele seja obscuro, malarmêsco, isso não. Mas escreve mal. Os períodos não acabam nunca; arrastam-se por entre um cipoal de conjunções, preposições, pronomes pessoais, o diabo". A frase de Carlos Drummond de Andrade (escrita no número dois de d'A Revista, uma publicação da turma do modernismo mineiro da década de 20), se dita hoje, encontraria ecos em outras vozes.
 
Ler Proust não é tarefa das mais fáceis. O próprio irmão do francês, Robert, tinha uma frase clássica sobre o livro. "O triste é que as pessoas precisam estar muito doentes ou então terem quebrado uma perna para terem a oportunidade de ler Em Busca do Tempo Perdido".
 
Para quem se enquadra em uma das situações acima ou simplesmente tem curiosidade de devorar um clássico, o lançamento de A Prisioneira (Editora Globo), quinto volume de Em Busca do Tempo Perdido, pode ser sua válvula de motivação.
 

A publicação conta com revisão da tradução original feita por Manuel Bandeira, mas seu grande diferencial são os trechos inéditos da obra, descobertos recentemente na França.

“Até o volume 4, a coleção traz os textos já conhecidos. Com os manuscritos descobertos, especialistas fizeram as adaptações ao texto de A Prisioneira, então inéditos até a revisão e tradução de Bandeira”, diz Marcos Strecker, diretor editorial da Editora Globo.
 
Em A Prisioneira, tecem-se novos paralelos com outras cenas-chave de volumes anteriores, como a que abre o primeiro volume da série — a do garoto que aguarda o beijo de boa noite da mãe, uma relação explorada por Proust na obra. No entanto, uma das características de Proust é desregular o tempo e a realidade, o que permite que você comece a saga por qualquer volume. As peças vão se encaixando. Você só escolhe o caminho.
 
Strecker adianta que os manuscritos descobertos também permitiram que novos trechos fossem acrescentados aos dois últimos volumes da obra – A Fugitiva e O Tempo Reencontrado. O último, segundo ele, é o que mais ganhou a inclusão de novos trechos. Os dois serão lançados em 2012, cada um em um semestre. Além disso, a editora vai lançar um guia com os personagens e lugares citados na obra Em Busca do Tempo Perdido.
 
“Proust é, até hoje, um dos autores mais estudados no mundo e o principal na França. Já é um patrimônio cultural do país. Uma coisa que mantém esse clássico vivo é a interpretação de cada geração para ele. Tudo isso é facilmente explicado pelo estilo que ele introduziu ao romance moderno. Proust é um fenômeno”, diz Strecker.
 
Entre o clássico e o pop
 
O enorme calhamaço que se estende por sete volumes – foram 14 anos escrevendo a história – é considerado a primeira obra clássica do século 20 e um dos livros mais editados no mundo, sendo que, ao longo dos anos, caminha entre o clássico e o pop, tentando ao máximo não se render ao segundo. O que não deixa de ser curioso, já que no próprio Em Busca…, Proust já dividia suas impressões e angústias da elite francesa.
 
Em Busca do Tempo Perdido ganhou um leve ar pop ao ser adaptado para os quadrinhos e até inspirar um livro de autoajuda nas mãos do suíço Alain de Botton. Embora tenham provocado ira nos mais conservadores, ambos colaboram para deixar a obra mais acessível. A HQ, de autoria de Stéphane Heuet, foi considerada pelo jornal francês Le Figaro como um "assassinato" da obra principal.
 
Já o livro de Botton, Como Proust Pode Mudar sua Vida, também não foi bem recebido pelos fãs de Proust ao adaptar a história para um guia prático de como resolver questões cotidianas usando os fracassos de Proust. Pegá-lo como modelo é curioso se pensarmos que ele viveu com dificuldades devido à asma, era gay — algo que, para a sociedade da época, era um problema — e só teve seu trabalho reconhecido após sua morte.
 
Quem encara as mais de duas mil páginas da principal obra de Proust não costuma considerar a leitura perda de tempo. Vide a escritora Virginia Woolf que, depois de ler as centenas de páginas de Em Busca do Tempo Perdido, concluiu que seria impossível escrever, a partir dali, algo com a qualidade da obra de Proust. "Estou tendo arrepios, com a horrível sensação de que descerei cada vez mais e mais, para talvez nunca mais voltar à superfície". Felizmente ela mudou de ideia.
 

Em Busca do Tempo Perdido é uma imensa teia de episódios distantes e aparentemente isolados que se espelham continuamente. De seus leitores, espera-se a mesma disposição de espírito do herói para unir um episódio ao outro desses diferentes mundos de Proust. A pergunta é: você está pronto?

 
Recomendamos para você