Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.08.2012 30.08.2012

“A pornochanchada tão falada e difamada é apenas um filme com ligeiras nuances de erotismo”

Por Daniela Guedes
 
Quem vê aquele senhor do alto dos seus 78 anos, vestido com um bem cortado terno branco, falando com propriedade sobre o cinema nacional, sobre produções da década de 60, 70 e 80, pode não imaginar que ele desempenhou um grande papel atrás das câmeras, não propriamente como diretor de filmes, apesar de algumas vezes assumir a direção de algum trabalho, mas sim como o principal e maior produtor de cinema da extinta Boca do Lixo, em São Paulo.
O nome desse respeitável senhor é Antonio Polo Galante, ou A. P. Galante, para os mais chegados, que se especializou em quase todos os gêneros em sua filmografia, composta por mais de 65 títulos: dramas, pornochanchadas, westerns, filmes de cangaço, musicais, policiais, sertanejo. Nenhum outro produtor brasileiro possui uma cartela de títulos tão diversificada – o que não o impedia de investir também em produções autorais, como A Ilha dos Prazeres Proibidos (1978) e Anjos do Arrabalde (1987), de Carlos Reichenbach.
O início de Antonio Polo Galante no cinema coincide com o fim do ciclo dos grandes estúdios, no final dos anos 50. Ainda adolescente, interno do orfanato do juizado de menores de São Paulo – para onde foi levado após a morte da sua mãe e o sumiço do seu pai –, Antonio, nas raras vezes que saiu do orfanato, conheceu o cinema e se apaixonou.
Foi guia de cegos, morou nas ruas de São Paulo, serviu ao exército e, após ter dado baixa das Forças Armadas, ingressou como uma espécie de ajudante de serviços gerais no Estúdio Cinematográfico Maristela, pelas mãos de Alfredo Palácios, então diretor de produção da companhia, com quem anos depois viria a montar uma firma produtora de filmes, a Servicine.
A. P. Galante acabou por se fixar na conhecida Boca do Lixo – naquele tempo, um centro cinematográfico aglutinador, para onde convergiam produtores, diretores, roteiristas, técnicos, distribuidores, atores, atrizes, aspirantes em geral. Inicialmente ele atuou com compra e venda de material e, mais tarde, já como sócio de Palácios na Servicine, produziu mais de 40 filmes, numa parceria que durou até 1976.
Grande parte desse sucesso em número de trabalhos produzidos e distribuídos era por conta da forma com que Galante e Palácios lidavam com os exibidores. Estes, necessitando cumprir a lei de obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais, adiantavam os pagamentos à Servicine, ou seja, contato direto com o exibidor, sem intermediários. Mas na lista de filmes produzidos, poucos contaram com a participação da Embrafilme na produção e distribuição, entre eles Lucíola (Alfredo Sternheim), À Flor da Pele (Francisco Ramalho Jr.), Convite ao Prazer (Walter Hugo Khouri) e Anjos do Arrabalde (Carlos Reichenbach).
Com a sociedade desfeita, Antonio Polo Galante inaugurou a Produções Cinematográficas Galante e produziu sozinho, até o início dos anos 90, uma quantidade superior a 50 obras para o cinema. E foi com esse feito que ele passou a ficar conhecido como o “rei da Boca”. Um dos motivos pelo qual ele conseguia assegurar a continuidade produtiva e o cumprimento dos prazos era o fato de, sempre que possível, manter a mesma equipe, ou seja, eram técnicos e diretores quase fixos.
Nos anos 70, a pornochanchada começou a estourar no Rio de Janeiro com o filme Os Paqueras, estrelado por Reginaldo Farias. Galante rapidamente tomou a decisão de também trazer para São Paulo o estilo que levava milhares de pessoas aos cinemas, ainda que a crítica especializada torcesse o nariz para tal categoria de filme.
Então, ele começou a filmar As meninas querem e os coroas podem. Sem dinheiro em caixa, o produtor ainda assim conseguiu terminar a produção, devido ao seu enorme prestígio junto aos laboratórios, à equipe e os atores, que aceitaram receber os pagamentos no final das filmagens.
Alguns títulos – além de As meninas querem e os coroas podem –, como Sabendo Usar Não Vai Faltar (Francisco Ramalho Jr., Adriano Stuart), Kung Fu Contra as Bonecas (A. Stuart), Lilian, a Suja e A Primeira Noite de Um Adolescente (Antônio Meliande), As Safadas (Inácio Araújo, A. Meliande e C. Reichenbach), entre vários outros, já estavam perfeitamente integrados ao esquema da pornochanchada que, mais ou menos a partir de 1975, sedimentou-se na Boca do Lixo.
Ainda quando se fala em pornochanchada, o nome de A. P. Galante figura como um dos maiores, mas seria pouco interessante, depois de sabermos mais sobre a história desse homem, não pensarmos no conjunto da sua obra e, portanto, na sua diversidade. Há, também, na trajetória de Galante, a confluência de dois universos geralmente separados por um abismo no cinema brasileiro: o dos filmes populares e o dos cultos.
A. P. Galante afastou-se do cinema há exatos 14 anos, vive no litoral de Santa Catarina desde 2001 e planeja produzir um longa autobiográfico, inspirado no livro O Bilhete Azul (passaporte para a liberdade) – Fundação Biblioteca Nacional, escrito por sua mulher, Manuela Galante. Mas desta vez, Galante tenta se adaptar a um sistema diferente daquele utilizado por ele, dependendo de editais e verbas públicas. O Bilhete Azul aguarda aprovação da Ancine para iniciar a captação de recursos.
O produtor espera contar com R$ 8 milhões, muitas locações e centenas de figurantes para as filmagens. Se ele conseguirá, aí será outra história, ou melhor: será simplesmente a continuação da sua vasta história e a do cinema nacional também. Por que não?
 
 
 
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