Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 11.10.2013 11.10.2013

A poesia franca e severa de Ruy Belo

Por Zaqueu Fogaça
 
O poeta Ruy Belo (1933-1978) foi um marco na poesia portuguesa do século 20. Sua habilidade no trato da palavra o fez planar sobre diferentes temas: do poema com influências religiosas à poesia política, sempre crítica e reveladora de sua franqueza no jogo de encarar a vida. No ano em que comemoraria seu 80º aniversário, o autor ganha a primeira edição brasileira de suas obras completas, publicada pela editora carioca 7Letras.
 
Coordenada por Manoel Ricardo de Lima, poeta e professor de literatura da UNIRIO, a coleção disponibilizará até o início do ano que vem os nove livros de poesia de Ruy. “Estamos publicando de três em três. Os primeiros foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961), O Problema da Habitação: Alguns Aspectos (1962) e Boca Bilíngue (1966)”, diz Lima, que revela estar preparando um título contendo as críticas e entrevistas do poeta para encerrar o ciclo de suas obras.
 
Ao prezar acima de tudo pela simplicidade, Ruy se lançou nas camadas inferiores da existência para conceber um trabalho que tem conquistado leitores e escritores contemporâneos, entre eles o português Valter Hugo Mãe, que não economiza palavras ao falar do poeta: “Ele tinha uma inteligência para a normalidade, uma espécie de retrato do comum, nunca banalizando, mas dignificando cada instante, as coisas de todos nós, sem heróis, apenas gente”.
 
Boca Bilíngue 
 
De acordo com o autor de A Máquina de Fazer Espanhóis, essas publicações proporcionarão ao leitor brasileiro uma aproximação com a literatura portuguesa. “Abrirão uma janela poderosíssima sobre a famigerada melancolia portuguesa. Não é uma melancolia derrotista, como muitas vezes é fácil de dizer, antes se trata de um sentimento de autenticação, um modo de esperar e merecer cada coisa, um modo de honrar cada sentimento. Ruy Belo honra-se muito. Honra-nos muito. É lindíssimo”.
 
Para quem costumava afirmar que escrever não era outra coisa senão "dar à terra o que era da terra", Ruy foi um poeta engajado, como ressalta Ida Alves, coordenadora do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da Universidade Federal Fluminense: "Ler os poemas de Ruy Belo é ouvir uma voz compromissada com seu tempo, o nosso tempo. Ele não é um poeta de burburinho, é do silêncio dentro de si e no mundo, é um poeta do mar, cuja linguagem vai e retorna como ondas, memória, procura e encontro".
 
Sua estreia como poeta se deu com a publicação da obra Aquele Grande Rio Eufrates, em 1961. Faleceu com 45 anos, em 1978, deixando nove livros de poesia e uma série de textos reflexivos sobre o poético, a poesia e os poetas. "A escrita de Ruy Belo apresenta certas marcas próprias a uma escrita empenhada e política, ao mesmo tempo em que explora outras advindas de uma liberdade de imaginar, de habitar e de desordenar a língua, que o Surrealismo em Portugal incentivou. Ele é, ao mesmo tempo, comovente e instigante, senhor de uma força imagética e verbal rara”, diz Ida.
 
Aquele Grande Rio Eufrates
 
Escritor que viveu em pleno regime ditatorial, Ruy sempre se manifestou contrário ao poder, utilizando-se de sua principal arma: a palavra. “Sua linguagem explora de forma intensa a matéria verbal, sobretudo a camada sonora, e constrói redes complexas de sentido em torno da morte, da solidão, do tempo. Além disso, de uma ética fortíssima, sua palavra é empenhada e se fez ouvir sempre contra o poder, o silenciamento, o autoritarismo e a crueldade existencial”, explica a coordenadora do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da Universidade Federal Fluminense.
 
Ainda Segundo Ida Alves, “sua obra de poesia contribuiu enormemente para a abertura de uma trilha lírica mais atenta às coisas do cotidiano e, ao mesmo tempo, exigente com a linguagem poética e com o compromisso do homem com a vida e com os outros. Sua linguagem explora de forma intensa a matéria verbal, sobretudo a camada sonora, e constrói redes complexas de sentido em torno da morte, da solidão, do tempo”.
 
Após um primeiro momento de fortes influências religiosas em seus versos, enveredou-se pelos caminhos da política, que se fez soar em suas composições. É esse aspecto político tão presente em sua poesia que destaca a poetisa Julia Studart, autora do prefácio do livro O Problema da Habitação: Alguns Aspectos: “O que mais gosto na poesia de Ruy Belo é a força política de seu entendimento do quanto a humanidade vem, a cada tempo, perdendo o sentido de sua própria força para questionar a vida pronta”.
 
O Problema da Habitação: Alguns Aspectos
 
A publicação das obras completas do poeta lança luz sobre um período da literatura portuguesa pouco conhecida pelos brasileiros, conforme adverte Ida: “A literatura portuguesa pós-Fernando Pessoa é muito mal conhecida no Brasil, e ela não compreende somente Ruy Belo, mas há outros poetas que ainda permanecem ocultos aos olhos dos leitores brasileiros. Há vários escritores fundamentais sem edições brasileiras de fôlego maior. Dentre os seus contemporâneos, estão Luis Miguel Nava, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge”.
 
 
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