Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 29.11.2013 29.11.2013

A passagem do tempo nos quadrinhos e os personagens que crescem com os leitores

Por Marcelo Rafael
Harry Potter recebeu sua cartinha de Hogwarts via “correio-coruja” aos 11 anos. No último livro, já estava no final da adolescência, chegando à conclusão da história como um adulto casado e com filhos. Assim, ele cresceu com muitos leitores. E o que parecia natural nas séries de livros – a idade – começa a se apresentar também nos quadrinhos brasileiros.
No Brasil, alguns personagens – como aquela que sempre estava de vestidinho vermelho e carregando um coelhinho, ou a de vestidinho amarelo que vivia comendo –  cresceram. Tornando-se adolescentes, eles trocaram suas roupas, seus penteados e sua maneira de ver o mundo. Mudaram, como todo ser humano.
Em 2008, a Turma da Mônica deu origem à Turma da Mônica Jovem (TMJ), sem finalizar a versão infantil. De início foi um susto, mas logo a publicação virou sucesso e hoje alavanca as vendas de gibis da Mauricio de Sousa Produções.
Neste ano, foi a vez do Chico Bento. No final de agosto, o personagem virou estudante universitário, indo estudar Agronomia em outra cidade, aos 18 anos. Atualmente, Chico Bento Moço já está em seu 3º volume.
No entanto, lá fora também há personagens que “envelheceram” ou que ganharam versões diferentes. No Japão, por exemplo, Naruto inicia a história com 12, 13 anos e, em Naruto Shippuden, já está por volta dos 16.
Outro caso clássico é Dragon Ball. Quando o mangá começou, Goku era apenas um “molecote”. Mas ele cresce, envelhece, casa, tem um filho (que também cresce) e, quando a história se encerra, já é avô.
“Para séries planejadas como ‘infinitas’, como as de super-heróis, o não envelhecimento é um componente vital. Obviamente há muitas HQs que são pensadas desde o princípio como tendo começo, meio e fim (por exemplo, a maioria esmagadora dos mangás). Então, nelas, os personagens podem envelhecer à vontade”, comenta Pedro Bouça, engenheiro de informação e fã/colecionador de quadrinhos.
Mas mesmo os super-heróis “clássicos” envelhecem. Em alguns casos, há idas e vindas em suas idades, de acordo com critérios comerciais das editoras. Em outros, eles simplesmente vão amadurecendo, mas de maneira mais lenta.
Basta lembrar dos X-Men, que começaram como um grupo de cinco adolescentes em uma escola para jovens superdotados. Hoje em dia, Fera não só sofreu ainda mais mutações como é um cientista renomado; Anjo transformou-se em Arcanjo e perdeu suas asas originais; e Jean Grey e Ciclope são pais.
“O Kid Flash (Wally West) envelheceu e se tornou o Flash oficial por anos. Robin (Dick Grayson) deixou de ser um garoto e se tornou não apenas o Asa Noturna, mas também o próprio Batman”, lembra Mauricio Muniz, escritor, editor e jornalista especializado em quadrinhos.
“Por outro lado, a Kitty Pryde [de X-Men] ainda não é maior de idade”, ressalta Bouça. “Então o envelhecimento é sempre relativo”, completa.
Os casos do avanço e posterior retrocesso na idade ocorrem tanto na Marvel quanto na DC Comics, as duas maiores editoras de super-heróis. “Os quadrinhos norte-americanos são franquias que as editoras querem manter sempre. Por isso, ‘atualizam’ os personagens de tempos em tempos, da forma como imaginam que ele funcionará melhor frente ao público consumidor daquele momento”, explica Muniz.
“Se o Superman [que normalmente tem por volta de 30 anos] está na meia-idade, os criadores o deixam mais jovem para que o público se identifique mais com ele”, comenta o escritor, editor e jornalista especializado em quadrinhos.
Dragon Ball e Kingdom Come
Já o Homem-Aranha tem uma história complicada. “Ele começou na escola, entrou na universidade, formou-se, fez pós-graduação e se casou. No último caso [o casamento], porém, foi um passo que a editora [Marvel] considerou excessivo e acabou sendo revertido”, lembra o engenheiro de informação.
No caso de alguns heróis, a passagem do tempo pode gerar problemas lógicos: como campeões que lutaram contra Hitler na Segunda Guerra Mundial estariam ativos décadas depois? Os meios para resolver isso são os mais variados.
Com o Capitão América, optou-se pelo “congelamento do tempo”: ele ficou preso durante décadas em um iceberg, enquanto outros homens trajavam o seu uniforme. Com Superman, Mulher-Maravilha, Batman e o restante da Liga da Justiça, a solução foi jogá-los em uma dimensão paralela, onde, idosos, formam a Sociedade da Justiça.
E essas variantes podem chegar a fazer mais sucesso que as versões tradicionais. “Uma das versões mais amadas de Batman é a dele mais velho, ‘cinquentão’, em O Cavaleiro das Trevas. Embora tenha sido usada apenas em histórias fechadas, sempre foi muito influente”, comenta Muniz.
Com personagens infantis, como a Turma da Mônica, o salto pode ser muito expressivo e causar alguns problemas. “Se o Calvin crescesse, em dois ou três anos ele teria, necessariamente, de viver aventuras diferentes. Se Charlie Brown tivesse crescido normalmente, já teria netos, e o Snoopy estaria morto há anos. Então, do ponto de vista criativo, é necessário manter esses personagens imutáveis”, avalia Bouça.
Já para o escritor, editor e jornalista especializado em quadrinhos, tudo dependeria dos envolvidos. “É possível contar ótimas histórias com qualquer personagem se o roteirista conseguir um ângulo interessante. Versões mais velhas de Mafalda etc. poderiam ser interessantes, sim, com a equipe criativa correta”, diz.
Com o Menino Maluquinho – originário dos livros, e não dos quadrinhos – já foram apresentadas versões televisivas (Um Menino Muito Maluquinho, TV Brasil) com o personagem em três etapas (aos 5, 10 e 30 anos). Entretanto, em suas entrevistas, Ziraldo sempre reitera que tudo que tem a dizer sobre o futuro do Menino é que “ele cresceu e se tornou um cara legal”.
Já Mauricio de Sousa pretende dar mais uma nova cara à sua turminha com a futura Turma da Mônica Adulta, daqui alguns anos. Se depender dos sucessos de TMJ e Chico Moço, essa versão, que envelhecerá “em tempo real” com o público, tem tudo para agradar aos leitores.
                                                                                                                               Divulgação – TV Brasil
O Menino Maluquinho
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