Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.07.2011 21.07.2011

A palavra dos mil conceitos

Por Bia Carrasco
Foto: Paulo Guimarães
 
“Mas onde se deve procurar a liberdade é nos sentimentos. Esses é que são a essência viva da alma”, escreveu o escritor alemão Goethe no século 18. Os tempos mudaram e muitos tabus derrubados, mas a discussão sobre o significado dessa palavra tão subjetiva continua. Foi assim que surgiu a ideia de produzir a antologia Liberdade Até Agora (Editora Móbile), lançada neste mês.
 
Organizado por Eduardo Coelho e Marcio Debellian, e ilustrado pela artista Joana Cocarelli, o título é um compilado de 21 contos. Entre os autores, estão nomes consagrados e contemporâneos, que abordam a liberdade sob diferentes épocas e aspectos. Se para Machado de Assis ser livre estava profundamente relacionado à questão da escravidão, para o compositor Tom Zé, liberdade é poder usar o intelecto sem opressão.
 
Segundo Eduardo Coelho, o nome do livro surgiu pelo fato de os textos compreenderem um período que vem do século 19 aos tempos atuais. Além de unir essas diferentes abordagens, o organizador afirma que também era necessário explorar o significado do que é ser livre hoje. Isso porque fatores que por muito tempo guiaram a ideia de liberdade em nosso país, como a escravidão e a Ditadura Militar, chegaram ao fim, deixando às gerações recentes uma lacuna conceitual sobre o tema.
 
Por isso entram em cena, além dos clássicos, representantes da nova safra de escritores brasileiros. Ao lançarem visões distintas sobre a liberdade, o resultado é uma deliciosa mescla de histórias que utilizam elementos como a sexualidade, o cotidiano e até o suicídio, para dar um tom mais individual e atual à discussão.
 
Uma característica que chama atenção da publicação é que os autores são revelados apenas no fim. Segundo os organizadores, essa é uma forma de não guiar o leitor, libertando-o da sacralização de certos autores, e apresentando novos nomes. Entre os consagrados estão Afonso Arinos, Antônio de Alcântara Machado, Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Lima Barreto, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Mário de Andrade e Sérgio Porto.
 
 
Sutil repressão
 
Os contos contemporâneos, produzidos especialmente para a antologia, são assinados por Bruna Beber, Luiz Ruffato, Ramon Mello, Tom Zé, Alessandra Colasanti, Bruno Dorigatti, Carola Saavedra, João Paulo Cuenca, Manuela Sawitski, Marcelino Freire e Tatiana Levy. Segundo Marcio Debellian, não houve nenhuma delimitação estética aos autores, apenas foi solicitado o subtema para evitar que muitos textos tratassem do mesmo assunto.
 
Luiz Ruffato explica que, em seu conto, a liberdade está ligada à capacidade de se desprender de tradições ou fatores que impeçam o indivíduo de traçar seu próprio caminho. “Quando você se desprende, conhece outras coisas, outras realidades, podendo fazer uma reflexão sobre quem você é”, comenta, acrescentando que, para ele, a liberdade não pode ser definida de modo fechado e objetivo. “Gostei desse livro porque ele aborda as várias liberdades, entre as quais a do meu conto, que é a liberdade de escolher o seu caminho, o seu destino”, observa.
 
Para Ramon Mello, a inspiração surgiu de um modo diferente. Tudo começou com o título, retirado de uma obra do escritor carioca Rodrigo de Souza Leão, que tem a morte como fio condutor. “Essa frase veio de primeira à minha cabeça, então pensei que deveria fazer um conto com essa abordagem de liberdade, de um cara tentando se matar ou que já estivesse morto”, relata. O resultado final é um texto denso, em busca de uma reflexão sobre os limites do que é ser livre. “Não fazendo apologia ao suicídio, mas a liberdade envolve escolha de seguir um caminho ou outro, e essa escolha requer a morte de alguma coisa”, explica.
 
Para a escritora carioca Bruna Beber, o intuito de seu conto foi representar o tema a partir da apropriação de um bem público. Ao construir a cena central ao redor de um orelhão desbloqueado, ela sugere como a liberdade também aparece no ato de se comunicar. “Eu acho muito libertária essa coisa de se apropriar de um bem público, não para estragar ou boicotar, mas para usar mesmo, pois existiam pessoas que não tinham, como exemplo, condições de comprar uma ficha de orelhão”, comenta.
 

Para o baiano Tom Zé, a liberdade está intimamente ligada ao livre uso do raciocínio. “Estar no mundo, no planeta Terra, pra mim sempre foi muito difícil. As coisas que nos cercavam resultavam numa timidez, numa miséria emocional e numa incapacidade de conviver com os amigos”, diz, ao revelar que a descoberta do uso do raciocínio foi uma dádiva. “Foi uma espécie mesmo de liberdade e salvação, pois, em meio ao sentimento de opressão, angústia e vergonha, eu posso ter momentos de felicidade através dos processos mentais, enganando o que me oprime”, acrescenta. Quando questionado sobre o que é liberdade, ele esbanja seu gingado em uma frase: “a liberdade é como um sonho, todo dia se decifra, todo dia se disfarça”.

 
Libertar-se em formas e cores
 
Já que o intuito da antologia foi abordar os vários conceitos de liberdade, as ilustrações não poderiam fugir dessa linha. E assim a artista Joana Cocarelli uniu-se ao grupo para inserir suas colagens, produzidas de acordo com a temática de cada conto. “Na colagem, você recorta a imagem original e a combina com outras. É um procedimento livre e libertário”, explica Eduardo Coelho. Segundo Joana, a ilustração dirige em demasia o leitor a um determinado ambiente. Por outro lado, a colagem representa a atmosfera de forma mais lúdica e aberta.
 
Composição feita a partir de diversas texturas, a colagem é uma produção livre que agrega diferentes elementos, compondo imagens novas e tão subjetivas quanto o próprio conceito de liberdade. Ao se desprender de figuras pré-definidas, que direcionam o leitor a imaginar uma determinada cena, essa técnica apenas sugere um ambiente, deixando a cargo de quem lê, a possibilidade de construir a sua própria cena.
 

“Acho importante que a colagem represente o conto, mas não seja muito literal. É importante que exista uma margem para não dirigir muito a interpretação”, explica Joana, que não utiliza nenhum processo digital para compor seu trabalho. E nessa mescla de visões, estilos e cores, “Liberdade até agora” mostra-se como uma boa opção para quem deseja degustar alguns dos infinitos sentidos do que é ser livre, do ontem até o agora.

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