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A onda dos desenhos animados ecologicamente corretos

Por André Bernardo
Consciência ecológica, proteção ambiental, desenvolvimento sustentável. Durante a Rio+20, evento que ocorreu no mês passado, não se falou em outra coisa. A conferência da ONU acabou, mas a preocupação com o futuro do planeta, não.
 
Por isso mesmo, temas como efeito estufa, reciclagem de lixo e energia limpa continuam a ser discutidos pelas mais diferentes mídias. Como os filmes de animação, por exemplo.
 
Há muito tempo, desenhos animados com temática ambiental fazem sucesso de público e crítica. E faturam milhões no mundo inteiro. Só a trilogia A Era do Gelo, que discute as consequências desastrosas do aquecimento global, já faturou US$ 1,9 bilhão. E as aventuras da preguiça Sid, do mamute Manny e do tigre dente-de-sabre Diego, sempre às voltas com os riscos do degelo, estão longe de ter um fim. No dia 29 de junho, estreou o quarto filme da série.
Autor do livro The Idea of Nature in Disney Animation (inédito no Brasil), o pesquisador David Whitley, da Universidade de Cambridge, acredita que desenhos animados podem ajudar a despertar a consciência ecológica e a estimular o desenvolvimento sustentável no público infantil.
 
Mas ressalva que, sozinhos, eles não fazem milagres. “Filmes como Bambi, Wall-E e Procurando Nemo ensinam importantes lições para as crianças. Mas tudo vai depender do contexto em que elas, as crianças, estão inseridas. Se são do tipo que passam o dia todo em frente à TV, esses filmes terão poucas chances. Mas se gostam de interagir com seu habitat natural e levar uma vida saudável, sim, alguns desenhos podem se transformar em importantes aliados e dar dicas de como interagir com a natureza ao seu redor”, avalia Whitley, admirador confesso de Mogli – O Menino Lobo, de 1967.
 
“Herói do lobby verde”
 
No ano em que Branca de Neve e Os Sete Anões, o primeiro dos filmes de animação dos estúdios Disney, completa 75 anos, Whitley afirma que o primeiro desenho de longa-metragem a demonstrar uma forte preocupação ambiental foi Bambi, de 1942.
 
Até então, em filmes como Pinóquio, de 1940, e Dumbo, de 1941, a natureza não passava de um refúgio idílico. Baseado no livro Uma Vida na Floresta, do escritor austríaco Felix Salten, Bambi conta a história de um filhote de veado que precisa aprender a viver sozinho após sua mãe ser morta por caçadores. 
Cena da animação Bambi
Para piorar a situação, a floresta onde Bambi, Felina e seus amigos vivem também é destruída por um incêndio. Para Whitley, Bambi é um autêntico “herói do lobby verde”. “Ele contribuiu para que as gerações futuras desenvolvessem uma consciência mais crítica em relação à preservação da natureza”, acredita.
O veado Bambi pode ter sido o primeiro, mas não foi o único. Ao longo das décadas, outros personagens, como o urso Balu, de Mogli – O Menino Lobo, (1967), o pinguim Mano, de Happy Feet (2006), e a arara Blu, de Rio (2011) – só para citar alguns – engrossaram as fileiras dos defensores da causa ecológica.
 
Personagens do filme Os Sem-Floresta
Por aqui, o filme Os Sem-Floresta, de 2006, já mereceu um artigo de Luciana D’Arrochella, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), intitulado “A Contribuição de Filmes Infantis Para a Reflexão na Educação Ambiental: Interpretação Ecológica e Cultural do Filme ‘Os Sem-Floresta’ e Sua Aplicabilidade nas Salas de Aula”, de 2009.
 
Produzido pelos estúdios Dreamworks, o mesmo de Shrek (2001), Madagascar (2005) e Kung Fu Panda (2008), Os Sem-Floresta propõe uma reflexão bem-humorada sobre o consumismo exagerado da sociedade americana.
 
Tudo começa quando um grupo de animais acorda após um longo período de hibernação e descobre que construíram uma cerca viva ao redor da floresta onde eles vivem. Juntos, o guaxinim RJ, a tartaruga Verne e o esquilo Hammie, entre outros bichos, resolvem investigar o que há por trás da tal cerca e descobrem que estão confinados dentro de um condomínio residencial.
 
“O filme discute a degradação ambiental em prol da falsa ideia de desenvolvimento social”, analisa Luciana. “No Rio de Janeiro, temos remanescentes florestais de Mata Atlântica, que são constantemente devastados para a ocupação humana. Ocupação não somente das comunidades mais pobres, mas também de condomínios de luxo. Tais fatores interferem na biodiversidade local e provocam a mudança de hábitos de animais como saguis, esquilos e primatas, entre outras espécies”, alerta.
 
Das estepes africanas ao espaço sideral
Os filmes ecologicamente corretos ou “enviro-toons”, como preferem chamá-los os pesquisadores Robin Murray e Joseph Heumann, coautores de That's all Folks? – Ecocritical Readings of American Animated Features (inédito no Brasil), não agradam somente às crianças. Muito pelo contrário.
 
Autora de A Fantástica Fábrica de Filmes, Ana Carolina Garcia lembra que Rei Leão, de 1994, um dos maiores sucessos de bilheteria dos estúdios Disney, com faturamento de US$ 951,5 milhões, demonstra preocupação entre o poder desmedido e o equilíbrio ambiental.
 
“Quando Mufasa diz a Simba que 'ser rei é muito mais do que fazer o que se quer', ele passa a mensagem de que não importa quem você é ou o que faz, você precisa respeitar o meio em que vive, pois 'estamos todos unidos pelo ciclo da vida'”, destaca Ana Carolina.
 
Já Marcelo Forlani, coeditor do site Omelete e coautor de Almanaque do Cinema, tece rasgados elogios a Wall-E, de 2008.
 
Escrito e dirigido por Andrew Stanton, o mesmo de outras produções da Pixar, como Toy Story (1995), Vida de Inseto (1998) e Procurando Nemo (2003), Wall-E conta a história de um simpático robô compactador de lixo que, no distante ano de 2805, tem a ingrata tarefa de limpar a Terra, que se transformou num grande aterro sanitário. 
O futurista Wall-E

Certo dia, ele – que é o último dos robôs – conhece e se apaixona por Eva, uma sonda espacial enviada ao planeta em busca de algum sinal de vida. “Com pouquíssimos diálogos em boa parte de sua duração, o diretor Andrew Stanton conseguiu passar sua mensagem e mostrar que temas como amor e sustentabilidade são universais. É um dos mais belos filmes já produzidos!”, assegura Forlani. 

 
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