Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 10.05.2013 10.05.2013

A odisseia da caricatura brasileira

Por Zaqueu Fogaça
 
A relação de Luciano Magno (pseudônimo de Lucio Muruci) com os desenhos surgiu ainda na infância, quando lia os gibis de Maurício de Souza. Posteriormente, conheceu o trabalho de Henfil e se enveredou pelos caminhos da história da caricatura brasileira. Um trabalho caudaloso, que perdurou 25 anos e cujo resultado começou a se tornar público com o lançamento do primeiro volume da série História da Caricatura Brasileira (Editora Gala).
 
“A obra tem esse objetivo de propor reavaliações, [fazer a] introdução de novos marcos históricos e de personagens que haviam ficado de fora dos estudos anteriores. No projeto todo, recupero a história de vida e da obra de mais de 300 célebres caricaturistas. Muitos deles eram apenas mencionados em estudos anteriores, e outros nunca figuraram neles”, adianta Magno.
 
No primeiro livro (de um total de sete), intitulado História da Caricatura Brasileira – os Precursores e a Consolidação da Caricatura no Brasil, o autor remonta aos primeiros artistas do gênero no país, ainda no século XIX, em uma obra que conta com 538 páginas, 90 capítulos e mais de 70 imagens, mas que, apesar da envergadura, trata apenas dos primeiros caminhos trilhados por essa arte em território brasileiro.
 
Nesta entrevista para o SaraivaConteúdo, o autor revela suas descobertas, destaca os principais artistas do período e ressalta o teor ferino e bem-humorado tão marcante na caricatura brasileira.
 
De que maneira surgiu seu interesse pelos desenhos e como foi o processo de pesquisa para traçar a história da caricatura brasileira?
 
Luciano Magno. Desde criança fui muito apaixonado pelos gibis do Maurício de Souza. Mais tarde conheci o Henfil, que se tornou uma referência para mim e tantos outros quadrinistas. Eu assistia a um quadro dentro do “TV Mulher” que se chamava “TV Homem”, que o Henfil fazia. Primeiramente comecei pesquisando grandes artistas como Luiz Sá, J. Carlos e Seth. Depois, quando decidi realizar a História da Caricatura Brasileira, ampliei esse leque e comecei as pesquisas de campo na Biblioteca Nacional, no Real Gabinete Português de Leitura, entre outras.
 
Foto de Bordalo Pinheiro, Revista Renascensa n° 2 jan 1905
Luciano Magno, autor da obra História da Caricatura Brasileira
Em que momento a caricatura passou a ser uma arte distinta e quais foram os temas mais recorrentes nesse período?
 
Luciano Magno. O marco inaugural da caricatura no Brasil acontece com as charges de Manoel de Araújo Porto-Alegre, anunciadas em 1837. Essa produção e o anúncio da série da “Caricatura” foram os marcos oficiais dessa arte no Brasil, pois esse artista tinha uma noção clara do seu papel e pioneirismo. Nas primeiras produções, o corcunda era uma figura recorrente. Durante o processo de consolidação da independência do país, a deformação era uma forma de satirizar os “corcundas”, figura que aparece nos periódicos O Maribondo (1822), O Corcundão (1831) e O Carapuceiro (1832), que criticavam aqueles que se curvavam ao absolutismo. Nesse primeiro momento, a caricatura era bastante crítica, ferina, bem-humorada e muito politizada.
 
Quem foram os principais caricaturistas dessa primeira fase da caricatura brasileira?

Luciano Magno. Manoel de Araújo Porto-Alegre, o primeiro caricaturista brasileiro e patrono dessa arte no Brasil, e Cândido Aragonez de Faria, pois são artistas de reconhecimento internacional, que deram enorme contribuição para essa arte. Em pleno século XIX, Angelo Agostini, por sua luta abolicionista, assim como Bordalo Pinheiro, por sua combatividade, também são importantes. Tanto Agostini quanto Bordalo exerceram grandes influências sobre os outros artistas da época. No século XX, [havia] caricaturistas como J. Carlos, K. Lixto e Raul Pederneiras (os mestres da caricatura da nossa Belle-époque).

 
Primeira caricatura brasileira (O Maribondo n° 1 de 25 Julho 1822)
Durante esses 25 anos pesquisando a caricatura brasileira, quais foram as principais descobertas sobre o gênero?
 
Luciano Magno. A descoberta, revelada em nosso livro, da primazia e pioneirismo da charge de O Maribondo, em 1822, na caricatura brasileira, fez mudar todo o arcabouço dos marcos históricos do nosso trabalho e, por consequência, da história da nossa caricatura. Mas ao mesmo tempo, a obra é um trabalho histórico, único, que, mesmo tendo antecipado em 15 anos o marco inaugural dessa arte em nosso país, de 1837 para 1822, reconfirmou a importância histórica da obra e do legado de Manoel de Araújo Porto-Alegre para a caricatura brasileira.
 
A caricatura nasceu juntamente com a imprensa. Dadas as mudanças nos meios de comunicação nesses últimos anos, de que maneira, também, a caricatura mudou?
 

Luciano Magno. Desde o advento do rádio, da televisão, e agora da internet, fazendo migrar artistas da área do cartunismo jornalístico impresso para outros veículos. É natural que a caricatura e o cartum ocupem esses novos veículos on-line. O nível de excelência de nossos caricaturistas, a capacidade que a caricatura tem de retratar o país, a inserção que têm em nível político e cultural, exercendo função crítica, continuam recorrentes.

 
 
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