Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.01.2015 29.01.2015

A nova temporada das séries brasileiras

Por Willians Glauber

O ano de 2014 foi bastante produtivo no que diz respeito à quantidade e à qualidade dos seriados originais. Entre estreias, retornos e exibições de pilotos, 25 séries nacionais foram transmitidas nos canais a cabo, quatro a mais em comparação com 2013.
Um período que marcou o cumprimento definitivo das normas impostas pela Lei da TV Paga, que institui a obrigatoriedade da transmissão de 3h30 semanais de conteúdo nacional na programação das emissoras fechadas que operam no país, além da concepção e do desenvolvimento desse conteúdo pelas produtoras independentes brasileiras.
À primeira vista, o aumento dos seriados entre 2013 e 2014 parece pouco, mas dado o tempo de produção de uma série e o atual status de “em desenvolvimento” da indústria audiovisual brasileira voltada exclusivamente para a televisão, o crescimento é bastante significativo.
E é importante ressaltar que parte dessas produções são estreias de uma nova temporada, sinal de que tiveram boa repercussão entre a audiência e, como resposta a isso, os canais decidiram encomendar mais episódios. Um dos grandes desafios das produtoras a partir de agora é justamente investir na criação de séries que tenham potencial para uma vida longa na televisão.
DIVERSIDADE COM FOCO NA QUALIDADE
Tanto as produtoras quanto os canais a cabo no Brasil estão se empenhando para oferecer maior quantidade de seriados de TV originais com qualidade.
“Os dois lados estão amadurecendo muito. A gente está em um momento de crescimento, está no caminho. É um trabalho coletivo de criação, produção e entendimento”, analisa Tiago Mello, um dos sócios e produtor executivo da Boutique Filmes. Ele já está na indústria há quase 15 anos.
Só em 2014, sua produtora trabalhou em 125 episódios originais. As produções seriadas CineLab, Experimentos Extraordinários e Low Rider estão no portfólio dela. E os trabalhos por lá são constantes. Quando visitamos a Boutique em São Paulo, a série de Hermes e Renato para o canal FX estava entrando na fase de filmagens; sua estreia está prevista para 2015. Uma realidade de grande demanda que exemplifica o momento promissor para as produtoras.
Desde sua fundação, em agosto de 2012, a Boutique Filmes fez dos seriados infantis seu carro-chefe; porém, com o objetivo de ser uma produtora de séries para a televisão, ela abrange também a ficção e o factual, completando suas três principais áreas de atuação. Cada uma com focos bastante claros.
Uma diversidade que se faz necessária e é defendida pelos canais a cabo, cuja inovação precisa ser algo regular. Como aponta Mariana Novaes, gerente de marketing do GNT, ao contar os desafios constantes da emissora.
A série infantil Experimentos Extraordinários aposta na comédia e aborda os bastidores de um programa que ensina experiências malucas
“Entender o desejo da nossa audiência, oferecer produtos de qualidade e com conteúdo interessante que estejam em sintonia com a mulher brasileira, mas sempre buscando novos formatos que atendam a essa demanda. É muito importante inovar”, explica Mariana.
Ela ressalta que, apesar de o público-alvo do GNT ser a mulher, a ficção é algo que consegue atingir a família toda. “O foco do canal é a diversidade. As comédias As Canalhas e Amor Veríssimo e as comédias românticas Os Homens São de Marte…e É pra Lá que Eu Vou e Lili, a Ex, tornaram-se gêneros relevantes na programação do canal. As três primeiras já estão com novas temporadas confirmadas para 2015″, detalha Mariana. Ela enfatiza ainda que o drama Sessão de Terapia rendeu à emissora três temporadas muito bem-sucedidas.
Mello também reforça que o futuro tende a ser traçado justamente por quem oferece produções relevantes na vida dos telespectadores. “Vai ficar [na indústria audiovisual voltada para TV] quem conseguir criar bons conteúdos. Quem criar conteúdos que ocupem o espaço das pessoas”, analisa.

Silvia Elias, diretora de conteúdo nacional da Turner International do Brasil, também segue essa linha de opinião. “O foco da Turner é, na verdade, ter produções de qualidade, com personagens e elementos que possam ser facilmente reconhecidos pelo público brasileiro, para que ele possa se reconhecer no universo retratado pela série”. Uma declaração que só enfatiza a intenção dos canais a cabo no país.

O drama Sessão de Terapia rendeu três temporadas muito bem-sucedidas
INVESTIMENTO A LONGO PRAZO
Não há diversidade e qualidade de conteúdo sem investimento e confiança naqueles que produzem o que se vê na tela: os roteiristas. Com uma demanda cada vez maior por histórias que agradem ao público e resultem em boa audiência, o mercado produtor de seriados brasileiro está sedento por mentes criativas que consigam roteirizar ideias capazes de gerar interesse por parte dos canais a cabo.
“No futuro será muito importante valorizar mais quem cria as histórias e entender que as pessoas precisam se desenvolver. Investir no desenvolvimento dos profissionais”, destaca o roteirista e diretor Jotagá Crema, que atualmente trabalha para a Boutique Filmes.
Crema pode falar com propriedade sobre essa importância dos contadores de histórias na produção seriada, já que, mesmo quando o fomento à área era irrisório no Brasil, ele estava tentando dar vida e vender suas ideias. A websérie 3%, cocriação dele e de outros colegas, tornou-se um grande sucesso na internet e, na época (em 2011), chamou a atenção da imprensa.
Ele explica com detalhes o modo de trabalho que possibilitou a produção dos 26 episódios da série infantil Experimentos Extraordinários, criação da Boutique e que faz parte da programação do Cartoon Network.
“Foram oito meses só roteirizando, éramos em quatro roteiristas. Eles acompanharam os ensaios, o set de gravação, podiam interferir no texto ali na hora. Foram duas semanas de preparação, uma de ensaio no set, duas de gravação. Cinco episódios gravados em duas semanas, tudo era executado super-rápido”, detalha o roteirista da produção, que também dirigiu alguns episódios.
                                                                                            André Brandão
Lili, a Ex é uma das séries que fazem parte de um dos gêneros que se tornaram influentes no canal GNT: a comédia romântica
Crema chama a atenção para a necessidade de se criar o roteirista-diretor, um papel nada usual nas produções seriadas daqui. Elaborar uma lógica própria de criação, produção e execução de um seriado é outro ponto a ser considerado nesse momento de maturação do modo brasileiro de fazer séries originais.
“As emissoras cumpriram seu papel de colocar séries nacionais no ar; a questão é qual qualidade esperar daqui em diante. Se o modelo continuar sendo do improviso e de séries escritas por uma ou duas cabeças pensantes sob as ordens de diretores e produtores, é difícil imaginar que podemos competir com uma série estrangeira criada por sete ou oito escritores de sólida formação com um autor-roteirista à frente”, analisa Ricardo Tiezzi, roteirista da TV Globo e professor da Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

O produtor executivo Mello traz à tona pontos que considera primordiais para o melhor desenvolvimento e profissionalismo do setor que produz séries no país. “Três coisas são importantes: ter produtos que alcancem seu público, uma maior qualidade de dramaturgia e gerar emprego no Brasil, fazer produções
que gerem uma indústria”, aponta.

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