Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 21.12.2010 21.12.2010

A nova onda das histórias em quadrinhos

Por Bruno Dorigatti

As histórias em quadrinhos vivem novamente um bom momento. Editoras e selos dedicados à nona arte continuam a surgir país afora, inundando as livrarias com novos títulos e clássicos nacionais e estrangeiros, brasileiros conseguem publicar trabalhos autorais fora do país, escritores em parceria com quadrinistas desenvolvem histórias inéditas e pensadas para o formato, coletivos e revistas se organizam para serem publicados de forma independente, e a revolução tecnológica continua facilitando a autopublicação online, além de reunir e conectar os interessados em produzir e ler as chamadas narrativas gráficas. 

É desnecessário dizer que os quadrinhos, outrora considerados formas degenerativas para a nossa infância e juventude, há muito deixaram de ser algo feito exclusivamente para crianças ou de apresentar personagens com super-poderes e mundos distantes, como os clássicos Super-Homem, Batman e Homem Aranha, e outros heróis mais recentes, como os X-Men. No entanto, ainda é para esse público infanto-juvenil e adolescente que se concentra a produção de massa e de onde vem o maior faturamento do setor. Porém, hoje, os adultos consomem avidamente um número crescente de graphic novels, histórias autobiográficas, adaptações de clássicos da literatura, reedições luxuosas de personagens icônicos como Peanuts e Calvin & Haroldo ou de álbuns de mestres como Will Eisner, Guido Crepax e Robert Crumb.

Crumb – que esteve no Brasil participando da Flip, em agosto passado; leia a entrevista exclusiva com o quadrinista  – é um dos responsáveis por essa atenção maior que os quadrinhos vêm tendo desde os anos 1960 como coisa de gente grande, por conta das HQs underground que estouraram no final daquela década na Califórnia, a partir da sua Zap Comix e de outros cartunistas como seu amigo Gilbert Shelton, pai dos Freak Brothers e criador da Rip Off Press, editora que publicou muitos daquela geração. Os quadrinhos undergroundpela primeira vez abordaram de forma clara e direta temas até então tabus nas HQs norte-americanas, como a crescente liberdade sexual e o uso de drogas, e ajudaram a moldar – junto com os hippiese o flower power, a psicodelia e o rock 'n' roll – a então nascente contracultura. 

O pai de personagens clássicos como Mr. Natural e Fritz the Cat e que, em 2009, lançou a sua versão do Gênesis, acabou por tornar-se um dos ícones dos quadrinhos, impulsionado também pela forma como registrou, com seu traço peculiar, toda a sua admiração pela música negra norte-americana, e deu vida às mulheres rechonchudas, outra obsessão sua. 

Sua atual esposa, Aline Crumb, também começou a publicar seus primeiros quadrinhos (ainda que toscos e feios) naqueles frenéticos anos,e certamente ajudou a abrir o caminho para outras mulheres quadrinistas como a norte-americana Alison Bechdel, autora de Fun Home, que conta a sua dura e difícil relação com o pai, e a iraniana Marjane Sartropi, que fez Persépolis, retrato de sua infância e adolescência entre o Irã e a França nos anos da Revolução Islâmica, que já vendeu mais de um milhão de exemplares mundo afora.

Rio Comicon

No Brasil, a Rio Comicon, dedicada sobretudo aos quadrinhos ditos autorais e realizada em novembro passado no Rio de Janeiro, deu a mostra mais recente do vigor pelo qual passamos quando se fala em contar história reunindo desenho e texto. O evento organizado pela Editora Casa XXI, responsável há seis anos pelo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em Belo Horizonte (MG), reuniu na capital fluminense, alguns dos principais e variados nomes dos quadrinhos no país, como Ziraldo, Mauricio de Sousa, Laerte, Angeli, Fábio Zimbres, Lourenço Mutarelli, Fábio Moon e Gabriel Bá, Rafael Grampá, Rafael Coutinho, André Dahmer e Rafael Sica, além de atrair importantes nomes do cenário independente, como o pessoal das revistas Beleléu, do Rio, e Samba, de Brasília, e do coletivo Quarto Mundo. Sem falar nos convidados internacionais, como o italiano Milo Manara, referência quando se fala em quadrinhos eróticos, o inglês Kevin O’ Neill e a norte-americana Melinda Gebbie, parceiros do inglês Alan Moore, criador de Sandman

Durante seis dias, dezenas de milhares de pessoas compareceram à antiga Estação Leopoldina, em São Cristóvão, para assistir debates e palestras, fazer filas para conseguir um desenho exclusivo dos seus ídolos, comprar revistas independentes como Có! e Taxi (desenho acima), de Gustavo Duarte, e conferir lançamentos como Memória de elefante, do paulista Caeto, ou 676 aparições de Killofer, ambas graphic novels autobiográficas que figuram entre os melhores lançamentos do ano (à esquerda). Além disso, foi possível deleitar-se com a exposição de Manara, com originais de sua parceria com o diretor italiano Fellini e de sua História da Arte contada pela ótica das modelos, sem falar na dezena de painéis com trabalhos dos convidados, além de um espaço dedicado aos quadrinhos independentes com curadoria de El Cerdo, da Beleléu.
 

Ziraldo e Mauricio

Mas quando se fala no grande mercado de quadrinhos nacionais, dois nomes se destacam: Ziraldo, criador da primeira revista nacional dedica à nona arte, Turma do Pererê, em 1964, e pai do Menino Maluquinho; e Mauricio de Sousa, pai do Bidu e da Turma da Mônica, lançada em 1970, já com tiragem 200 mil exemplares. 

Ziraldo comemorou recentemente a centésima edição de Menino Maluquinho, que já vendeu 2,8 milhões de livros e foi traduzido até em coreano. Além da série do Maluquinho, que se desdobrou em vários livros, ele segue produzindo muitas cartilhas educacionais. E ainda publica em seu blog cartuns inéditos e históricos, além de ter acabado de expor em telas grandes seus Zeróis, que satirizam os super-heróis norte-americanos. “Tem 60 anos que eu não paro de fazer coisas. Então vou continuar fazendo”, conta. 

Mauricio foi ainda mais longe. Hoje suas histórias alcançam 120 países, produzidas no maior estúdio de animação do Brasil. Já foram adaptadas para desenho animado nos anos 1980, e viraram um parque temático nos 1990. Em 2008, seu estúdio lançou a Turma da Mônica Jovem, com os personagens crescidos em versão mangá. As quatro primeiras edições venderam 1,5 milhão de exemplares. E recentemente, o governo da China o convidou a produzir com histórias da turma o material didático de um programa de alfabetização para 180 milhões de crianças. Exceções, porém.
 

Brasil, hoje

No Brasil, o cenário para quem produz quadrinhos autorais, independentes é outro. O gaúcho Fábio Zimbres alcançou a liberdade de que precisa para fazer suas histórias por nunca ter pensando em “viver de quadrinhos”. Designer e ilustrador, seus traços, que provocam certo estranhamento, e os quadrinhos sempre foram o lugar que encontrou para exprimir aquilo que não cabia no trabalho feito para os outros. Zimbres viveu e participou do boom das HQs nos anos 1980, quando revistas como Chiclete com Banana circulavam em bancas e tiravam mais de 100 mil exemplares por mês. Editada por Angeli, a revista foi ideia de Toninho Mendes¸ que depois do sucesso da publicação com histórias de Bob Cuspe, Rê Bordosa e Os Skrotinhos, bancou Geraldão, de Glauco, e Piratas do Tietê, de Laerte, quadrinistas e amigos que iriam desenhar juntos os emblemáticos Los 3 Amigos. Com outras revistas como Circo e Animal, duraram até o começo dos anos 1990, quando arrebatavam leitores os mais diversos, dos 12 aos 80 anos, das mais variadas classes sociais. E foi onde se produziu algumas das melhores histórias, onde surgiram personagens emblemáticos e onde se abriu espaço para nomes como Zimbres poderem mostrar seu trabalho para um público maior. 

Atualmente, temos a internet como espaço infinito para essa experimentação e vitrine. E quando esbarramos com quadrinhos como os dos gêmeos Moon e Bá e de Rafael Grampá, que muito se utilizaram e seutilizam da rede para mostrar suas histórias e alcançar seu público, é gratificante saber que hoje publicam seus excelentes quadrinhos autorais nos Estados Unidos, como Daytripper, série da dupla lançada este ano pela Vertigo, uma das grandes editoras de lá, ou Mesmo Delivery, impactante graphic novel de Grampá. 

Hoje, alguns dos que compravam a Chiclete com Banana, leem estas crescentes publicações em livros bem acabados, com excelente papel, tamanho e capa dura. E a maioria dos que fazem quadrinhos quase sempre citam Los 3 Amigos e suas revistas como determinante na vontade de fazer quadrinhos. Outro tanto dos que curtem vai descobrindo a nova geração e os clássicos nos blogs e sites de quadrinistas ou naqueles dedicados ao tema. Mas muitos ficaram pelo caminho, já que hoje as tiragens não passam de 3 mil exemplares, ou 3% do que imprimiam as revistas há três décadas. “É triste e emocionante encontrar os amigos aqui na Rio Comicon, gente que batalhou a vida inteira nos quadrinhos e ainda continua tentando; eles não desistiram”, comentou Lourenço Mutarelli (acima, o quadrinista em O astrounauta opu livre associação de um homem no espaço (Zarabatana Books), história que escreveu e protagonizou, feita em parceria com Flavio Morais, Fernando Saiki e Olavo costa , hoje conhecido por romances como O cheiro do ralo e Natimorto, ambos adaptados ao cinema, mas que começou nos quadrinhos nos anos 1980 nas publicações acima e lançou álbuns como Transubstanciação e O dobro de cinco no começo da década seguinte. O romancista e quadrinista voltou a desenhar depois de um longo inverno, primeiro, gráficos abstratos que apareceram em seu romance A arte de produzir efeito sem causa, de 2008; e agora, histórias de página inteira, que saem em 2011, mas que ainda não lhe agradam. Segundo ele, os quadrinhos sempre foram tratados como algo menor por aqui, e a experiência sugere prudência ao analisar o atual momento. O que pode indicar mais um ciclo que caminha para o seu auge antes de arrefecer. A arte e esses artistas, porém, ficam.

Beleléu, do Rio de Janeiro,  e o segundo número da Samba, de Brasília.
Quadrinistas independentes voltam a cavar o seu espaço ao sol

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