Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 25.08.2014 25.08.2014

A MPB de Mônica Salmaso

Por Diego Muniz
Mônica Salmaso aliou seu canto refinado à parceria dos compositores cariocas Guinga e Paulo César Pinheiro, além de arranjadores como Dori Caymmi, Nailor Proveta e Nelson Ayres, para lançar o disco mais “colorido” de sua carreira: Corpo de Baile.

O trabalho, que levou uma década para ficar pronto, apresenta 14 músicas, cinco delas nunca gravadas, e faz alinhamento entre a voz, os arranjos e as letras. Em entrevista exclusiva ao SaraivaContéudo, a intérprete falou sobre o processo do disco, a segurança na voz, alcançada com o tempo, e a sua visão sobre a nova MPB.

Como você conheceu o trabalho do Guinga e do Paulo César Pinheiro?
Mônica Salmaso. O Guinga eu ouvi pela primeira vez em 90, em um show em São Paulo, e pirei. Não acreditava que era possível uma pessoa trazer uma linguagem autoral nova, no formato voz e violão. A essa altura, depois de “Garota de Ipanema”, do violão do Baden, me aparece uma pessoa que tem uma personalidade muito definida. Fiquei doida, como acontece com a maioria das pessoas que ouve ele pela primeira vez.O Paulinho eu já conhecia das muitas coisas que ele fez; ele é igual ao Vinicius (de Moraes): está em vários lugares e, quando você vê, a música é dele.
E como você pensou em gravar um disco só com essa parceria?
Mônica Salmaso. Nesse show do Guinga, ele cantou algumas músicas dessa parceria. Lembro que cantou “Saci” e “Senhorinha”, que era música tema de novela de quando eu era criança. Era linda, mas tinha um arranjo super-recheado, com cordas e teclados. Nesse dia, descobri da onde ela vinha. Passou um tempo, a gente se conheceu. Aí soube que essa parceria tinha sido de muitos anos e que eles tinham muitas músicas juntos. A maioria delas estava inédita e guardada.
Você nunca teve problemas em regravar músicas?
Mônica Salmaso. Não. Acho isso muito normal e acho até que facilita, porque você tem mais liberdade, as pessoas já conhecem. Mas, quando você vai mostrar a música do zero, isso dá um medo, você precisa mostrar o que ela é. Mas ao mesmo tempo você já vai interferir nela. Então, tinha muito medo desse limite entre as duas coisas.
Em entrevista, você disse que esse é um disco fora do tempo. Por quê?
Mônica Salmaso. É um disco que tem uma densidade poética, melódica e harmônica que não estão na moda. Eu sei que existe gente que faz, sei quem são essas pessoas e até participo do trabalho delas, muitas vezes. Mas dentro da indústria comercial isso é um artigo de muito pequeno porte. Ficou um pouco na mão do Chico (Buarque) e Edu (Lobo). Hoje, as pessoas têm pouco espaço interno para sentar na frente de um som, ouvir uma música, se emocionar e ficar com aquele sentimento.
Capa do álbum
Por isso você usou diversos arranjadores?
Mônica Salmaso. Eu expliquei para a Biscoito Fino que achava que se a gente apresentasse 14 canções dessa densidade, em uma formação pequenininha (como voz e violão, voz, violão e piano), a gente ia dificultar a audição dessas músicas. Porque ia ficar uma coisa muito densa. Então, eu queria colorir essas músicas, uma em relação à próxima, com arranjadores, instrumentos e músicos, principalmente [aqueles] que pudessem dar uma cor diferente para cada música.
Por que você não trabalhou com o Guinga e o Paulo César Pinheiro entre os arranjadores?
Mônica Salmaso. Acho que, se eles estivessem dentro do disco, [isso] ia criar atrito e eu ia me sentir invadida, pela ansiedade ou pela crítica. Não queria isso, é o meu pedaço.Não fiz isso no disco do Chico também. Tenho uma coisa meio de ficar quietinha trabalhando. Tenho um pouco de cuidado; o autor, é claro que vai interferir. Então é um risco que o intérprete corre, mas é da alçada do intérprete. Você vai fazer sua leitura, o autor pode gostar ou não, é um direito que ele tem. E eu falei isso claramente com eles, falei: “Eu não sei se vocês vão gostar de tudo, mas estou fazendo esse disco com o maior respeito e com o maior amor. É um disco que eu estou dedicando tudo que posso para que seja lindo”.
Como foi apresentar o disco para eles depois de pronto?
Mônica Salmaso. Foi tão bonito. A gente tinha um cronograma da fábrica que misteriosamente antecipou, e [o álbum] começou a chegar às lojas antes que eu tivesse visto. Aí fiquei muito aflita: já pensou se eles vão comprar? Que falta de educação a minha. Saí correndo, peguei o disco, passei na portaria deles e deixei lá. Queria que eles escutassem sozinhos, livres, e foi muito bonito. Cada um em um telefonema, ou alguns telefonemas, me disseram que estavam felizes. Eu imagino como foi importante para eles também.
Corpo de Baile é um álbum tecnicamente difícil de cantar?
Mônica Salmaso. Tudo nesse disco é desafiador. É um disco tecnicamente difícil; muito intervalo, muita nota, mas é muito bonito.
Ao lançar o disco Corpo de Baile, dedicado à parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro, a cantora paulista mostra seu jeito de fazer música
Nesse trabalho, você coloca a sua voz a serviço de quê?
Mônica Salmaso. Da música, das canções em diálogo com os músicos e com os arranjos. Foi tudo amarradinho, não é que a gente deu as músicas para os arranjadores e falou “vai aí”. Como eu e o Teca discutimos muito cada música, para os arranjadores tinha uma conversa: “Olha, estou escolhendo você por causa disso, disso e disso”. Para você ter uma ideia, “Fim dos Tempos”, que eu amo e abre o disco, quando eu ouvi na gravação do Guinga, lembrei do (Julio) Cortázar. Quando mostrei para o Tiago (Costa) – ele tem uma criatividade linda para arranjos –, eu falei para ele que essa música era para mim como um livro do Cortázar, uma coisa meio submundo. Eu não dei para ele O Jogo da Amarelinha, porque tinha 600 páginas e, se ele fosse ler, o arranjo não ia ficar pronto a tempo, mas mandei junto um livro de contos dele.
Até por conta desse disco, as críticas apontam você como a melhor cantora do País. O que você acha?
Mônica Salmaso. Claro que tenho vaidade, claro que gosto quando a pessoa reconhece o meu trabalho, se emociona, isso é lindo, maravilhoso e fico superagradecida e feliz. Mas realmente não me acho mais importante do que as músicas. Nunca achei. Até ao contrário, acho que tenho um nível de crítica e rigidez interna que me faz sofrer, mas o trabalho ganha com isso. No dia que eu achar que sou o máximo, que tudo que eu faço é lindo, certamente a qualidade do meu trabalho vai cair.
Essa insegurança tem a ver com a sua afirmação, em entrevista, de que a MPB está pobre?
Mônica Salmaso. Eu estava falando da indústria – ficou claro ali, tem a palavra indústria. Li um montão de coisa sobre essa frase, muita gente entendeu tudo, algumas pessoas sentiram que tinha desvalorizado o trabalho que elas fazem. Mas não tinha. O que disse era que, dentro da indústria, que está em crise, está se investindo pesado em coisas que têm qualidade ruim. Eu acho isso, continuo achando isso, e não sou a única pessoa que falou isso.
Quem você destaca da nova geração?
Mônica Salmaso. Tem um monte de gente. O Alexandre Andrés, filho do Artur Andrés. Tem toda uma turma em Belo Horizonte que está fazendo um trabalho lindo. É gente que está a fim de fazer música, toca bem.Tem uma menina que chama Rhaissa Bittar, que acho lindo o que ela faz, ela é muito nova e tem uma coisa de humor e inteligência. Existe e tem um montão de gente que não dá para listar.
Você sabe para quem você canta?
Mônica Salmaso. Eu canto para mim. No sentido que eu jamais vou fazer uma coisa que não queira fazer. No embrião, eu canto para mim, mas canto para mostrar o que os outros fazem. Eu não componho nada. Meu negócio é dividir aquilo que eu acho bonito e expressivo. Eu tenho uma paixão por descobrir ou ouvir uma coisa e dividir com as outras pessoas. Agora quem é que vai ser essa pessoa, não sei. Também não acho que tenho que agradar a todo mundo, nem dá. Se a opinião de alguém que posta no Facebook mudar o que eu faço é porque estou fazendo errado. Porque meu compromisso não era agradar a todo mundo.
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