Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.05.2012 29.05.2012

A literatura jovem e contemporânea de Marcelo Carneiro da Cunha

Por Iveilyze Oliveira
Em uma época de domínio das redes sociais e novas tecnologias, os livros também se atualizaram com a modernidade e acompanham essa tendência, principalmente para aproximar o jovem da literatura com uma linguagem livre de preconceitos, descolada e com bordões que eles entendem muito bem.
O escritor Marcelo Carneiro da Cunha, antenado nessa “praia” e já experiente em pegar essa “onda”, acaba de lançar Primeira Vez e Muitas Vacas.
 
No romance, narrado por Vita, uma adolescente engraçada que compartilha suas expectativas de um verão com a família no interior, as novas descobertas quanto à sexualidade, angústias e dúvidas a cada página do livro.
Cunha se compromete a descrever de maneira autêntica o mundo que elege como alvo e não se considera um escritor infantojuvenil, mas sim um ficcionista contemporâneo em busca de uma temática social e transformadora.
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Cunha observa o papel da literatura na vida dos jovens e considera importante a discussão sobre o que é ou não infantojuvenil.
Quais os motivos e objetivos em tratar de temas como o comportamento dos jovens?
Cunha. Todo mundo passa por uma fase em que não é adulto e que é central na nossa formação. Alguns dos meus autores favoritos têm grandes textos com garotos: Faulkner, Mark Twain, Sergio Faraco, Machado. Acho muito mais difícil, tecnicamente, fazer um personagem desse tipo falar. Isso me atrai, o desafio narrativo de fazer um personagem garoto – melhor ainda se for garota – funcionar.
Muitos escritores rejeitam a divisão da literatura por faixa etária. Como definir um escritor infantojuvenil e o que você acha dessa segmentação?
Cunha. É um autor que tem em mente outros fatores que não apenas a criação ficcional, mas que queira atender especificamente às demandas da escola ou às expectativas dos leitores jovens. Essa segmentação é real e descreve o que ocorre. Não me sinto pertencente a ela ou desejoso de pertencer. O fato de ser lido – e de muitos dos meus livros serem lidos em escolas – é apenas uma consequência possível do que faço. Uma consequência que me agrada e quero crer que tenha a ver com a qualidade ficcional.
Nos seus livros, você aborda assuntos delicados com facilidade. Ainda há temas considerados tabus na literatura infantil e juvenil?
Cunha. Sexo e outros temas moralmente complicados. Esses livros circulam na escola e sofrem com a necessidade de serem, ao mesmo tempo, literários e conservadores. Não me preocupo com essas demandas e escuto relatos das dificuldades que os meus livros produzem em escolas mais conservadoras. Acredito em criar boa ficção. Encontro histórias que me atraem e acho um jeito de narrar da melhor maneira possível.
Como surgiu a ideia de Primeira Vez e Muitas Vacas? Como foi a produção e pesquisa?
Cunha. Começou ouvindo meninas descrevendo as suas sensações com relação à primeira transa nos tempos atuais. Sempre busco elementos que ajudem a entender o mundo ultracontemporâneo em que vivemos. Senti que havia algo no ar. Então, fui ouvir mais meninas, meninos também. Me convenci de que temos algo novo, e isso é consequência da revolução feminina do século passado. Os meninos não estão mais tão comprometidos com a necessidade de atender aos desejos femininos. E isso traz consequências que ninguém previu.
Qual a relação que Primeira Vez e Muitas Vacas tem com as obras anteriores ao usar a temática sobre a descoberta da sexualidade?
Cunha. Em livros anteriores, com personagens garotos, sexo não estava na pauta dos personagens, por uma questão de idade mesmo. No Primeira Vez, sexo é a questão central. Portanto, ele entra no livro e não sai mais. Fiz dois livros com personagens adultos, Simples e Depois do Sexo, nos quais sexo é aquele dos adultos de hoje.
Vita, a protagonista do livro, tem como objetivo perder a virgindade em uma visita aos parentes em outra cidade. Por que você criou uma personagem da Capital que pretende ir para o interior com determinadas intenções, e não o contrário? Como foi definir essa visão articulada de tempo, distância e local?
Cunha. Ela descobre que o que deseja está difícil de realizar no seu ambiente normal, a cidade grande. Talvez porque as mudanças aconteçam mais rapidamente na cidade, e os garotos que ela encontra estejam já muito mudados para conceder o que ela deseja. Já na cidade pequena, a prima garante que as coisas ainda não mudaram tanto, e sexo deve continuar mais acessível. E, claro, ela vai se beneficiar da imagem de menina da cidade grande, que tem o seu valor naquele ambiente. Se tornará mais diferente do usual, mais atraente e, quem sabe, mais desejada.
Ao traduzir no livro as experiências de vida da adolescente, qual é o tipo de identificação comum que o leitor revela?
Cunha. Ele se surpreende com a linguagem, que descreve como “autêntica”, e com o que acontece com Vita, que era inesperado. Se diverte muito, porque ela é engraçada na forma com que lida com seu drama. Se sente desafiado, porque o que acontece não é nada comum. O leitor me diz que se sente muito exigido. Mas, de alguma forma, eu sinto que ele gosta de ser exigido. Isso também o faz se sentir respeitado.
Se o personagem principal fosse um menino, a trajetória para lidar com as dúvidas e emoções em busca do autoconhecimento seria diferente? Por quê?
Cunha. Muito diferente. Os meninos têm muito menos dificuldades em lidar com a imagem, com o corpo, com o mundo. As meninas vivem muitos filtros entre elas mesmas e o mundo. Os meninos são mais analógicos, sentem menos pressão e podem permanecer meninos por mais tempo.
Qual é a mensagem fundamental que este trabalho passa quanto à representação do sujeito feminino? Qual a repercussão que você pretende alcançar?
Cunha. Vejo como indagação. O livro pergunta aos leitores se eles também acham que o que acontece com Vita é representativo do que acontece com as meninas e mulheres. Especula sobre a amplitude do novo personagem feminino, do protagonismo que as mulheres adquiriram e o que isso faz com elas. Bons livros não trazem respostas, mas sim boas perguntas e bons olhares sobre elas, que até nos permitem elaborar respostas. Contar boas histórias de um jeito que faça sentido é o que o livro pretende.
 
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