Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.10.2010 20.10.2010

A literatura infantil em debate

Por Bruno Dorigatti

Literaturainfantil é coisa séria. Sustenta boa parte do mercado editorial mundo afora,fornece best-sellers que vão garantira publicação de centenas de títulos que não chegam a se bancar, sem falar nopapel fundamental que tem na formação das crianças. E se hoje a literaturainfantil é um assunto levado a sério na academia, isso muito se deve ao inglêsPeter Hunt. 

Umdos principais estudiosos do assunto, Hunt está pela primeira vez na America doSul e o motivo da viagem é a tradução de seu hoje clássico estudo Crítica, teoria e literatura infantil,recém-lançado pela Cosac Naify, seu primeiro livro traduzido aqui. O professoremérito da Universidade de Cardiff e professor visitante na Universidade deNewcastle, ambas no Reino Unido, participa nesta quinta, 21 de outubro, de umseminário na Pontifícia Universidade Católica do Rio(PUC-RJ), onde faz uma palestra às 17h, precedida por um bate-papo entre João LuísCeccantini (Unesp), Maria Teresa Pereira (UERJ) e SôniaMonnerat (UFF) sobre o cenário brasileiro da crítica e da teoria na literaturainfantil. 

E, mesmo assim, apesar da sua importânciadescrita acima, ela ainda sofre preconceito. Ele continua, dependendo do país que se desejaanalisar, afirma Hunt. “No mundo anglófono, que inclui o Reino Unido, Américado Norte e Austrália, o preconceito está próximo de desaparecer. Mas se vocêvai a um país como a Itália, eles estão apenas começando a ter estudos focadosna literatura infantil.” Segundo o pesquisador, isso se deve à importância queesta literatura tem em cada país. “No Brasil, por exemplo, os estudos na áreasão recentes, o sucesso de Monteiro Lobato se deu no século XX. Na Inglaterra,temos livros infantis desde o século XVIII, uma grande e forte tradição. E, poroutro lado, é algo que tem a ver com o gênero. O movimento feminista naInglaterra era algo muito forte há 20 anos. Livros para crianças sempre foramvistos como algo que pertence às mulheres, aos estudos femininos. E isso foivisto, por muitos anos, como algo inferior, porque assim sempre foramconsideradas as mulheres também. Mas os tempos mudaram e, em alguns países, demaneira mais rápida que em outros. O que é interessante, porque junto com aascensão dos estudos de gênero, a educação tornou-se mais importante e é nessecontexto que entram os estudos sobre literatura infantil”, afirma Hunt, na mesado restaurante em seu hotel carioca, enquanto aprecia uma cerveja. 

Vinteanos após a publicação de Crítica, teoriae literatura infantil o cenário é um tanto diferente. Quais as principaismudanças e o que ainda precisa ser repensado? 

“Aindapenso que as pessoas não levam a literatura infantil tão a sério o suficiente.Os pais, sobretudo. Porque quanto mais me debruço sobre o tema, mais vejo ainteração com os pais como a coisa principal. Se os pais não pensam sobre oslivros com muito cuidado, então as coisas dão errado. Outra coisa é que oseditores têm feito dos livros infantis algo como uma commodity, um produto

padronizado,cada vez mais parecido. Nos últimos 30 anos, temos muitos mais livros infantis,alguns casos de sucesso, mas eles são mais limitados do que antes. Temosmuitos, mas mais do mesmo. É como vender cerveja, elas são praticamente asmesmas”, afirma Hunt. 

Umcenário pessimista então? Não é o que pensa Hunt. 

“Souum otimista. Os pais estão se tornando mais e mais conscientes e informados, hápessoas levando este campo a sério. Temos as pequenas editoras, que podemimprimir sob demanda, novas vozes têm aparecido. Porque na Inglaterra, em tornode 95% hoje dos livros infantis são encomendados pelos editores, que determinam como o livro deve ser, oenredo, os personagens. Aterrorizante. Então os novos autores têm dificuldadeem emplacar suas ideias, seus livros.” O processo é invertido, e é muitodifícil se tornar um autor de livros infantis na Inglaterra e nos EstadosUnidos. Uma das filhas de Hunt trabalha em uma grande editora britânica e lhedisse que um em 10 mil originais não solicitados acaba virando livro. É comoganhar na loteria, algumas vezes até mais difícil. Harry Potter, não custalembrar, foi recusado várias vezes. E, claro, agora todos querem o novo HarryPotter. Ou o novo best-seller queseja de vampiros, fadas etc. Os editores se parecem cada vez mais, e Hunt sentepor eles. 

Poroutro lado, a academia, ao menos na Inglaterra e nos Estados Unidos, tem abertoas portas para os estudos em literatura infantil. Na Inglaterra, Hunt foi umdos pioneiros há 30 anos; hoje há entre 100 e 150 cursos dedicados ao tema. NosEUA, outra centena também. Os estudos são levados a sério mesmo por quem não éda área, e têm se tornado mais e mais populares.

Equal seria o papel de fenômenos como Harry Potter? “Penso que são muitoimportantes. Em primeiro lugar, obviamente, porque um monte de crianças estálendo, mas não só. As pessoas percebem a importância destes livros. Temos quelevá-lo a sério, porque esta literatura se baseia na tradição de criar universoscompletos e complexos, assim como Osenhor dos anéis. Mas também é um excelente exemplo do que o marketing podefazer. Eles têm tomado cada centavo como podem, com os produtos derivados dolivro. Mas o livro se tornou popular no boca a boca, com as criançasdivulgando-o espontaneamente. E a história aborda essa complexidade do universoinfantil. A mágica não é algo simples, onde você pode fazer tudo o que quiser,mas só lhe traz problemas, pois tem que aprender as lições, há restrições. Elaproduz problemas complexos e traz dificuldades”, acrescenta.

Outroponto levantado por Hunt que vem sendo modificado nas últimas décadas dizrespeito ao estilo, sobretudo pelo impacto da televisão e da internet, maisrecentemente. “Os escritores têm se tornado mais rápido, já que as pessoas não passammais tanto tempo lendo. A atenção, e não só das crianças, tem diminuído. Sealguém gasta mais que cinco minutos em um site é algo incrível. Isso mudasignificativamente a maneira como as crianças absorvem as histórias. E teminfluenciado os escritores”, acredita ele. 

Perguntose ele conhece as fanfictions, histórias que são continuadas pelos leitores.“Não está mais tudo apenas com o autor, e com as editoras, os divulgadores, amídia, poderíamos acrescentar. O autor é quem começa o livro, que é apenas ocentro e, muitas vezes, nem isso, mas apenas uma parte dessa mistura toda”,diz. Conto a ele que, no Brasil, os fãs chegam ao ponto de traduzir um livrorecém-lançado, que ainda leva alguns meses para que seja traduzido pelaeditora. Coletivamente, com centenas de tradutores/colaboradores, Harry Potterteve alguns de seus volumes traduzidos em um mês. Pode-se questionar aqualidade desta tradução, mas não passa despercebido a mudança que isso traz, sejapara a hierarquia de poder (da editora, do autor/tradutor etc.) ou pelanecessidade de consumir aquela história, já que estas traduções não são feitaspara serem vendidas ou ter algum lucro. Aqui, a satisfação em ter acesso antes àhistória é o que está em jogo. “Não tinha ouvido falar sobre isso. É incrível!”,entusiasma-se Hunt, que acrescenta: “Estamosvivendo o momento mais emocionante para os livros dos últimos 400 anos”. Depoisda tipografia, a internet é a grande mudança. E ela ainda engatinha, não custalembrar. E a literatura infantil é pioneira, pois experimenta primeiro o queserá usado depois pelos demais segmentos do mercado editorial. É só lembrar doslivros ilustrados, do uso de cartuns, de histórias em quadrinhos. “Todas asgrandes mudanças começaram com os livros infantis. Por isso a minha crença e omeu otimismo”, finaliza Hunt.

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