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A Lisboa fadista de Marco Rodrigues

Por Priscila Roque
 
Na sétima colina de Lisboa, onde está situada uma das casas de fado mais tradicionais de Portugal, Marco Rodrigues foi revelado como cantor.
 
O fadista, que nasceu em 1982 (55 anos após a fundação do Café Luso), foi agraciado com o primeiro lugar na categoria Sênior, no fim dos anos 1990, durante a Grande Noite do Fado.
 
Assim, ele se tornou um dos principais residentes – algo que permanece até os dias de hoje – e também gerente artístico do local. Um orgulho para o “gajo”, que tem como palco principal um daqueles que já foi ocupado muitas vezes por Amália Rodrigues.
 
Durante sua recente passagem pelo Brasil, o SaraivaConteúdo o convidou para compor o especial sobre fado contemporâneo do portal.
 
Além dos dois discos gravados, Fados da Tristeza Alegre (2006) e Tantas Lisboas (2010), a voz dele também é destaque na nova coletânea Fado – World Heritage.
 
Por aqui, o trabalho de Marco começou a ganhar espaço após sua grande amiga, Maria Gadú, tê-lo convidado para integrar seu atual álbum, Mais uma Página , com a canção “A Valsa”.
 
No mês de abril, ele esteve em duas apresentações da cantora, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Neste mês, é a vez das cidades de Lisboa e do Porto prestigiarem o dueto.
 
Marco Rodrigues recebeu o SaraivaConteúdo para um bate-papo. Ele falou sobre sua vivência como fadista no Café Luso e o encontro entre as músicas brasileira e portuguesa.
 
Você atua diariamente no Café Luso. Quem são as pessoas que formam o seu público? Os portugueses prestigiam esse estilo musical?
 
Marco. O Café Luso é uma casa de fados que recebe, em sua maioria, o público estrangeiro. Com o aparecimento de uma nova geração de fadistas, o público português que procura o Luso também aumentou bastante – o que me deixa ainda mais satisfeito. E o fado é, hoje, uma música do mundo pelo fato de ter saído do ambiente único e mítico da casa de fados – um circuito muito peculiar e seu habitat natural – para ser conhecido, sobretudo, no estrangeiro.
 
Lisboa é o berço do fado, a terra da inspiração fadista. Como você o vê nas demais cidades do país?
 
Marco. O fado é uma canção urbana. É em Lisboa que ele efetivamente tem mais força e se cultiva, diariamente. Existe história nos bairros típicos… História que serve para ilustrar a ligação da música com a cidade. Ao mesmo tempo, o fado é a música que representa Portugal e está de tal maneira enraizado, que se traduz na identidade do povo português. O fado e os fadistas estão por todo o país. Portugal é fado!
 
Como o fado entrou na sua vida?
 
Marco. Nasci em Amarante, no norte de Portugal, mas na adolescência fui morar em Lisboa. Eu já cantava desde os 8 anos, por todo o Minho, nos espetáculos do meu pai. Um ano depois de termos chegado a Lisboa, minha mãe me inscreveu na Grande Noite do Fado. Mais tarde, comecei a cantar no Café Luso, onde ainda hoje canto. O fado é um gênero musical único, envolto num misticismo ímpar que se conecta, de maneira perfeita, com a alma dos portugueses. Na minha primeira ida a uma casa de fados – precisamente ao Café Luso –, me identifiquei e me apaixonei de tal maneira pelo fado que fiz dele a minha vida. Além de ser uma música intensa, melodicamente muito rica e acompanhada por um instrumento único (a guitarra portuguesa), o fado é um gênero que preenche a respiração do intérprete. Acredito que não fui eu que decidi ser fadista, mas sim que fui escolhido.
 
Recentemente, você se apresentou no auditório do Museu do Fado. Esse é um dos maiores espaços que reúne todas as vertentes do fado?
 
Marco. A essência do Museu do Fado não é diferente daquela de outros museus. Ali, encontramos os espólios de inúmeros intérpretes, autores, compositores, músicos, construtores de instrumentos, estudiosos e investigadores, artistas profissionais e amadores e pessoas que testemunharam e construíram a história do fado. Desde a abertura, em 1998, acontecem também exposições temporárias, workshops e concertos. Ainda há a escola do Museu, com cursos de guitarra portuguesa e seminários de letristas e poética. O seu papel na investigação, promoção e divulgação do universo do fado e da guitarra portuguesa tem sido notável.
 
Em Tantas Lisboas, você contou com a participação dos fadistas Carlos do Carmo e Mafalda Arnauth, além de uma canção escrita pelo rapper Boss AC. Mesclar o tradicional ao que está acontecendo agora na música portuguesa é uma tendência?
 
Marco. As canções que ouvimos e o tempo e espaço onde vivemos nos influenciam na hora de compor. Logo, todas as músicas do mundo sofrem alterações com as novas gerações que vão aparecendo. O fado não é exceção. Não é preciso que fiquemos presos a demasiadas regras. Temos a sorte de terem existido, no passado, grandes intérpretes, autores e compositores que nos deixaram um importantíssimo legado. É importante conhecer muito bem as raízes para poder construir sobre elas. A própria Amália Rodrigues fez isso. Para mim, é natural que não se cante ou toque fado da mesma forma que há uns anos. O fado é tradicional, mas também é contemporâneo.
 
Você não nasceu em Lisboa, mas é nela que vive atualmente. Cantar “Tantas Lisboas” é assinar esse amor declarado pelo fado e pela capital do país?
 
Marco. Sim, de certa forma é isso. Sem dúvidas que cantar a cidade de Lisboa – a cidade que me ajuda a crescer enquanto homem, ser humano e músico – é um enorme privilégio. Fico muito feliz por ter conseguido colocar a minha paixão por ela neste disco.
 
Como surgiu a parceria com Maria Gadú?
 
Marco. Digamos que foi “fado” (em latim, significa destino)! Uma noite, a Maria Gadú, junto com os músicos e sua equipe, foi jantar no Café Luso e escutou a minha atuação. No final, ela conversou um pouco comigo e disse que gostou muito de me ouvir. Depois, seguimos para um bar onde costumo ir, no Bairro Alto. Continuamos juntos noite adentro, em momentos de descobertas e partilhas musicais. Me recordo que essa noite foi bem longa e terminou em um dos miradouros mais fascinantes de Lisboa. Então, nos encontramos mais algumas vezes em Portugal e, num desses reencontros, o convite da Maria surgiu naturalmente e me deixou radiante. É um privilégio poder participar no segundo disco dela – uma cantora com um talento notável e reconhecido por todo o mundo. O fato de Maria Gadú ter com ela músicos excepcionais e de grande profissionalismo foi uma mais-valia para mim em toda essa experiência. Me senti muito bem no Rio de Janeiro, quando fui gravar no estúdio. Toda a equipe da Maria me acarinhou e me recebeu muito bem.
 
Agora, você veio ao Brasil para cantar ao lado dela. Como foi a recepção do público? O que mais te marcou nos shows?
 
Marco. A reação do público não poderia ter sido mais carinhosa. Ainda estou vivendo uma série de emoções. Passei por momentos mágicos, e partilhar o palco com a Maria – pela primeira vez – foi inesquecível. Sou muito fã da cantora e ainda mais apaixonado pela pessoa que a Maria é. Conhecer nomes da música brasileira, como Milton Nascimento e Lenine, e atuar no HSCB Brasil e no Vivo Rio – salas onde já estiveram grandes nomes das músicas brasileira e internacional – é algo que não vou esquecer nunca. Neste mês, vou ter a oportunidade de cantar de novo “A Valsa”, com a Maria Gadú, desta vez em Lisboa (24 de maio) e no Porto (26 de maio). Há poucos dias, também tive a confirmação de que essas duas noites vão começar com fado, pois vou apresentar o meu show antes da Maria. Gostaria que essa parceria não ficasse somente nessa canção. Estou trabalhando no meu próximo álbum, que sairá em setembro, e gostaria muito de o apresentar no Brasil. Nessa altura, será um prazer poder retribuir o convite e ter a presença da Maria Gadú em um concerto ao vivo.
 
Assista ao vídeo de “Tantas Lisboas”, gravado em 2011:
 
 
Esta entrevista faz parte do especial sobre fado contemporâneo do SaraivaConteúdo. Leia as outras que já foram publicadas: Ana Moura, Cristina Branco, Mísia, Pedro Moutinho e Mafalda Arnauth.
 
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