Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.07.2009 15.07.2009

A intimidade revelada de Catherine M.

Por Marcio Debellian Foto de Tomás Rangel

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Catherine Millet, crítica de arte e editora da revista Art Press, tem dois livros publicados. O primeiro, A vida sexual de Catherine M. (Ediouro, 2001), em que narra suas aventuras e fantasias sexuais, fez grande sucesso, vendeu mais de 2 milhões de livros e foi lançado em mais de 40 países.  Catherine é casada há mais de 20 anos, e mantém uma relação aberta com o marido. 
O segundo livro, A outra vida de Catherine M. (Agir, 2008), ou O dia de sofrimento (Le Jour de Suffrance, no original em francês), expõe uma Catherine em contradição consigo mesma, contando a intensa crise de ciúmes que passou após encontrar, em cima da mesa do marido, um envelope com fotos de uma mulher mais nova. A partir deste momento, Catherine mergulha numa investigação nos escritos do parceiro e passa a conhecer todas as relações que ele mantém. Saber os detalhes – e as conseqüências naturais – do casamento aberto teve um efeito devastador em sua vida. “A transparência pode destruir um casal”, contou em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

A experiência de Catherine me fascinou desde que peguei seu livro para ler. O ciúme foi causa determinante no término de alguns dos meus relacionamentos. Já tive minha vida pessoal amplamente investigada: caixa de e-mail, mensagens de celular, e meu moleskine, o caderno onde anoto coisas pessoais de toda a natureza. Não sou ciumento. Sou atento em respeitar espaço e privacidade e este tipo de impulso invasivo nunca passou pela minha cabeça. Talvez por isso seja tão fácil remexer as minhas coisas – não as guardava pensando nestas possibilidades. 
Não acredito em relações fechadas. Concordo com Catherine quando ela diz que “devemos ao outro a liberdade sexual”. Acho que em algum momento será natural ter interesse sexual por outra pessoa, sem que isso signifique falta de amor ou vontade de abandonar a relação que já existe. 
A questão é como conjugar liberdade, transparência, amor e cumplicidade em um relacionamento. Não acredito que exista um modelo ideal, será sempre algo particular de cada casal. A própria experiência de Catherine mostra que as utopias típicas da geração que cresceu influenciada por Sartre e Beauvoir também podem desencadear processos dolorosos.
 
Foi com este interesse que tive a primeira conversa com Catherine, num almoço em Paraty. Relatei a ela que seu livro havia caído na minha mão no dia seguinte a um término de relacionamento em que passei por mais uma situação de ter meus escritos pessoais investigados. Dividi minhas dúvidas, utopias, meu ideal de amor e relacionamento. 
De todas as conversas que tive com os autores da Flip, esta foi a que transcorreu com mais “intimidade”. Os relatos de Catherine são corajosos e sinceros. “Para mim, escrever um livro é como me livrar de parte do que eu era para tornar-me, de fato, outra pessoa. É como as cobras que se livram da sua velha pele. Para mim, um livro é como uma velha pele que deixo atrás de mim”. 
A conversa com Catherine também me ajudou a deixar coisas pra trás e olhar o outro de uma maneira diferente. Compreender o ciúme, a importância do não-dito, e a proteção que devemos ter aos nossos universos particulares. A desfazer e refazer ideais de relacionamento. Reflexões necessárias para quem precisa de liberdade para amar.

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