Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 24.09.2010 24.09.2010

A intimidade de José Saramago


   Por Bruno Dorigatti e Marcio Debellian

 

Falecido em junho deste ano, o único escritor em línguaportuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, ganha uma homenagem à sua altura eimportância. José e Pilar, dirigidopelo também português Miguel Gonçalves Mendes, é o registro da intimidade docasal, que se juntou quando ele já tinha 63 anos. O filme tem estreia mundial dentro da programação do Festival do Rio 2010, neste sábado, 25 de setembro. Nos cinemas, José e Pilar chega em 5 de novembro

“Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer,morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”, diz Saramagono filme a sua amada, a jornalista Pilar Del Rio. Ele se foi aos 87 anos edestes, Mendes passou os últimos quatro acompanhando o casal, período em que oescritor estava escrevendo seu penúltimo romance, A viagem do elefante, lançado em 2008. Foi também quando Saramagoadoeceu e realmente pensou que não resistiria para conseguir terminar o livro.Mas ele se recuperou, finalizou o romance e ainda saiu mundo afora paralançá-lo. 

O filme acompanha essa jornada insana entre aeroportos,homenagens, filas intermináveis de autógrafos. Também se detém em Lanzarote,ilha vulcânica encravada no Atlântico e pertencente à Espanha, onde o casalmorou, para acompanhar o dia-a-dia da intimidade dos dois. Aqueles que esperamSaramago a falar sobre o mundo com seu olhar cético e pessimista, podem sedecepcionar. Mendes tem nove horas de entrevista com ambos, mas elas sairãoapenas em livro. “O filme é esta história muito simples: um homem que querescrever um livro, quase morre e acha que não via conseguir acabá-lo. E depois todoo esforço que ele tem em conseguir terminar este livro. O filme, de uma forma,é muito sobre a morte, sobre essa urgência do tema”, diz Mendes em entrevistaexclusiva ao SaraivaConteúdo. 

A ideia do filme surgiu após o encontro com Saramago, quandoMendes o convidou para que gravasse em off a leitura de um trecho de Memorial do convento, seu romance de1982, para seu primeiro filme, sobre a relação entre Portugal, Galícia e apalavra “saudade”. Ele então propôs o documentário, que o escritor recusou antesde enfim se convencer a se deixar filmar. E Mendes acredita que ele gostou,apesar de ter sido sofrido, por conta da doença que o abateu durante oprocesso.

 > Assista à entrevista exclusiva com o diretor Miguel Gonçalves Mendes para o SaraivaConteúdo


Como surgiu o filme?
 

Miguel GonçalvesMendes. Sinto que na vida dele, a Pilar tem um papel fundamental, trabalhadiariamente com ele. Então daí surgiu a ideia de fazer este José e Pilar, que é um retrato dos doise deste amor. Um amor que é muito particular. Pilar é uma jornalistasuperfamosa em Espanha e ela leu um livro dele, O ano da morte de Ricardo Reis (1984) e disse: “Ah, tenho queconhecer o autor”. Então foi a Lisboa, encontraram-se e depois ele escreveu umacarta perguntando a Pilar se a vida dela permitia voltar a encontrá-lo, e eladisse que sim. Conheceram-se e ficaram felizes para sempre. Pilar abandou avida dela em Espanha e foi viver em Lisboa com ele. 

A ideia inicial já era tratar da relação dos dois. A únicacoisa que mudou é que o filme começou a ganhar um cunho muito cronológico.Porque o filme arranca com as viagens dele para lançar A viagem do elefante (2008). Aí quase que virou uma obrigação dofilme acompanhar todo o período, todo processo de escrita e o lançamento, quevem até o Brasil. E fez com que eu filmasse por dois, três anos, sendo que nomeio Saramago adoeceu. E todo mundo pensava que ele ia morrer, ele própriotambém. E ele tinha medo de não acabar o livro. 

Então o filme é esta história muito simples: um homem quequer escrever um livro, quase morre e acha que não via conseguir acabá-lo. Edepois todo o esforço que ele tem em conseguir terminar este livro. E aindaescreveu Caim (2009). O filme, de umaforma, é muito sobre a morte, sobre essa urgência do tema. Há uma coisa muitobonita que ele diz – ele começou a escrever muito tarde, aos 60 anos –, entãoele diz que tudo de bom que aconteceu na vida foi na fase final. E daí essaurgência e essa avidez em trabalhar, em fazer e intervir socialmente. Ele jánão tinha tempo. Acho que o filme é bem otimista nesse sentido. E acho que é umfilme dos vivos para os vivos. Pois é, só há esta vida, não vale a pena estar achorar e perder tempo ficando deprimido. Ou fazemos ou não fazemos. Outrabalhamos ou não trabalhamos. Quer dizer, temos que ser felizes nesta vida,porque é a que temos. Acho que ele é bem otimista neste sentido. 

Isso é a marca quefica depois dessa convivência de quatros anos, filmando esse processo todo? 

Miguel GonçalvesMendes. O filme é muito cruel. As pessoas vão estar a espera de ver oSaramago falando sobre o mundo e o filme não tem isso. Não é isso. É um homem atrabalhar todos os dias, com pessoas a entrevistá-lo, com repórteres chatos,idiotas, fazendo perguntas parvas e essa coisa muito claustrofóbica. E aspessoas me perguntam muito, mas por quê? Por que você faz isto? Eu digo que, emrelação aos leitores que o amam, o mínimo que ele pode fazer para retribuir édar um autógrafo, por mais chato e incômodo que seja para ele. Mas é o mínimoque ele pode fazer. Em relação às entrevistas, ele defende coisas em que acredita,ele quer melhorar o mundo em função do que é o seu olhar. Então tem que repetiraté a exaustão aquilo em que acredita. É uma coisa muito de força mesmo, dequerer imprimir, sabendo que tudo vai acabar e nada fica. 

Com quantas horasvocê chegou à ilha de edição? 

Miguel GonçalvesMendes. 230 horas. Foi uma loucura e só sei que agora quando acabar estefilme vou trabalhar no McDonald’s ou em uma biblioteca pública. [risos] Foramquatro anos de filmagem, 230 horas de material. Foi, como vocês dizem cá, umquebra-cabeças, um puzzle, horrívelde fazer. E financeiramente também foi um desastre, estou em falência, com 100mil euros (R$ 230 mil) em dívidas. É o que é, não importa. O primeiro corte dofilme tinha seis horas. Aliás, foi esse corte que o Fernando Meirelles viu,quando a O2 ficou coprodutora do filme. E ele foi reduzido para duas horas,tentando não perder a, sei lá, as coisas boas e o foco do filme, porque omaterial todo era muito bom. Se fiz as melhores opções? Ah, não sei já. Fiz omelhor que sabia naquela hora. 

Pretende utilizaresse material de outra maneira? 

Miguel GonçalvesMendes. Não pretendo fazer nada. Quer dizer, formou-se uma hipótese vaga defazer um seriado com estas seis horas que existiam. É, mas isso implica maisdinheiro, dinheiro que não tenho. Portanto, não vai acontecer. O que, sim, vaiacontecer é que vamos lançar um livro com as entrevistas dele e da Pilar que eufiz. Tenho mais ou menos nove horas de entrevistas, tanto com o Saramago quantocom ela, que não estão no filme, pois ele não tem uma única entrevista. Entãovamos publicar este livro com fotografias, que sai junto com o filme [noBrasil, será lançado pela editora do escritor português, a Companhia dasLetras]. 

Outra coisa simpática, acho, é a trilha sonora do filme. Émuito particular, porque como o filme não tinha estas entrevistas e eu sentiafalta de algum conteúdo filosófico dele, propus a alguns músicos musicarem asrespostas que ele tinha dado nas entrevistas. Como se funcionasse como umaespécie de coro da tragédia grega. Então convidei Camené, uma fadista superbom,Adriana Calcanhotto, Pedro Granato, que é de São Paulo, Pedro Gonçalves, do JetCombo, Alberto Iglesias, que é faz as trilhas sonoras dos filmes do Almodóvar. 

E o Saramago chegou aver algum corte antes de morrer [em 18 de junho de 2010]? 

Miguel GonçalvesMendes. Ele viu o corte de três horas. E quando acabou o filme, ele disse:“Oh, Pilar isto aqui é grande dedicatória de amor a tua pessoa”. Ao que elarespondeu que a vida dela também era uma grande dedicatória de amor. Elegostou. Se bem que deve ter sido superduro para ele ver o filme. O filme acompanhao período da doença, que foi bem horrível.


> Assista à entrevista exclusiva de Miguel Gonçalves Mendes ao SaraivaConteúdo

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