Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 28.01.2011 28.01.2011

A Índia pop de Arthur Veríssimo

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel

Ele conhece a Índia há 17 anos, onde já esteve também por 17 vezes. Jornalista da revista Trip desde sua fundação há 25 anos, Arthur Veríssimo é um profissional raro por aqui, com espaço e pessoas que apostam em seu trabalho mais próximo ao jornalismo literário e narrativo, aquele que te coloca “na cena do crime”, como ele mesmo diz. O que para muitos se resume ao jornalismo gonzo, cunhado por Hunter Thompson, na verdade, para Veríssimo seria mais próximo dos exploradores dos séculos XVIII e XIX, como Sir Francis Richard Burton e o coronel Percy Fawcett, este desaparecido em sua expedição amazônica em busca do Eldorado. E é esta faceta que aparece em Karma pop (Master Books, 2010) livro que reúne fotos e textos destas andanças do jornalista pelo país, passando pelo Khumba Mela, festival que acontece a cada 12 anos e reúne dezenas de milhões de pessoas em quatro cidades, o festival de Ganesh, entre tantas peregrinações pela Índia. 

> Assista à entrevista de Arthur Veríssimo ao SaraivaConteúdo

A seguir Veríssimo fala sobre essa relação com o país, que segundo ele vem de casa desde sempre, com a mãe professora de ioga e o pai literato, repleto de livros, inclusive os de fotografia do francês Henri Cartier-Bresson, com sua viagem pela região onde foram forjadas cinco grandes religiões, com o hinduísmo em destaque; e comenta sobre o espaço que (ainda) resta para o jornalismo que ele se propõe a fazer.  

Como surgiu essa relação com a Índia? Eu sei que tu já fizeste dezenas de viagens… 

Arthur Veríssimo.  Essa história toda com a Índia está já no código genético, já estava na corrente sanguínea antes de eu ter nascido. Mas teve esses sinais na minha vida, a biblioteca do meu pai, ele era um literato, então tinha livros incríveis, como os de fotografia do Cartier-Bresson, todos os livros de Mário de Andrade, Erico Verissimo. A partir das fotos do Bresson da Índia, do Khumba Mela, isso foi me contaminando. A toxina Índia se instalou no meu aparelho, no meu corpo. E minha mãe era professora de ioga também. Eu tinha por volta de 11, 12 anos e minha mãe era professora de ioga no Brooklyn, ali em Santo Amaro, no clube Banespa. Eu era atleta do Banespa, desde cedo, e isso me chamava, até que aos 16, 17 anos, na época em que estava começando o punk, em 1978, 1979, na cidade de São Paulo – sou um cara de 51 anos –, nas outras cidades isso acontecia, mas não com tanta vibração. E eu era de um bairro que tinha muitos estrangeiros, a Boa Vista. Então tinha acesso a muitos discos. Desde cedo eu era ligado na música, no Brian Jones, do Rolling Stones, foi o cara que trouxe o Santana… Eu tinha muita essa história com a música, e principalmente o Led Zeppellin. Foi a banda mais importante pra mim. Eu vejo aí o grande Paul McCartney, que esteve aqui recentemente, mas para mim é Led Zeppellin, não tem como, Jimmy Page, essa turma inteira, Robert Plant, que tive a oportunidade de conhecer numa viagem em Bali. Mas voltando… Daí apareceu um guru indiano chamado Bhagwan Rajneesh na minha vida. Todo mundo nesse bairro punk em 1979 e 1980, em meio ao movimento acontecendo, Sex Pistols, Iggy Pop, Siouxsie and the Banshees, essas coisas todas, essa gravitação da música, Bauhaus, The Cure, e eu descobri esse guru, Bhagwan Shree Rajneesh, que depois mudou de nome para Osho, e me encantei com essa história, mergulhei profundamente, com uns 18, 19 anos. Para desespero da minha família, caí nessa história do Rajneesh, que era simplesmente a três quarteirões da minha casa no Brooklin. Então vê: eu chego ao local, onda está todo mundo celebrando, feliz, mulheres lindas… Pensei: “Poxa, vou ficar com os punks ou com essa onda Rajneesh?”. Mergulhei nos braços do Rajneesh e a partir disso fui para a Califórnia. Conheci realmente a parte de comida, de música, isso numa comunidade do Rajneesh na Califórnia, aí que começou mesmo o embalo geral. 

E daí para começar a viajar para lá e ter um contato direto com Índia? 

Veríssimo. Foi tardiamente. Fui DJ por muitos anos, fazia dupla com Alex Atala, com Jaiminho, o Zé Gonzalez, do N.A.S.A., era meu assistente, começou com 15 anos. Isso tudo foi revirando na minha vida, comecei a trabalhar, iniciei a [revista] Trip, que está completando 25 anos, mas só em 1994 que fiz minha primeira viagem para a Índia. Já tinha circulado, ido à África, andado pelos Estados Unidos, Europa, mas a Ásia… Inexplicavelmente, eu nunca havia estado em território asiática. Em 1994, fiz minha primeira viagem, e que foi, né… Realmente, abriu um portal de sabedoria na minha vida e revolucionou, transformou o meu comportamento. 

E o que realmente te surpreendeu ao chegar lá? 

Veríssimo.  Ah, foi impactante, são pessoas anônimas, ninguém te conhece, e vem cara só com um pano enrolado na cintura, ao redor do corpo, falando quinze línguas. Como é que é isso, como são os valores aqui? Como os valores aqui no Brasil, que qualquer pessoa pode notar. O principal racismo no Brasil é com a falta de dinheiro, não é coisa de pele, não. Se a pessoa não tem dinheiro, é pobre, vade rectum.E lá, não. Comecei a conhecer todos esses peregrinos, devotos, essas pessoas, os caminhantes. Comecei a observar, e me cativei completamente. Porque tenho um envolvimento com budismo tibetano, tive a felicidade de conhecer o oráculo pessoal de sua santidade o Dalai Lama e por muitas vezes comecei a ir a Dharamsala [cidade ao norte da Índia], que é sede do governo tibetano em exílio, tanto do governo religioso, como político, e sua santidade tem lá a sua casa, o seu mosteiro, onde gravitam muitos ocidentais. Daí comecei a entender a Índia, fui para a Caxemira já na primeira viagem. A partir disso, estamos em 2010, eu fiz 17 viagens à Índia. 

Essas 17 viagens tinham um porquê. Eu fotografava, colhia informações, fazia minhas reportagens [para a Trip]. Quando percebi que em 1998 iria acontecer o Khumba Mela – o mais antigo festival da humanidade, que acontece somente de 12 em 12 anos em quatro cidades sagradas –, isso me absorveu e falei: “Opa, vou fazer pelo menos um registro, deixar um pouco as minhas crônicas, minhas reflexões de marinheiro”. Não marinheiro de primeira viagem, porque eu já tinha estado na Índia já umas cinco vezes. E foram massacrantes as minhas idas. O próprio Paulo Lima, que é meu publisher [da Trip], editor, amigo, irmão, falou “Arthur, para de viajar para Índia”. Eu tentava, ia ao México, para onde já fui 15 vezes, mas eu ia ao México e ia para a Índia, né… Era um território onde eu estava reconhecendo o terreno, porque a Índia é três vezes menor que o Brasil, só que tem 1 bilhão e 100 milhões de habitantes, e ali se forjaram cinco grandes religiões. Pensei, “é aqui que realmente já está tudo instituído, basta eu ir às fontes”. As fontes, quais são? As bibliotecas e as pessoas, as organizações religiosas. Comecei e parecia que eu tinha um crachá, "está aberto para você". E comecei a conhecer uma série de homens santos, iogues e pessoas realmente iluminadas. É um pancadão cada viagem. 

Você pode dar exemplos de impactos, descobertas, aprendizados? 

Veríssimo. São tantas histórias, e tantas e tantas e tantas… Tem uma, que realmente permeou o meu ser, permeia minha calda histórica, que é esses sonhos premonitórios que tinha com Madre Teresa de Calcutá. Minha mãe havia falecido há um ano e meio e sempre falava "Arthur, vai ao encontro da Madre Teresa". Aí eu falei “mas poxa, onde é que eu vou encontrar a Madre Teresa?". E quando eu fiz a terceira viagem à Índia, em 1995, com o Fernando Costa Neto, a gente estava viajando, no Nepal, e os sonhos começaram a martelar continuamente. Não era um sonho, eram três sonhos por noite. "Vai na Madre Teresa, vai na Madre Teresa", um mantra contínuo. Então tá, eu vou na Madre Teresa. O Fernando resolveu voltar para o Brasil e eu fui para Calcutá, sem lenço e sem documento, sem saber. Porque não tinham essas infovias, não tinha um santo Google, o oráculo, para você saber cadê Madre Teresa. Fui de informações por telefone, cheguei onde tinha a organização em Calcutá, num dia de calor violentíssimo, me instalei ao lado da irmandade e no dia seguinte me falaram "olha, tem uma missa, logo cedo", por volta das quatro e meia, cinco da manhã, provavelmente ela estará lá. Lá fui eu. Primeiro dia, não vi nada. Segundo dia, cadê? No terceiro dia, interpelei a pessoa, o padre que estava regendo a missa, no púlpito. Cheguei, perguntei a ele, que falou: "você não percebe, elá está aqui, ao seu lado, sempre"! Estava irreconhecível, toda encarquilhadinha, assim num cantinho, mas disso ela se levantou, parecia que ela me esperava, foi sensacional. Aquela mão dela, o dobro da minha – e eu não estava tão enfraquecido assim… Foi um momento muito especial, tomei conclusões de coisas que fazem parte da minha vida, minha mãe, os sonhos, Madre Teresa, a ahimsa, a não-violência-tapas-austeridade. Porque você tem que ter uma conduta muito firme diante da sua vida, para poder realizar essas proezas e façanhas, porque é assim, realmente uma dádiva que acontece com você, mas com muito empenho, com muita disciplina. Então este foi um episódio muito incrível. E tantos outros, os Khumba Melas. Agora em março de 2010, a figura da capa do Karma pop (Master Books, 2010), o  Sri Rameswar Puri, que está de barba, cabelos longos, e eu o reencontrei 12 anos depois, numa multidão de duas milhões de pessoas e ele sem barba e careca. Então são dois momentos, dois episódios muito marcantes e entre esses dois episódios aconteceram milhares. 

E para organizar o livro, como foi selecionar os textos e as fotos?

Veríssimo. Rapaz, foi um trabalho de Hércules. Foram os 12 trabalhos de Hércules, completos. Num dado momento, um grande amigo, Richard Kovács, diretor de arte, juntamente com Rui Mendes – para mim um dos cinco maiores fotógrafos do Brasil, inclusive já esteve em Khumba Melas, viajou comigo, fomos para as Filipinas, Indonésia, já fomos para a Papua Nova Guiné, um fotógrafo inacreditável – me perguntaram: “Arthur, mas cadê essas fotos?” Porque todo mundo percebia que eu ia fotografando, viajei com Christian Cravo, Christian Gaul, com diversos fotógrafos… E eu falei: "O material taí, mas o material é grosso". A gente foi ver, tinham umas 45 mil fotos, em cromo, papel e agora no final, alguma coisa digital. Eles separaram umas 3 mil fotos… E o Richard tem esse dom para selecionar, montar. Eles levaram nove, dez meses, sumiram, e surgiram com 500 fotos. Passou mais cinco meses e o Richard me apresenta o boneco do livro. Ah! [puxa ar] Eu senti falta de algumas fotos, mas fiquei estarrecido com o material. Daí tinha outra parte, dar um tratamento nos textos, tinha que ser mais atemporal. E foi brilhante, começamos pelo Khumba Mela, mergulhamos no festival do Ganesh, o batuque pra Ganesh. Vamos para essa história magnífica que são as peregrinações na Índia. Tem a luta que é o pré jiu-jitsu, foi dali que originou o jiu-jitsu da família Gracie, que nos tempos de Ranuman era a mesma técnica, a mesma dieta. E a dieta Gracie se origina de todo esse universo de Ranuman, o qual é simplesmente o rei dos reis, dos guerreiros, o general dos generais. Então tem toda essa saga, mais a parte gráfica da Índia. 

Falando um pouco do teu trabalho, muitas dessas matérias saíram na Trip. E lá tu desenvolveste nesses 25 anos um trabalho muito particular, peculiar. O chamado jornalismo gonzo, associado ao Hunter Thompson. Fala um pouco disso, como é que começou essa ideia? 

Veríssimo. Tem grandes amigos, uma farta literatura por trás dando embasamento [ao jornalismo gonzo]. As colunas são bem profundas, porque de uma forma que fosse mais leve para as pessoas entenderem, foi lançada essa terminologia do gonzo journalism. O Hunter Thompson, conheço tudo dele. Ele era um cara focado, realmente, em drogas, em baladas fortes e na política interna norte-americana e na guerra. O jornalismo que faço é dos exploradores dos séculos XVII, XVIII, XIX. O meu foco principal, por quem eu tenho um carinho um apreço muito grande – Hunter Thompson é mestre – é Sir Richard Francis Burton. Esse cara para mim é um iconoclasta, um poliglota, um cientista. Outro também que se embrenhou pelo Brasil e se perdeu, o coronel Percy Fawcett. Esses grandes exploradores, tive um impacto com eles. Então, é difícil dizer. Jack Kerouac tem muito mais importância para mim do que Hunter Thompson, sem desmerecê-lo. Ele é algo recente, teve o filme maravilhoso do Terry Gilliam, Fear and loathing in Las Vegas[Medo e delírio em Lãs Vegas, também o título do livro de Thopson], com Johnny Deep e Benício del Toro arrasando. 

Mas esse trabalho dentro do jornalismo brasileiro, esse tipo de narrativa, é muito difícil aqui no Brasil. Porque existem classificações, todo mundo gosta de classificar. E isso é um jornalismo literário, narrativo, em que tento levar realmente as pessoas para uma situação de realização e para a cena do crime. E são muito cinematográficos os meus textos. Tento levar, espero que alguém um dia perceba e leve alguma coisa desses textos breves e curtos, porque revista é difícil, você tem espaço. “Ah, você tem que fazer uma matéria 6 mil toques, 12 mil toques, 18 mil toques". Então você vai lapidando aquele produto, é como forjar um queijo. Eu sou vegetariano, mas lacto vegetariano. Então é uma lapidação mesmo. Eu me sinto satisfeitíssimo, sabe?, de ter um espaço dentro da Trip. Porque se vocês forem ver o mercado editorial, é raro, né?, não existem revistas que realmente deixem o autor solto. Tem a Trip, a Piauí também dá esse espaço, mas é raro. E nos jornais, poxa, tem jornalistas inacreditáveis… Se eu for falar, vai levar pelo menos umas quatro entrevistas… 

Poderia falar sobre esse projeto novo, que é investigação de transes ao redor do planeta. Qual que é a idéia, o âmago, desse novo projeto?

Veríssimo. Quero mostrar para as pessoas  todo esse universo do xamanismo na América do Sul, na América Central. Toda a herança dos Apistecas, Mistecas, Oumecas, Maias, Incas, Axanincas, Yanomamis. Toda essa frequência que existe, da espiritualidade no centro do Brasil, nos cultos afro-brasileiros. A curiosidade é muito grande. A curiosidade e também as pessoas, elas despertarem para a sabedoria inata que está nelas. Não é só levar ao conhecimento, é acordar [bate palmas], "Ei, meu, acorda, isso é bom pra você". Porque está todo mundo envolvido com o sistema. Eu trabalho, você também trabalha. Mas aquele momento especial para você se desligar e ficar um pouco mais cósmico. Esse tipo de conversa, quando a gente começa a falar sobre aquecimento global, sobre degelos dos pólos, sobre toda essa situação. A toxicidade dos oceanos, o continente de lixo que nós temos nos oceanos, a quantidade de embarcações. Leiam o livro A onda [de Susan Casey (Zahar, 2010)], é incrível. São duas a quatro embarcações que desaparecem por semana. Imagine se desaparecesse um Boeing, é um cataclisma no espaço aéreo… Tem muitas coisas que são boicotadas, então não boicote a si mesmo, volte para a casinha, se conheça, e um bom trajeto para isso, uma boa dica, é o meu livro Karma pop [risos]. Está bom? É isso.
 

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