Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 27.02.2014 27.02.2014

A história das marchinhas de Carnaval

por Thaís Ferreira

Preparem o confete, a serpentina e a fantasia: está chegando mais um Carnaval. Mas a folia só está completa com uma boa trilha sonora. Muito antes de os sambas-enredo e os trios elétricos baianos se tornarem as estrelas dessa festa, eram as marchinhas que alegravam os foliões. Com uma origem que remete ao final do século XIX, o gênero foi criado a partir da cadência da marcha portuguesa. O ritmo foi incrementado com os instrumentos de sopro inspirados nas bandas de jazz americanas, como saxofone e trompete.

A primeira música reconhecida como marcha de carnaval foi “Abre Alas”, composta pela pianista e regente Chiquinha Gonzaga, em 1889, para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro. O auge desse gênero musical aconteceu anos depois, entre as décadas de 1920 e 1960, mas isso não quer dizer que as músicas foram esquecidas com o tempo. Os sucessos de um ano eram repetidos nos próximos carnavais e até hoje embalam várias festas pelo país.

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As marchinhas já foram conhecidas como as caricaturas da sociedade brasileira: as letras são maliciosas e divertidas, têm um humor escrachado e retratam os costumes e a história do país no século passado. O politicamente correto não tem espaço, não existe tema proibido, as frases de duplo sentido são bem-vindas e qualquer tema sério se transforma em uma grande brincadeira.

Entre compositores que se destacaram estão Braguinha, Lamartine Babo, João Roberto Kelly, Roberto Roberti, Manoel Ferreira, Ruth Amaral, Haroldo Lobo e muitos outros. Para cair na folia, conheça as histórias curiosas por trás das marchinhas de Carnaval.

Cabeleira do Zezé

A canção foi composta em 1964, pelo apresentador e ator Roberto Faissal e pelo músico João Roberto Kelly. Na época, eles trabalhavam na TV Excelsior do Rio de Janeiro e, durante os intervalos das gravações, frequentavam o bar São Jorge, em Copacabana. Um dos garçons – o José – tinha um cabelo grande, o que era considerado incomum para época. Ele chamava a atenção dos frequentadores e da namorada de Kelly. Com ciúmes da parceira e para fazer troça com o garçom, a dupla começou a compor a música “Cabeleira do Zezé”, que se tornou um grande sucesso dos bailes de carnaval.

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O Retrato do Velho

Depois da ditadura do Estado Novo, Getúlio Vargas queria ser eleito presidente da república em 1950 pelo voto direto. Os compositores Haroldo Lobo e Marino Pinto foram contratados para criar um jingle para a campanha. Dessa forma surgiu a canção “Retrato do Velho”, que falava sobre o hábito de colocar a imagem de Vargas nas repartições públicas. A música ajudou a eleger o candidato e foi além: saiu da disputa eleitoral para animar os bailes. A letra faz apologia a Vargas, mas também foi usada de forma satírica pelos foliões para expressar sua indignação política.

Essa não foi a única vez em que as marchinhas de Carnaval foram utilizadas para ajudar candidatos. Em 1960, Jânio Quadros se utilizou do mesmo recurso com a famosa estrofe “Varre, Varre Vassourinha”.

Pierrot, Arlequim e Colombina

O triângulo amoroso entre os três famosos personagens da Commedia dell’Arte, gênero teatral criado no século XVI, na Itália, foi a inspiração para a marchinha “Pierrot Apaixonado”, composta por Noel Rosa e Heitor dos Prazeres. Na trama, o Pierrot é um serviçal pobre e ingênuo que se apaixona pela Colombina, uma dama de companhia, mas ela só tem olhos para o Arlequim, um servo debochado e preguiçoso. A história também foi tema da música “Máscara Negra”, composta por Zé Keti em 1967.

Mulata iê iê iê

Esse outro sucesso de João Roberto Kelly foi composto em homenagem à primeira mulher negra a concorrer ao título de Miss Brasil. A “mulata bossa nova” da canção é Vera Lúcia Couto, eleita Miss Estado da Guanabara em 1964. Ao vê-la desfilando durante o concurso, Kelly ficou admirado com a beleza e elegância da modelo e escreveu a música. O sucesso da marchinha se estende até os dias de hoje.

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