Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.11.2014 17.11.2014

A habilidade de J. K. Rowling em “prender” o leitor a suas narrativas

Por Fernanda Oliveira
É incontestável que o sucesso de J. K. Rowling resultou dos livros protagonizados por Harry Potter, ao qual a autora dedicou anos de trabalho. No entanto, definitivamente, a escritora não pode ser rotulada por um único personagem.
Com o final da série do bruxo, que se tornou um fenômeno mundial, ela direcionou seu trabalho para o público adulto com o lançamento do livro Morte Súbita (2012). Com a assinatura da autora de Harry Potter, o título vendeu milhões de cópias rapidamente.
Em 2013, J. K. decidiu usar o pseudônimo Robert Galbraith para sua nova obra, O Chamado do Cuco. Mesmo sem o nome da famosa escritora, o livro foi bem recebido pela crítica, que fez uma série de elogios à narrativa do “autor estreante”.
Mas, poucos meses após o lançamento, um jornal britânico divulgou que J. K. era a verdadeira autora do título, o que fez as suas vendas dispararem. Porém, a recepção inicial positiva foi uma resposta para aqueles que insistiam em resumir seu trabalho a Harry Potter.
Além disso, nessa obra, surgiu outro personagem “forte” da escritora, o detetive Cormoran Strike, que já ganhou um novo livro: O Bicho-da-Seda – com lançamento da edição em português previsto ainda para este mês.
Seja tendo Harry Potter ou Cormoran Strike como protagonista, seja contando histórias que se passam em um mundo fantástico ou no mundo real, J. K. consegue conquistar o leitor e, então, “prendê-lo” à sua narrativa. Seus livros são daqueles difíceis de parar de ler.
“Um bom autor pode falar de qualquer tema com sucesso se souber como chegar ao seu leitor. A forma de escrever nada mais é do que a competência que o escritor acumula no decorrer de sua formação literária. Quanto mais ele lê e escreve, mais competência de escrita vai possuir; assim, não basta dominar gêneros textuais, normas de ortografia etc. Para conquistar o leitor, é necessário saber transformar pequenos temas em grandes histórias”, afirma Camila Baiona, pesquisadora da obra da escritora na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp-Araraquara).
Com o final da série do bruxo, J. K. direcionou seu trabalho para o público adulto com o lançamento do livro Morte Súbita
E completa: “Não é o tema que determina a qualidade de um texto, mas a maneira com que ele é constituído por meio da criatividade, do domínio dos recursos narrativos, do foco no público-alvo, dentre outros pontos que o escritor deve levar em consideração ao escrever”. Para Camila, definitivamente, é possível encontrar esses recursos nas obras de J. K. “Acredito que as principais características da narrativa da autora sejam: criatividade, bagagem literária – é evidente que J. K. lê muito para compor seus livros -, construção das personagens e temas que levam o leitor a fazer parte da história”.
POR QUE OS LIVROS DE J. K. VICIAM?
“O que ‘prende’ o leitor às narrativas de J. K. são os elementos que o fazem adentrar a história. Um desses elementos é a identificação pessoal com um determinado personagem. A autora o constrói e narra suas características físicas e psicológicas, de forma que o leitor acaba se reconhecendo nelas, ou tornando-o tão conhecido para si que estabelece uma relação de identificação e afeto”, explica Camila.
De acordo com ela, outro fator importante está relacionado ao perfil dos personagens. “J. K. escolhe como protagonistas de suas obras pessoas de certa forma ‘marginalizadas’ pela sociedade – por exemplo, o órfão [Harry Potter], famílias em crise [Morte Súbita] e o detetive ferido física e psicologicamente [O Chamado do Cuco e O Bicho-da-Seda]”. Além disso, para a pesquisadora, a descrição exagerada das ações nas cenas e os detalhes minuciosos que levam o leitor a construir a imagem do que está sendo narrado são responsáveis por gerar uma espera ansiosa pela continuação da ação descrita. “É mais uma característica que torna as obras de J. K. tão intensas e cativantes”.
Especificamente no caso dos trabalhos para o público adulto, Camila vê outras “marcas” da escritora, mencionando, primeiramente, a divisão singular das obras. “Em Morte Súbita e O Chamado do Cuco, além da divisão em capítulos, que não são nomeados, há a divisão em ‘partes’ e em subcapítulos. O que marca as ‘partes’ em Morte Súbita são citações da obra Administração dos Conselhos Locais, de Charles Arnold-Baker e, em O Chamado do Cuco, citações (em latim ou no idioma de tradução) de autores greco-latinos, que são claramente fontes de inspiração da autora”.
A pesquisadora também cita a constante abordagem do tema “morte”, não somente nos livros mais recentes, como também nos títulos da saga Harry Potter. “J. K. opta por assuntos que de certa forma exploram a morte. Em entrevistas, ela mesma declara que, por ter perdido a mãe e a avó na infância, e outros parentes ao longo da vida, a morte é algo que permeia seus pensamentos desde muito cedo. Porém, afirma que não como algo ruim, mas como uma reflexão que pode levar a vários caminhos”, explica Camila.
Com o lançamento de O Bicho-da-Seda, a autora inglesa mostra que continua contando histórias que fazem os leitores “devorarem” seus livros
E adiciona: “Há uma característica que as torna [as obras para o público adulto] ainda mais semelhantes: os conflitos, tanto interiores (que os personagens têm com eles mesmos) quanto os familiares ou de convívio, que geram vários desenlaces nas narrativas. A linguagem utilizada pela autora em Morte Súbita e O Chamado do Cuco, bem diferente da série infantojuvenil, possui palavrões, relatos que remetem à sexualidade etc.” Certamente, são aspectos presentes em O Bicho-da-Seda, já que se trata da continuidade de O Chamado do Cuco.
“Quando imaginamos que a escritora chegou ao limite, ela nos mostra que por de trás de uma trama existem várias outras. Afinal, para uma mente criativa, não há limites. Então [em O Bicho-da-Seda], o detetive Cormoran Strike tem grandes mistérios a desvendar com a morte do romancista Owen Quine”, completa a pesquisadora, destacando ainda o cuidado da autora com a evolução do personagem central. “Ao narrar os personagens, ela consegue mostrar tudo sobre eles. Faz com que nos tornemos íntimos”.
Camila finaliza dizendo que, como Harry Potter, Cormoran Strike também é um personagem complexo. “Conforme a trama caminha, o leitor vai conhecendo novas particularidades do personagem. Acredito que, assim como descobrimos nossas características ao longo da vida, a escritora vai descobrindo as de seus personagens ao longo da escrita. Por isso, creio que veremos um homem já maduro desbravando seu maior mistério, o qual abrange sua mente, seus limites e seus temores. Afinal, uma personagem nunca é somente uma personagem para J. K.”
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