Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 18.03.2011 18.03.2011

A guitarra de Luiz Chagas, de Itamar Assumpção a Tulipa Ruiz

Por Bruno Dorigatti

Foto de Tomás Rangel

Luiz Chagas é jornalista, mas desde garoto arranha sua guitarra. Aos 29 anos, começou a tocar com Itamar Assumpção, quando ele estava se lançando, no começo dos anos 1980. “Ele tinha gravado o primeiro disco, Beleléu Leléu Eu, mas não tinha uma banda para lançar. O Isca de Polícia existia só como conceito, mas a banda em si não existia. E minha vida musical começou a partir daí”, conta ele, em entrevista ao SaraivaConteúdo, que acabou por se tornar um dos importantes nomes da chamada Vanguarda Paulista, gaveta encontrada pela imprensa da época para colocar a geração de músicos surgidos naquela década, que começaram a gravar seus discos de maneira independente, se apresentavam no Teatro Lira Paulistana, em Pinheiros, e reunia nomes como Arrigo Barnabé, e bandas como Premeditando o Breque e Grupo Rumo.

Desde 2009, quando Tulipa Ruiz arriscou seus primeiros shows, começou a compor e a pensar em seu disco, Luiz Chagas ganhou mais uma alcunha – a de pai da Tulipa e Gustavo Ruiz, este também músico. “As crianças foram crescendo, de repente começaram a tocar, e fizemos um conjunto, o Pochete Set, com o Gustavo na guitarra, a Tulipa cantava. Eu falava: ‘Este conjunto existe para espalhar o talento da estonteante Tulipa’. Você pode falar, ‘palavras proféticas’. O Pochete está meio parado e eu toco guitarra na banda dela. Inverteu o papel”, ri o músico.

> Assista à entrevista exclusiva de Luiz Chagas e Tulipa Ruiz ao SaraivaConteúdo

Depois dos primeiros shows de Tulipa, ainda com a formação do Pochete Set, a cantora resolveu assumir a carreira e Chagas perguntou quais músicas dele ela gostaria de interpretar. Foi informado que a filha tinha passado a compor, mas sua participação como guitarrista não foi menos importante. Assim como foram importantes os discos que o pai, jornalista cultural, colecionava e seguiram para o interior de Minas Gerais com a mãe e os filhos quando o casal se separou. Entre eles, Gal Costa, muito Caetano, Beatles, Stones, Johnny Mitchell, Zezé Motta e Baby Consuelo. Efêmera, produzido pelo irmão Gustavo e lançado em meados de 2010, arrebatou o público e a crítica e foi considerado um dos melhores discos do ano passado, ao apresentar a estonteante voz de Tulipa, que remete a de Gal tropicalista e psicodélica dos anos 1970, cheia de lirismo e groove. “A direção musical também é toda do Gustavo. Claro, tudo mundo dá pitaco, e eu mais ainda”, diz Chagas. E eles te respeitam? “Respeitam. Eles falam bem baixinho: ‘Abaixa a guitarra. Tem solo demais’”, antes de soltar uma risada.

Mas Luiz Chagas faz questão de ressaltar que seu trabalho não se resume hoje a acompanhar a filha, embora o faça com muito orgulho e propriedade. “Entre os melhores discos de 2010, além de Efêmera, tem também Pretobrás III, do Itamar Assumpção, que gravamos no ano passado”, o álbum foi incluído na excelente Caixa Preta, lançada em homenagem a Itamar, que reúne sua discografia composta dos dez trabalhos que o Nego Dito lançou em vida, além de mais um disco em sua homenagem.

“Tinha 50 músicas do Itamar, que ele deixou gravado com voz e violão, mas gravado em estúdio. A voz dele estava meio fraca, às vezes, pois ele já estava doente, pensava em regravar, mas não teve tempo. Mas já era um disco. Desse legado, pegaram 30 músicas e dividiram entre o Beto Villares, produtor, e o Paulo Lepetit, baixista do Isca de Polícia. Em Pretobrás II – Maldito vírgula, Villares convidou Elza Soares, Arnaldo Antunes e as Orquídeas Negras, cantoras que acompanhavam o Itamar, entre outros, para interpretar canções inéditas. Já Lepetit fez igual ao “Free as a bird”, dos Beatles, quando eles pegaram um trecho da música de John Lennon e colocaram baixo, bateria, voz – Paul McCartney fez a segunda parte. “A gente só não colocou voz, mas é um disco de inéditas do Itamar, com a banda dele”, acrescenta Chagas. O resultado é Pretobrás III – Devia ser proibido. “É um barato, as pessoas ouvem e ficam… ‘De quando é isso?’ Só que o Itamar morreu tem sete anos e as músicas têm muito mais tempo que isso”, completa ele, sobre o grande trabalho lançado, que junto com a Caixa Preta ajuda a jogar luz e a chamar a atenção para a obra de Assumpção, mais comentada do que realmente ouvida. Uma oportunidade para a nova geração conhecer esse artista peculiar e ao mesmo tempo tão importante para a música brasileira. Trabalho que começou com o lançamento dos Songbooks com todas as músicas autorais de Itamar, editado por Chagas e sua mulher, Clara Bastos. “É uma parte da manutenção da memória do Itamar. Conheço gente que vem de fora, ouve as músicas dele e fica maravilhado. Porque ele virou atemporal, é um clássico.”

E onde é possível enxergar Itamar Assumpção nessa nova geração de músicos? “Ele e Arrigo Barnabé ficaram famosos como a Vanguarda Paulista, algo que nunca existiu. É uma criação da mídia, que tem que batizar. Era um movimento de música independente. Eles lançaram a independência na música, das gravadoras, da indústria fonográfica. Que, por sinal, acabou indo para o túmulo, com a internet. Essas bandas de hoje têm a independência formal das gravadoras, mas sobre tudo a independência artística. Hoje se diz que nunca se viu tanta liberdade. Isso pintou com a chamada Vanguarda Paulista, era a bandeira. Não era só a criação por criar. Mas não nos sujeitávamos a o que o cara da gravadora queria, tocávamos o nosso som. É o que as pessoas fazem hoje. E como o Brasil é um celeiro de talentos, só pode pintar gente legal,” finaliza Chagas.

> Leia Mais sobre a Caixa Preta de Itamar Assumpção no SaraivaConteúdo
 

 

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