Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.08.2013 29.08.2013

“A graça da coisa é ter consciência de que nada é tão dramático assim”

Por Andréia Martins
 
“A vida não é um bolinho, quem não sabe? Mas é impressionante a quantidade de pessoas que consegue complicá-la ainda mais”. Com essa frase, a escritora gaúcha Martha Medeiros abre a crônica “Afogando-se num pires”, umas das que compõem seu novo livro, A Graça da Coisa (LP&M). No título, os editores avisam: troque a palavra “graça” por “vida” e tudo fará sentido.
Mas voltando à frase que abre este texto, embora não tenha uma temática definida, as crônicas escolhidas têm algo em comum: a ideia de que é preciso ter mais humor e leveza para não complicarmos o que já é complicado demais no dia a dia.
Martha descarta a visão de bem resolvida que muitos acham que ela tem pela forma como fala de relacionamentos e situações cotidianas, entre outros temas. “Me atrapalho como todo mundo”, revela ela ao SaraivaConteúdo. Mas pelo menos no quesito desapego, ela já está alguns passos à frente. Leia a entrevista.
Como você selecionou as crônicas do novo livro, A Graça da Coisa?
Martha. Reli todo o material publicado em jornal desde 2011 até junho de 2013, e escolhi as crônicas que me pareceram menos datadas e as que gosto mais. Não chega a ser um livro temático, é apenas a reunião da produção dos últimos dois anos. 
Você fala muito da necessidade do humor, de deixar as coisas com leveza e desapegar. Essa seria a graça da “coisa”? Ver as coisas com humor é algo que se aprende?
Martha. Ver a graça da coisa é extrair alguma coisa divertida das encrencas, é ter a consciência de que nada é tão dramático assim, afinal, vamos morrer logo ali adiante, por que se estressar absurdamente? Claro que todos nós sofremos, nos angustiamos, isso é absolutamente normal, mas tem gente que complica a vida de uma forma pouco inteligente. Muitos acreditam que vida profunda é sinônimo de vida difícil. Bobagem. Quanto mais consistência intelectual e emocional você tem, mais buscará a simplificação, ou seja, é justamente o oposto. Pessoas que só veem “a desgraça da coisa” fazem do seu negativismo uma forma de preencher seu vazio.
É comum encontrar frases suas soltas pela internet. Existe alguma frase que você já criou e que pretende guardar para sempre?
Martha. Essas frases encontradas na internet (supondo que sejam mesmo minhas, pois não participo de nenhuma rede social…) são retiradas de crônicas, de livros, de poemas. Ficam  descontextualizadas. Às vezes funcionam deslocadas, às vezes não. Nunca criei uma frase de efeito, nunca escrevi uma frase solta, elas surgem durante a escrita, fazem parte de uma reflexão maior. Não me considero uma grande frasista, então não há nenhuma que eu cultive em especial. 
Nesses textos seus espalhados pela rede há muitos casos de confusões com a autoria. Qual desses casos foi o mais curioso para você?
Martha. Sem dúvida, o texto “A morte devagar”, que circula na rede como “Morre lentamente”, atribuída ao Neruda. Já aconteceram coisas impensáveis, como uma fundação religiosa ter publicado o texto em livro atribuindo-o ao poeta chileno (o livro acabou sendo recolhido). E esse mesmo texto foi lido no plenário italiano e gerou a renúncia de um parlamentar.  Só no dia seguinte é que os jornais publicaram que o texto não era do Neruda, e sim meu. É impressionante o alcance da internet e as possibilidades de adulterações que ela gera. O leitor precisa ficar vigilante.
 
Capa do livro A Graça da Coisa

Você escreve sobre situações e emoções que todo mundo vive, o que gera uma aproximação maior com o leitor. Eles te cobram conselhos?

Martha. Alguns pedem conselhos, mas procuro evitar me intrometer na vida pessoal dos leitores, seria leviandade minha. Se é um conselho que envolve literatura, aí até posso dar alguns palpites, mas quando é algo mais íntimo, sugiro que a pessoa procure ajuda profissional. Não tenho respostas para os dilemas dos outros, mal lido com os meus… É comum pensarem que um colunista é uma pessoa super bem resolvida, mas não é assim. Estamos todos tateando no escuro a fim de abrir caminhos, provocar reflexões, descobrir as próprias respostas. Fico honrada por me levarem tão a sério, mas não sou nenhum guru. Me atrapalho como todo mundo.
Quais questões andam te incomodando depois dos 50?
Martha. Na verdade, aos fazer 50 passei a me incomodar menos comigo mesma e com as pessoas ao redor, dei uma relaxada, mas isso na esfera particular. Quando penso na ineficiência dos governos, na burocracia, em como é difícil emplacar projetos, evoluir, fazer o certo, aí realmente o desânimo toma conta de mim. Não há como ser condescendente com a corrupção, por exemplo. E continuando a impunidade, esse problema jamais será solucionado.
Como escritora, qual a graça da crônica para você? Seu ponto de partida foi a poesia. Publicar poemas ainda está nos planos?
Martha. A graça da crônica é o retorno imediato, coisa que nenhum outro gênero literário possibilita. O texto sai no jornal e você passa o dia recebendo comentários por e-mail, é uma troca muito dinâmica com o leitor. Quanto aos poemas, não estão fora de cogitação, até tenho alguns inéditos, porém não estou suficientemente confiante neles, acho que perdi um pouquinho a mão. Poema não se faz com prazo de entrega e com a urgência da crônica – é preciso mais dedicação, introspecção. É outro timing. Mas um dia voltarei a publicá-los. 
Você consegue se desapegar dos seus textos quando eles são adaptados para o cinema e para o teatro?
Martha. Me desapego do texto original com a intenção de deixar as coisas fluírem e a equipe trabalhar com liberdade… O que não significa que eu perca meu senso crítico. Sentada em meio à plateia, sei exatamente o que gosto e o que não, converso muito com meus botões sobre o que estou vendo, sobre o que faria diferente, etc. Mas compreendo que, no momento em que autorizei a adaptação, o texto deixa de ser apenas meu, ele sofre influência do adaptador, do diretor, do elenco… Vira outra coisa. É assim que é. O autor que se estressar demais com as mudanças vai sofrer e fará a equipe sofrer – não vale a pena. A ideia é todos se divertirem.
 
Lançamento do livro A Graça da Coisa, de Martha Medeiros, L&PM Editores
Quando: 28/9
Onde: Moinhos Shopping – R. Olavo Barreto Viana, 36 – Moinhos de Vento -Porto Alegre – RS
Horário: 17h às 19h
 
Depois do best-seller Feliz por Nada e dos de relatos de viagens Um Lugar na Janela, Martha lança A Graça da Coisa: uma deliciosa coletânea de 80 textos que abordam os temas mais caros à autora, como o amor, o cinema e as relações familiares. Reverenciando a tradição da crônica brasileira, a escritora fala cara a cara com o leitor, mostrando que não estamos sozinhos nas nossas neuroses diárias.

 
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