Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.09.2012 26.09.2012

A geração subzero de Felipe Pena: literatura, crítica e sucesso

Por Laíssa Barros 
 
Jornalista, professor e autor de livros na área de comunicação, Felipe Pena reuniu em Geração Subzero vinte autores brasileiros aclamados pelos leitores e esquecidos pela crítica. Thalita Rebouças, André Vianco, Raphael Draccon, Eduardo Spohr, entre outros, apresentam seus contos na coletânea que gerou polêmica ao alfinetar a crítica brasileira.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Felipe Pena expôs suas ideias sobre a literatura e a crítica do País, além de defender Geração Subzero como um grito dos autores que vedem milhões de livros, mas estão fora dos eventos literários e dos olhares dos críticos famosos.
Essa coletânea surgiu de quais perguntas e conclusões suas como autor, professor e leitor?
Felipe Pena. A coletânea surgiu da necessidade de ironizar a empáfia de alguns críticos e escritores. A opção pela ironia sempre esteve presente nos meus romances. Minhas histórias ironizam a cultura erudita, o mundo acadêmico e a comunidade literária, que são as próprias áreas por onde eu circulo. Acredito que a ironia seja o melhor instrumento para desarmar a prepotência do mundo literário e do mundo acadêmico. E foi o que fiz com o Geração Subzero, que é uma ironia com a coletânea Geração 00, do Nelson de Oliveira, que teve a pretensão de apresentar os melhores autores brasileiros surgidos nos anos 2000. Uma pretensão absurda. Obviamente, a ironia serviu para provocar essa suposta crítica intelectualizada.
Qual a sua análise sobre o atual momento da literatura brasileira? Quais são os pontos interessantes e os desinteressantes da nova geração de escritores brasileiros?
Felipe Pena. A maior parte dos autores gosta de trabalhar no registro da metalinguagem, do hermetismo. Eles não querem ser lidos, querem ser estudados pela academia. Querem agradar a uma crítica universitária cuja atribuição de valor é apenas para a prosa que se aproxima da elipse, da referência intelectualizada, da erudição construída e da receita caseira que apregoa que a literatura é para poucos. E os poucos são eles próprios. É uma visão elitista. Essa crítica acadêmica é paneleira, ou seja, vive numa panela de autores e os incentiva a escrever do jeito que acha correto. E os próprios escritores se resenham mutuamente. É constrangedor.
O que você acha e como contestaria os críticos que dizem que os leitores das obras dos autores de sua coletânea “só buscam uma história”?
Felipe Pena. Em literatura, entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. É um conceito a que se deve atribuir valor artístico. A narrativa com esse valor é reconhecida pelo público que se preocupa com o prazer da leitura, com a relação afetiva com o livro, com as reflexões que uma história bem contada pode provocar e com a socialização dessas histórias e dessas reflexões. Sim, a socialização, pois aquele que tem prazer na leitura sempre recomenda o livro ao amigo mais próximo.
A qualidade da crítica interfere na literatura brasileira?
Felipe Pena. Com raras e boas exceções (e é preciso enaltecê-las), não acho que temos uma crítica literária de verdade no Brasil. Nem mesmo a tal crítica universitária paneleira que menciono, já que, na maioria das vezes, ela opera no dogma, no preconceito. Há, no máximo, resenhistas pautados por alguns grupos de influência. E esses grupos determinaram que só têm valor os escritores cuja prosa se aproxima da elipse, da referência intelectualizada, da erudição construída, do beneplácito da academia, da receita caseira que apregoa que a literatura é para poucos. E os poucos são eles próprios. Daí ignorarem os autores que não se encaixam nessa característica. Essa é uma visão tipicamente elitista. E afasta os leitores.
                                                                                                                                                                                      Crédito: Tomás Rangel

André Vianco, Thalita Rebouças, Raphael Draccon e Eduardo Spohr

 
Por que escolher os “gêneros menosprezados” com temas como fantasia e ficção cientifica se também existem escritores congelados pela crítica que escrevem gêneros não menosprezados?
Felipe Pena. Porque esses gêneros são tradicionalmente menosprezados. Mas é claro que corri um risco ao fazer essa opção. Entretanto, não há produção artística sem risco. Não podemos é ficar imobilizados pelas asas do cânone estabelecido. Eu transito nas duas margens: escrevo ficção e estou na academia (sou professor da UFF e fiz o doutorado em literatura). Então, as reações vêm dos dois lados. Mas não estou aqui para agradar a ninguém. Falo o que penso, é natural que haja reações. Minha primeira e única obrigação é com a lealdade de pensamento. Portanto, o risco é minha única opção.
Sem dúvida o investimento na linguagem da obra é extremamente importante. Os críticos dizem que os autores da coletânea possuem uma ingenuidade linguística e narrativa. É possível escrever bem sem esbarrar no experimentalismo linguístico?
Felipe Pena. Não estou preocupado com esses críticos paneleiros que confundem ingenuidade com simplicidade. Muito menos com os juízos de valor. Logo na orelha do livro deixo claro que os autores e contos não têm a pretensão de figurar entre os melhores de sua geração ou estilo. Aliás, as classificações de gêneros são sempre complicadas. Mas um dos critérios de seleção foi que cada autor tivesse pelo menos uma obra de ficção publicada em “gêneros” tradicionalmente menosprezados pela crítica.
Por que você escolheu brigar com o que você chama, na introdução do Geração Subzero, de pensamento dominante? Estar diretamente ligado ao mundo acadêmico fez você pensar em questões que não pensaria se não estivesse nesse ambiente e/ou te deu currículo para poder encarar essa “briga”? A academia ainda tem o poder e o prestígio de antes?
Felipe Pena. Não quero brigar com ninguém. Só estou apontando uma realidade. A crítica acadêmica paneleira acha que um livro só é bom se for difícil de ler. Mas isso pode ser explicado pela lógica do poder, pelo seu componente microfísico, como nos ensinou Michel Foucault. A Academia é um inverno perene. São os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A própria linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura, claro.
 
Não é perigoso incentivar só a leitura de textos fáceis? Isso não acaba contribuindo para o empobrecimento do vocabulário dos leitores e desesperançando leituras de textos clássicos e mais complicados, porém importantíssimos? 
Felipe Pena. Claro que não. É exatamente o contrário. Os festivais literários, as premiações, a crítica universitária e uma parte da imprensa dão a impressão de que só a literatura hermética tem valor. E isso não é verdadeiro. A escrita simples é a laboriosa tradução da complexidade. Escrever fácil é muito difícil. O problema é que o ambiente já está contaminado. Você acha que o júri do Jabuti vai premiar um autor da Geração Subzero? Ou que o curador da FLIP vai formar uma mesa na tenda principal com escritores populares? Nunca. No dia que isso acontecer, eu desfilo de cueca pelas calçadas de pedra em Paraty. Aliás, isso não seria incoerente, já que a FLIP é a Fashion Week dos escritores. E não estou fazendo uma crítica, que fique bem claro. Eu frequento o festival desde a sua primeira edição. Ele é o mais importante do país, o que atrai mais atenção, o que legitima a produção nacional. Deveria olhar com mais atenção para os autores que formam leitores.
Qual é a importância da literatura na construção de um ser? A preocupação com a formação dos jovens leitores está sendo colocada de lado?
Felipe Pena. A preocupação com a formação de leitores é fundamental para a cidadania. Mas é preciso combater o elitismo. Ao contrário do que apregoaram certos apocalípticos, a popularização da tecnologia valorizou a escrita e, portanto, aumentou o interesse pelo texto, pela palavra. Há leitores neste país, mas é preciso respeitá-los. É preciso produzir narrativas que não sejam meros exercícios de egocentrismo e/ou missivas elípticas endereçadas aos pares. Escrevemos para sermos lidos, o que deveria ser óbvio, mas parece um pecado mortal no sacro universo de nossa literatura. Precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. Alguns críticos universitários defendem que a conceituação da Geração Subzero é anacrônica, com o argumento de que ela se apoia em um falso dilema entre narrativa e experimentação. E, segundo esses professores, “a novidade mais relevante da literatura brasileira refere-se precisamente à superação desse falso dilema”. Ora, a premissa em si já traz uma contradição: afinal, se o dilema é falso, como a sua superação poderia ser relevante? O fato, no entanto, é que o dilema é verdadeiro e ainda não foi superado. Basta observar a produção literária contemporânea para perceber que boa parte dos autores incensados pela crítica universitária continua refém do experimentalismo, sem a preocupação de construir personagens e tensões.
 
Veja a lista de autores da coletânea:
 
Eduardo Spohr, Thalita Rebouças, André Vianco, Juva Batella, Pedro Drummond, Luiz Bras, Luis Eduardo Matta, Eric Novello, Sérgio Pereira Couto, Estevão Ribeiro, Raphael Draccon, Delfin, Ana Cristina Rodrigues, Júlio Rocha, Helena Gomes, Carolina Munhóz, Vera Carvalho Assumpção, Martha Argel, Janda Montenegro e Cirilo S. Lemos.
 
 
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