Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.04.2014 30.04.2014

A força do sertanejo nas páginas literárias

Por Felipe Candido
 
“O sertanejo é antes de tudo, um forte”. A famosa frase de Euclides da Cunha, presente em seu clássico livro Os Sertões ajudou a cravar no imaginário do leitor brasileiro a figura do homem do sertão como um forte, que sobrevive bravamente às agruras da terra. Mas Euclides da Cunha não foi o único que se debruçou sobre tão ricos personagens para desenvolver seus textos. Antes e depois dele, muitos autores traçaram variados perfis sobre o homem do campo.
No dia 03 de maio, data em que celebramos a figura do sertanejo no Brasil, o SaraivaConteúdo acompanha a trajetória que esse personagem tão rico e tão profundo fez ao longo da história de nossa literatura.
A IMAGEM IDEALIZADA DO BRASIL
O primeiro grande autor que encontrou o sertanejo como figura para representar uma das diversas identidades brasileiras mais genuínas foi José de Alencar. Dentro de um amplo projeto que buscava entender o Brasil, o autor buscou personagens que representassem genuinamente nossas raízes.
Além dos conhecidos trabalhos indianistas do autor, José de Alencar também escreveu O Sertanejo, livro que conta a história de Arnaldo em meio a terras sertanejas. Por mais que o desejo de Alencar fosse representar o Brasil em sua essência, as referências externas acabaram por pautar o caminho seguido em sua literatura.
“Isso estava muito de acordo com a tradição romântica européia da época, cujas grandes influências eram autores como Alexandre Dumas e Walter Scott. Assim, através dessas referências da cavalaria medieval, Alencar buscava representar os heróis que seriam genuinamente brasileiros”, afirma João Teixeira, pesquisador especialista em literatura brasileira.
A INGENUIDADE DO ROCEIRO
Um dos principais personagens de nossa literatura que deu voz ao homem simples do campo foi Jeca Tatu. Criado por Monteiro Lobato, o personagem era um tipo, mas imbuído também de certa crítica social.
“O Jeca era um personagem satírico. Era um roceiro típico do interior de São Paulo, ingênuo, passivo de doenças como a febre amarela ou o bicho de pé. Era um momento anterior ao Modernismo de 22, e Monteiro Lobato estava se aproveitando de um tipo nacional para fazer crítica política ao atraso de nosso país”, afirma Teixeira. Jeca Tatu também foi imortalizado no cinema, sendo o personagem principal de Mazzaropi, que traduziu para as telas as aventuras do doce caipira.
A REALIDADE SALTA À FICÇÃO
Se a voz dos sertanejos encontrou a ficção para ter destaque, um dos principais livros que traz esse personagem não se trata de uma história contada, mas sim de uma história vivida. Os Sertões, de Euclides da Cunha, teve origem em uma reportagem que o autor escreveu para o jornal O Estado de São Paulo, em que narrou os acontecimentos da Guerra de Canudos, ocorrida no final do século XIX, entre o Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, na então comunidade de Canudos, no sertão baiano.
No livro, uma parte é dedicada exclusivamente à figura do sertanejo. Com o título “O Homem”, o capítulo apresenta um verdadeiro estudo sócio-político dessa figura, tentando compreender sua origem e suas motivações. “Nesse caso, Euclides da Cunha não estava trabalhando na construção de um personagem que representasse toda uma condição. Mas sim estava falando sobre a população sertaneja em geral”, comenta João.
 
Mazzaropi caracterizado como Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato
O RETRATO DE UM BRASIL PROFUNDO
Já nos anos de 1930, com o advento da chamada literatura regionalista, diversos autores também encontraram no sertanejo o personagem perfeito para entender o país para além de suas capitais.
“Foi um momento em que o romance nacional passou a se preocupar com as questões sociais mais urgentes e atuais de nosso país, e em alguns casos até mesmo a ser combativo; um meio de propaganda política e ideológica, como os livros do jovem Jorge Amado”, afirma João Teixeira.
Nesse período, grandes textos tiveram destaque por demonstrar também a precariedade da vida do campo no Brasil. Graciliano Ramos foi um dos principais autores desse período. Seu exemplo mais famoso é Fabiano, protagonista de Vidas Secas, que ao lado de sua família foge da seca do sertão nordestino.
Graciliano também se destaca por, pela primeira vez na literatura, criar personagens que extrapolavam o tipo, e ganhavam densidade psicológica e política. “O caso de Graciliano é exemplar, pois ele soube criar verdadeiras obras-primas do nosso romance escrevendo obras que juntavam a preocupação social com uma densidade psicológica muito rica em seus personagens”, revela Teixeira.
O SERTÃO MÍTICO
Se na obra de Graciliano Ramos o sertanejo ganha aspectos sociais e psicológicos, outro importante escritor dará ainda novos contornos e nuances para esse personagem. Guimarães Rosa transforma o sertão no mundo todo. Segundo João Teixeira, “o sertão de Rosa não é apenas um registro geográfico e social, mas um espaço de confronto entre temas e forças arquetípicas. Terreno de intensa experimentação linguística na prosa do escritor. É praticamente um espaço à parte”.
Nesse outro universo, o sertanejo também se torna outro. Além das causas sociais, das intempéries do sertão, o campo psicológico sobressalta nos enredos. Dentro de um novo contexto histórico, em que o campo começava a se modernizar e a figura real do sertanejo perdia espaço, Guimarães criou um dos mais importantes personagens da história da literatura brasileira. Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, é porta voz desse Brasil que está definhando – um jagunço sem função, buscando seu espaço, cheio de conflitos internos e universais.
 
A figura do caipira representado nas artes plásticas por Almeida Júnior
Ilustração criada por Aldemir Martins para o livro Vidas Secas de Graciliano Ramos
Os dramas apresentados no livro são de Riobaldo, um sertanejo, mas podem ser comuns a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. “Nesse romance o autor faz uma espécie de resumo da história do romance na literatura, com referências que vão desde os romances de cavalaria medievais até o mito fáustico. São quase 600 páginas de uma única longa fala desse personagem, que nos conta pessoalmente a sua história”, relata Teixeira.
A VOZ FEMININA DO SERTÃO
Se durante décadas a voz sertaneja na literatura era masculina, tanto nos personagens quanto nos escritores, uma grande protagonista surge para reverter esse quadro. E Macabéa, a heroína em questão, nasceu das mãos de uma das mais importantes escritoras do Brasil. Em A Hora da Estrela, Clarice Lispector fala da nordestina, que sai de seu local de origem e tenta uma nova vida na cidade grande, onde é marginalizada por todos que estão à sua volta, até os mais próximos.
E aqui, fica explícita a violência (física e social) sofrida por esse tipo de personagem, talvez a mais contundente vivida pelos sertanejos da literatura. E a obra de Clarice apresenta um dado que dialoga com toda a tradição de personagens sertanejos que vieram antes de Macabéa: “quem relata a vida de Macabéa é outro personagem, Rodrigo S.M., um autor que está escrevendo a história, e que nos relata as suas dificuldades, como homem de classe média, em escrever esse relato. Dessa maneira Clarice problematiza de vez a questão do intelectual que escreve à distância, e que não tem nenhuma relação nem familiaridade com o universo nem as condições de vida de um personagem como esse”, relata o pesquisador.
Com esse histórico, o personagem sertanejo na literatura serve de porta voz para um Brasil distante de muitos, mas muito latente para uma grande parte de nossa população. Ele é um retrato ficcional, por vezes mítico, mas muito revelador das entranhas do país.
“Mais do que um retrato fiel sobre a vida do homem rural brasileiro, esses personagens transmitem a visão que os escritores tinham sobre esse homem, assim como a valoração que a literatura, e de certa maneira o país, tinha sobre a vida no campo”, finaliza João Teixeira.
 
Autores renomados que retrataram o sertão em suas obras (Clarice Lispector, Guimarães Rosa, José de Alencar e Monteiro Lobato)
 
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