Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 07.02.2013 07.02.2013

A folia do Carnaval

Por Andréia Martins*
 
Se tem uma festa que a grande maioria dos brasileiros não abre mão, é o Carnaval. Aproveitando o mês da folia, o Almanaque bateu um papo com o historiador André Diniz, autor de livros como Almanaque do Carnaval e Almanaque do Samba, revivendo um pouco da história do Carnaval.
 
ALMANAQUE: Existe uma data ou um evento que marca oficialmente o nascimento do Carnaval?
 
ANDRÉ DINIZ: Por mais curioso que possa parecer, o Carnaval começou com a Igreja Católica, quando definiu o período da Quaresma, com início na quarta-feira de Cinzas, que acontece 47 dias antes do domingo de Páscoa. A partir daí, estava instituído no calendário católico o adeus à carne, ou Carnaval.
 
A: Quando aconteceu o primeiro Carnaval brasileiro?
AD: No Brasil, a primeira manifestação carnavalesca foi trazida pelos portugueses: o entrudo. Era uma brincadeira em que os foliões molhavam-se uns aos outros. Nas ruas, valia tudo. A receita de alguns foliões era de amargar: casca de ovo, baldes e gamelas cheias de água, farinha, pó de sapato, tremoços, urina e pimenta.
 
A: Dos tempos do baile de máscaras até hoje, muitas coisas mudaram, outras foram adicionadas à folia. Qual foi a principal mudança?
AD: Uma mudança importante foi em 1855, quando a sociedade carnavalesca Congresso das Sumidades Carnavalescas, que tinha entre os seus membros o romancista José de Alencar, colocou pela primeira vez o “bloco” na rua de uma forma organizada. As sociedades e os ranchos carnavalescos foram os principais agrupamentos que influenciaram o surgimento das escolas de samba.
 
A: Qual foi a era de ouro dos tradicionais Bailes de Carnaval? O que caracterizava esses bailes?
AD: Na metade do século 19, começaram no Brasil os primeiros bailes de máscara à italiana, à moda do francês. Esses bailes eram realizados em clubes, hotéis e nas sedes das grandes sociedades. Tocava-se de tudo: polcas, valsas, quadrilhas, mazurcas e até trecho de óperas. As fantasias mais utilizadas eram de dominó, pierrôs, titis, chicards. A partir da década de 1920, marchinhas como “A baratinha” (Mário Rabelo), “Pé de anjo” (Sinhô), “Ai, amor” (Freire Júnior) e “Pois não” (Eduardo Souto e Filomeno Ribeiro) invadiram os salões. As fantasias eram as mais variadas: índio, melindrosa, diabinho e marinheiro. O compositor João Roberto Kelly foi o último grande nome desse período de ouro dos bailes e das marchinhas. Hoje em dia, os concursos de marchinhas, capitaneados pela Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, tentam reviver um pouco desse clima de outrora.
 
André Diniz
A: Se fosse para destacar uma década na história do Carnaval, qual seria e por quê?
 
AD: Poderíamos destacar vários momentos, mas para escolher um só, vou puxar a brasa para as escolas de samba. O período vai de 1932 até 1942, quando aconteceu o primeiro desfile das escolas de samba (1932), a formação e consolidação das agremiações, o instrumental delas, os primeiros sambas de enredo, os enredos desenvolvidos plasticamente, a consolidação das alegorias, alas e critérios de julgamento. Foi definida a estrutura do Carnaval que conhecemos hoje no sambódromo.
 
A: O Carnaval é uma festa que não é exclusiva de um gueto ou de uma determinada classe social. Ao longo da história, sempre foi assim?
 
AD: É e não é. Desde o jogo do entrudo, tínhamos o que acontecia nas ruas e nas casas das famílias mais abastadas. Falando de rua, o povo não participava do desfile das grandes sociedades, quando muito entrava na banda de música que acompanhava o cortejo. Os blocos e os cordões eram manifestações de caráter eminentemente popular.
Os ranchos, que começaram ligados ao pessoal de bairros como Saúde e Estácio, no Rio de Janeiro, com o passar do tempo foram entrando na classe média de bairros como Catete, Glória e Laranjeiras. A escola de samba é outro exemplo. Com o tempo, os principais destaques dessas agremiações vinham diretamente da classe média carioca. Nesse aspecto, admiro o Carnaval de rua do Rio de Janeiro, Recife e Olinda.
Gosto sempre de falar: o Carnaval é reinvenção de espaços, subversões de ordens, músicas brincalhonas com o cotidiano do país.
 
A: No Brasil, a folia ainda é muito ligada às raízes e manifestações culturais da região, ou só à diversão?
AD: Do que conheço, de certa forma, a maneira de brincar, pular e sambar no Carnaval está ligada às características de cada região. Quem não pensa em Pernambuco ao ouvir um frevo? Os tambores do axé trazem a baianidade da cor! Samba e marchinha são a identidade do Rio de Janeiro.
 
A: Da marchinha, passando pelo samba, e até o axé, o que a música pode nos dizer sobre o Carnaval?
AD: A música sempre fez parte do Carnaval. Mas só depois da década de vinte do século passado é que o Carnaval teve seus gêneros específicos: samba, frevo, marchinhas e, posteriormente, o axé. Antes se tocava de tudo
na festa do Momo.
 
A: Quais são os personagens mais antigos do Carnaval que continuam ainda vivos na memória dos foliões?
AD: Existe um samba chamado “Anjo da Velha Guarda” (Aldir Blanc e Moacyr Luz), que, em determinado trecho, diz: “O samba é tudo que eu sei \ E Momo é o único rei que amei”. O personagem do Carnaval é o Rei Momo. É o povo na rua, fantasiado nos blocos, escolas de samba, nos bailes, atrás do trio elétrico e com a sombrinha na mão, dançando no passo do frevo.
 
A: Para você, qual é a época de ouro do Carnaval?
AD: Não existe uma época melhor do que a outra quando o tema é Carnaval. Isso está na cabeça e no pé do folião. O melhor Carnaval para a Dona Neuma da Mangueira não é o mesmo que o do Candeia da Portela, que não é o mesmo do Carnavalesco Fernando Pamplona. E por aí vai! O mesmo acontece com o frevo, a marchinha e o axé music. Enquanto o folião ainda estiver bom da cabeça, do fígado e do pé, o Carnaval de hoje vai ser sempre melhor do que aquele que passou.
 
Capa dos livros Almanaque do Carnaval e Almanaque do Samba
 
 
*Matéria originalmente publicada no Almanaque Saraiva, edição 81 – Fevereiro de 2013.
 
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