Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.12.2010 10.12.2010

A filosofia do alpiste nas palavras de um papagaio

Por Ramon Mello

O livro Prosa de papagaio, de Gabriela Guimaraes Gazzinelli, podeser classificado como uma rapsódia, considerando que se trata de uma “fantasia instrumentalque utiliza temas e processos de composição improvisada tirados de cantostradicionais ou populares”, segundo Aurélio Buarque de Hollanda. Há tambémaproximação ao gênero épico, tendo em vista que o livro narra, em fragmentados,a vida de um personagem que simboliza uma nação: um papagaio.

O enredo pode tornar-se confusoao leitor acostumado ao pacto de verossimilhança realista. É necessário aceitaro fato de a história ser narrada por um papagaio; e que os seres humanos,personagens da história, dialogam a ave de bico curvo e penas coloridas. Umafamília de intelectuais de Belo Horizonte (não poderia haver nome melhor paraum pássaro) – a poeta Silvia, o professor e tradutor Horácio, as gêmeas Laura eCelina a editora Sibila, o primo Marcos, o cão Cosme e o Papagaio Louro – estãoenvolvidos em uma relação que resulta numa forte reflexão filosófica sobrealteridade.

A verossimilhança em questão ésurrealista e deve ser lida de forma simbólica. O papaigaio-poeta que se colocade fora do contexto familiar, fazendo uma narrativa crítica pode ser entendidocomo expressão dessa alteridade. Ou seja, de se colocar no lugar do outro narelação interpessoal, conduzindo as diferenças à soma nas relaçõesinterpessoais. A autora dá sua visão humana ao pássaro, que por sua vez dá suavisão de pássaro ao seres humanos, nós leitores. Mais do que uma ode aopapagaiar dos Psitaciformes, esse livro traz um olhar ornitológico sobre oserros e acertos humanos.

Desde a chegada de Pero Vaz deCaminha, o papagaio foi associado a símbolo da nação (Terra Papagalis) eutilizado como metáfora ornitológica por escritores.  A referência à linguagem oral através dopagagaio do referido livro pode ser associada a uma manifestação da primeirafase modernista, quando os escritores se preocupavam em descobrir a identidadedo país e do brasileiro. No que se refere ao aspecto formal, a busca ocorrepela linguagem falada de um papagaio com pretensões intelectuais. “Os pássaros– e outros animais, por que não? – são dotados de sensibilidade estética.”

O tom inventivo da narrativa dialogacom o revolucionário texto de Mario de Andrade, Macunaíma, em que o narrador revela que ficou conhecendo a históriaatravés do papagaio ao qual Macunaíma havia relatado suas aventuras. O pagagaioLoro, com tendência a linguagem formal e excesso de preciosismo, tal qual umpoeta parnasiano, cita, durante a narrativa, algumas obras e autores que podemter – ou não – a escrita do romance: Machado de Assis (Brás Cubas), Homero (Íliadae Odisséia), Gonçalves Dias (Canção do Exílio)…

Prosa de papagaio se constrói como um livro dentro do livro, quemistura a honestidade intelectual e desejo de legitimidade da escritoramineira.  Com a tagarelice de seupássaro, Gabriela Guimaraes Gazzinelli nos lembra que “melhor se guarda o vôo de umpássaro / doque um pássaro sem vôos”, como canta o poeta cariocaAntonio Cicero.

> Assista à entrevista exclusiva de Gabriela Gazzinelli ao SaraivaConteúdo

 

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