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A festa de Zeca Pagodinho

Por Cintia Lopes
 
Zeca Pagodinho é, sem dúvida, a personificação de um de seus maiores sucessos. Seu lema indiscutivelmente é “deixa a vida me levar”. E a irreverência do artista pode ser comprovada também quando ele está fora dos palcos. Zeca é … Zeca e nada mais. Agora ainda mais empolgado com o lançamento do Sambabook Zeca Pagodinho, pelos selos Musickeria/Zeca Pagodiscos com distribuição da Universal, e do livro Zeca Pagodinho – Deixa o Samba Me Levar. Nesta terceira edição – as anteriores foram dedicadas a João Nogueira e Martinho da Vila -, Zeca conta que demonstrou surpresa ao saber que seria homenageado com o projeto. “Nunca pensei que fosse acontecer comigo. Nem tinha ideia. Ainda bem que eu estou vivo. Achava que era só para quem morria”, diz com uma sonora gargalhada.
Aos 55 anos e 30 de carreira, o cantor garante que não faz planos para o futuro e nem se envolve muito na elaboração de projetos profissionais. “Nunca sei de nada, nem apito nada. Não sei nem a roupa que vou usar no dia da gravação do show. Não me meto. Acho que quem está de fora avalia melhor. Eu não tenho cabeça pra pensar nisso, não”, explica com o seu jeitão peculiar.
Na gravação do DVD realizado em dezembro na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, Zeca recebeu um naipe de convidados ecléticos como Frejat, Dudu Nobre, passando por Martinho da Vila, Maria Rita, Emicida, entre outros. “Não tenho preconceito com nenhum estilo. Se tiver que participar de um disco de rock do Frejat, vou numa boa. Será que eu ia me dar bem?”, questiona, com uma risada.
A escolha dos parceiros também não passa pelo seu crivo. “Quando cheguei lá me falaram: Zeca, você vai gravar com fulano e ciclano. O Emicida, por exemplo, nunca tinha ouvido falar. E achei o cara bacana”, conta, antes de emendar. “Eu só vou pra festa, na hora da gravação. A Brahma colocou um freezer lotado de gelada pra rapaziada. E tem sempre uma galinha com quiabo também. Música é festa!”, comprova.
Qual foi o critério de escolha do repertório para o Sambabook?
Zeca Pagodinho. São músicas que eu compus com outros parceiros. Vejo a música sempre como festa. O que vale é o coração e o amor é o melhor tema sempre. Se a letra é boa, música bacana e o parceiro é bom… está valendo. O amor é sempre a melhor forma para tudo. É um estado de graça. E não acho um tema repetitivo não. Está aí o Arlindo Cruz que não me deixa mentir também. Mas se o cara não for criativo, aí fica chato sim.
O que você costuma escutar em casa nos momentos de folga?
Zeca Pagodinho. Nada. Colocaram um som moderno lá em casa, cheio de apetrechos, mas eu não sei ligar aquilo. Estou nesse apartamento há sete meses e desde então não ouço nada. Só escuto música quando vou à Xerém. Gosto de compositores desconhecidos, dos meus parceiros. Já tenho material para uns dois CDs e tenho três ”porradões”, que vão ser sucessos de cara. Mas vou esperar pra lançar.
Mas quando você sabia ligar o antigo aparelho… o que gostava de ouvir?
Zeca Pagodinho. João Nogueira, Donga, Jackson do Pandeiro, Mussum… A minha discoteca é essa. Da década de 20 pra cá. Essa galera que eu conheci e admiro muito. Coloco e fico lembrando da época do Cacique de Ramos, do Milton Manhães, que foi o cara que começou com essa onda de fazer o pagode… o autêntico pagode. Bom demais.
 
                                                                                                                                     Marcio Isensee e Sá
Zeca entre Roberta Sá e Emicida: diversidade
Como você explica manter o sucesso há 30 anos enquanto outros sambistas ficaram pelo caminho?
Zeca Pagodinho. Acho que foi a época que eu cheguei, sabe? Não sabia que seria tão bom. Encontrei a madrinha Beth Carvalho, que gravou o meu primeiro sucesso 'Camarão que Dorme a Onda Leva', depois a rapaziada do Cacique (de Ramos)… Eu não sou cria de escola de samba. Eu venho de bloco, de terreiro… Vim dos grupos dos “medianos” e era a turma conhecida como do “samba de inverno”. Quando chegava em novembro, a gente parava. O Luiz Carlos da Vila também fazia parte. É o samba que vem do choro e que depois se tornou o Partido Alto. Tenho vontade de abrir uma rádio só pra mim. Pra tocar samba o tempo todo.
Na Copa de 2002, a música Deixa a Vida Me Levar virou o hit da competição e se tornou o hino do pentacampeonato. O que você está preparando para esta Copa do Mundo no Brasil?
Zeca Pagodinho. Tenho um samba ótimo para a Copa, chamado 'Filhos de Vera Cruz', que fiz em parceria com o Altair Veloso e o Lauro Cesar Feital. Ele vai fazer parte de uma coletânea chamada Festa Brasil, com músicas temáticas de futebol e essa será a única inédita. Mas o Brasil precisa ser campeão de muitas coisas. Não só no futebol. E a música fala disso aí. Quando a gente canta “faz de letra o meu país” estamos falando de educação. Gosto da festa, de enfeitar a casa, coloco telão, mas não sou de acompanhar futebol não. Só sei do meu time lá de Xerém.
Você acha que o sucesso pode atrapalhar em determinados momentos?
Zeca Pagodinho. Às vezes atrapalha sim, outras não. Quando a minha filha pede para eu ir com ela ao Jardim zoológico, não posso ir, já falo logo. Ela fica chateada. Mas vou à feira, mercado… Vou sempre aos mesmos lugares, sabe? Aí já vira corriqueiro e ninguém fica em cima, já acostumam de me ver. Vou sempre à feira em Xerém. Até os caras que vendem CD pirata lá me conhecem. Eu passo e falo: olha eu aí, hein? E eles dizem: não tem você aqui não, padrinho. Eu também ajudo quem tem que ajudar. Mas tem gente que abusa. Pô, o cara chega e fala: “Zeca, preciso fazer uma reforma na minha casa…” Eu também preciso, camarada. (risos). Não é assim. Há um tempo atrás as pessoas pulavam o muro lá de casa em Xerém pra me mostrar música. Cada coisa horrível, que não servia nem pra cachorro cantar. Quando o cara chega e diz: Zeca fiz uma música… já falo logo: fica com ela pra você. (risos).
Você consegue agradar um público bem diversificado atingindo classes diferentes. Qual é o segredo?
Zeca Pagodinho. Gosto de todo mundo. Do bêbado da rua ao presidente. Não curto bajulação não. Meus filhos frequentam os shows das quadras de escola de samba e pagam ingresso. Não tem essa história de entrar de graça não. Ensino a ser normal. Teve um momento na minha vida que eu nem dormia direito. Acordava e a minha sala estava sempre cheia de gente. Parei com isso. Tenho a consciência de que o que eu faço sustenta a minha família e leva alegria pra muita gente. Até para os malucos, sabia? Um médico me disse uma vez que tinha um paciente que só topava fazer o tratamento ao som de 'Deixa a Vida Me Levar'. É uma responsabilidade grande.
 
"Já tenho material para uns dois CDs e tenho três ”porradões”, que vão ser sucessos de cara. Mas vou esperar pra lançar"
 
 
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