Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 03.12.2010 03.12.2010

A festa de Maria Gadú

Por Marcio Debellian
Fotos de Tomás Rangel

Revelada ao grande público no início de 2009, na minissérie Maysa, da Rede Globo, Mayra Corrêa Aygadoux, a Maria Gadú, lançou seu primeiro disco em junho desse mesmo ano pela Som Livre.  Nessa época, fizemos uma primeira entrevista com ela, que então morava com a mãe e Cuíca, um labrador de quatro meses, e fazia temporada no Posto 8, uma pequena casa em Ipanema, que já nem existe mais. 

De lá pra cá, o vídeo com o registro da nossa conversa tornou-se recordista no site SaraivaConteúdo, com 110 mil acessos, seu disco vendeu mais de 100 mil cópias, tendo ganhado o Prêmio Multishow de Melhor Álbum de 2010, e a cantora passou a lotar casas do porte do HSBC Brasil, onde gravou o CD e DVD Multishow ao vivo, que acaba de chegar às lojas. Suas músicas viraram presença constante nas novelas: a canção “”Shimbalaiê””, que compôs aos 10 anos de idade, estourou de vez ao ser incluída na trilha de Viver a vida, e, mais recentemente, atendendo a um pedido especial, gravou “”Rapte-me camaleoa””, canção que Caetano Veloso fez em homenagem a Regina Casé, para a novela Ti-ti-ti.

“”‘Shimbalaiê’ foi um susto. Veio do nada. Eu era muito pequenininha, mas sempre fui meio nerdzinha, lia muito. E, na verdade, não tem nada demais na música, eu estava descrevendo uma paisagem. Criança adora inventar palavra, né?””, explica Gadú.

> Assista à nova entrevista de Maria Gadú ao SaraivaConteúdo

Ela toca violão desde criança, mas antes veio o piano. “”Eu ouvia muita música clássica quando era pequena, era meio viciada, e ficava experimentando no piano. Só que eu queria sair tocando nos lugares onde eu estava, sair treinando. E aí o violão é mais móvel””, conta ela. Sua mãe a colocou em uma escola de iniciação artística, chamada Demia, em São Paulo, onde teve contato com todos os instrumentos – flauta, bateria, percussão, piano –, além de aprender a fabricar instrumentos. Foi lá onde realmente aprendeu a tocar violão. Tocava tudo o que ouvia junto com os discos. 

Aos 24 anos, comemorados em 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, Gadú mudou de casa e de cão. Foi morar sozinha, e Cuíca, o labrador, ficou com a mãe. Agora ela cuida de Cachaça, um pug endiabrado de apenas dois meses. O pescoço ficou repleto de patuás. “Foram me dando patuás, eu fui pondo, agora não cabe mais nada, é um embolado de coisas. Não posso cortar, porque senão arrumo briga com metade do céu.”

A vida ficou corrida, mas cheia de momentos que a fazem duvidar da própria realidade. “Claro que a vida mudou. A rotina virou pauleira. Desde que gravei o CD tem sido assim. No começo fazia muito trabalho de divulgação para a imprensa e agora tem esse lance de viajar, sair de casa, não voltar nunca. É estranho, fazia um show no Posto 8 para 200 pessoas e de repente tem 7 mil gritando meu nome. O que é isso? Que coisa maluca!”

Além da rotina de shows pelo Brasil e um público cada vez mais apaixonado, Gadú ganhou prestígio no meio musical, incluindo indicação para o Grammy Latino em duas categorias: Artista Revelação e Melhor Álbum de Cantor-Compositor. Foi convidada para gravar com Ana Carolina e Moska, ganhou elogios rasgados de Milton Nascimento – “Música, simpatia, tudo de bom. Canta lindamente e traz amigos para repartir o palco” – e agora se prepara para uma turnê com Caetano Veloso.

Apesar das novas amizades, Gadú fez questão de contar com os amigos de sempre na hora de dividir o palco e gravar o DVD – a banda é a mesma dos primeiros shows: Cesinha (bateria), Doga (percussão), Maycon (teclados), Gastão Villeroy (baixo) e Fernando Caneca (guitarra) –, e os extras trazem canções e participações, em sua maioria, desconhecidas do grande público: Toni Ferreira em “”Reflexo de nós””, Dani Black em “”Só sorriso””, Manuh em “”You got’a believe””, e uma participação família (Philippe Aygadoux, Bernard Aygadoux, Marc Aygadoux e Patrick Aygadoux) em “”I can see clearly now””. 

“Isso de gravar com os amigos é muito verdadeiro. São os meus mesmos amigos de hoje e de sempre. A gente é amigo, divide música, chora, ri e por que não dividir o palco? É um instante maravilhoso, um lugar em que todo mundo gosta de estar. Cantamos as músicas deles, para a galera conhecer. É gente que faz música porque gosta. Só presta para isso, só sabe fazer isso, vive para isso. Todo mundo é meio sozinho na vida, e a maravilha tem que ser dividida. Solidão nessas horas não é legal. Fizemos do modo como fazemos em casa, com intimidade e conforto, só que desta vez com um puta equipamento de som. Não podia privar os amigos disso.”

De participação “ilustre” no DVD, apenas Sandy, que chegou de forma inusitada. “Ela foi assistir o show com seus pais, o Xororó e a Noeli. Eu sou muito fã da Sandy e do Junior, e sempre canto “”Quando você passa”” nos shows. Aliás, eu acho a família toda muito doce, um berço de elegância e educação. Quando o show acabou, perguntei se era necessário regravar alguma coisa para o DVD e disseram que não, que eu poderia fazer o bis que quisesse, e o público começou a cantar essa canção. Achei lindo, porque a Sandy estava lá, vendo aquilo, uma galera puxando a música que ela gravou. No meio da música, ela, que já estava no backstage esperando para me cumprimentar no camarim, entrou no palco! Eu chorei! A Sandy aqui! Foi muito legal, não estava previsto. Fiquei muito feliz.”

Caetano viu Maria Gadú pela primeira vez em sua estreia no Cinemathèque (infelizmente, outra casa carioca que já não existe mais): “Achavam que era a nova Cássia Eller, mas a voz me lembrava mais a Marisa Monte. Fiquei encantado com a naturalidade, a presença, a fluência da musicalidade e da figura. Parecia um garotinho com voz de princesa”, definiu Caetano em recente entrevista ao jornal O Globo.

A turnê em parceria com Caetano surgiu depois que se apresentaram juntos em duas ocasiões: “Chamaram a gente para um show fechado, um duo em 4 músicas, e em seguida, fizemos a participação no Prêmio Multishow cantando “”Rapte-me camaleoa””. Depois veio a ideia de fazermos esta turnê. Vai ter show no Rio no dia seguinte ao meu aniversário, não tem presente melhor! Se eu morrer no dia seguinte ao show, podem ter certeza de que eu subo (ou desço, vai saber) feliz! Faremos canções que ele não tocava há muito tempo, que têm aquelas frases que eu tatuaria. O que é a letra de ‘O quereres’? Às vezes, olho para o lado, me vejo tocando com o Caetano e penso que estou louca!”

Pedimos então para que Gadú dê uma canja de O quereres no violão. Ela pede um favor: “Vocês podem fechar a porta da cozinha?” Pensamos ser por conta de algum possível barulho, mas não: a porta da cozinha de Gadú está toda escrita com a letra da música. É parte de seu processo para decorar a letra (e a casa, talvez). E como se diz que o melhor da festa sempre acontece na cozinha, o que se quer, com uma porta dessas, é que a festa de Gadú ainda vire muitas madrugadas.  Ah, bruta flor, bela flor!

> Assista à nova entrevista de Maria Gadú para o SaraivaConteúdo

> Maria Gadú canta “”O quereres”” de Caetano Veloso no vídeo exclusivo




> Relembre a primeira entrevista com a cantora para o SaraivaConteúdo, a mais assistida do site.

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