Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 28.05.2014 28.05.2014

A Farra do Circo Voador

Por Marcia Scapaticio
 
“O documentário coincide com o começo da minha carreira, um momento particular da minha vida profissional, quando comecei a filmar em vídeo. Trabalhava na TV Globo, pegava as câmeras emprestadas e ia para o Circo filmar. Lá participei de um movimento para pensar a vida de forma diferente. Pedi demissão e fui tentar uma nova vida, em todos os sentidos.” Essa é a explicação do cineasta Roberto Berliner ao ser perguntado no que A Farra do Circo é diferente de outras produções audiovisuais de sua filmografia: a sua relação pessoal com o Circo Voador e os artistas que frequentavam o seu espaço.
 
Dirigido em parceria com o cineasta Pedro Bronz, o documentário consegue extrapolar os limites da tela e trazer o espírito de uma época próspera para a cultura brasileira, especialmente para a música e para o teatro.
 
RETRÔ E CONTEMPORÂNEO
 
A impressão é de estar mesmo em uma nave ou em um voo no delírio, como é mencionado no filme. Porém, as imagens retrô capturadas em VHS entre os anos de 1982 e 1986 contrastam com a atualidade do discurso rasgado em cima do palco do Circo Voador, que está em atividade até hoje, na Rua dos Arcos, na Lapa, bairro do Rio de Janeiro.
 
O material, apresentado de forma não linear e com uma narrativa que escapa do clichê documental, focou exatamente os anos que Berliner vivenciou intensamente sob a lona do Circo e, em sua opinião, o período artístico mais fértil do local.
 
“Acho que o mérito do filme está em mostrar a gente como éramos. Não queria gravar depoimentos e mostrar uma visão crítica de como vivemos aquilo e todas as questões que compunham o momento político e cultural”, justifica o cineasta, que não recorreu a depoimentos ou análises sobre a importância do local, usando apenas imagens de seu arquivo pessoal, valorizando o que tinha em mãos.
 
Regina Casé em cena de A Farra do Circo
 
FAZER ACONTECER
 
É nítida a intenção dos diretores em mostrar que o Circo não ficou só na teoria e no sonho, mas tornou-se ativo, fazendo o que poucos conseguiram. Berliner faz questão de dizer que o momento em que estamos se parece com o vivido por eles.
 
“Estávamos no final de uma ditatura e ninguém aguentava mais. O sistema estava esgotado. É uma maneira de se ver. Estamos em um momento propício para que mudanças aconteçam, mas nós quebramos paradigmas, mostramos que não era só reclamar, pois quem reclama já perdeu. A ideia era fazer”.
 
A turma do revolucionário grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone
 
REBELDES COM CAUSA
 
Criado por Perfeito Fortuna, o Circo Voador foi pioneiro em ter ações de projeto social que misturavam todas as classes – era só chegar. Na programação havia cursos de teatro, música, circo, além de um espaço livre para as bandas brasileiras se apresentarem.
 
Chega a ser emocionante ver trechos de shows dos Paralamas do Sucesso, Blitz, Barão Vermelho, Legião Urbana, Caetano Veloso e Gilberto Gil em cena que beira o surreal: enquanto Gil se apresenta, um dos malucos que frequentava o Circo fica pendurado na estrutura de metal do teto, enquanto o músico observa desconfiado.
 
Outra lembrança cultural importante é a turma do revolucionário grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, formado por Hamilton Vaz Pereira, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Nina de Pádua e Patricia Travassos.
 
Mais do que um bom documentário, quem assistir à Farra do Circo, que entra em cartaz nos cinemas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba nesta semana, irá ver uma parte importante da cena cultural do país, na qual a classe artística fazia e acontecia. “Espero que ao assistir ao filme as pessoas vejam que é possível mudar. Tá na hora de coisas novas acontecerem”, desafia Berliner.
 
 
 
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