Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 10.06.2013 10.06.2013

A evolução dos namoros

por André Bernardo*

No simpático Kate & Leopold, de James Mangold, o astro Hugh Jackman, o Wolverine de X-Men, dá vida a um aristocrata do século XIX que, graças a uma experiência científica, viaja no tempo e chega à Nova Iorque do século XXI. No presente, o duque conhece e se apaixona pela executiva Kate, interpretada por Meg Ryan. Como já era de esperar, as diferenças culturais rendem situações hilariantes.

Se, nos dias de hoje, um desavisado viajante do tempo resolvesse percorrer o caminho inverso ao de Leopold, também levaria um susto daqueles. Em apenas cem anos, muita coisa mudou. O flerte virou xaveco. Do portão da casa, o namoro migrou para a tela do computador. Lá, no chamado “mundo virtual”, cartas de amor cederam lugar para postagens em redes sociais. “A garantia de anonimato provoca o ‘efeito desinibidor’. Na internet, as pessoas tendem a dizer ou fazer coisas que jamais diriam ou fariam cara a cara. Livrar-se de interações sociais difíceis ou complicadas, por exemplo, tornou-se muito mais fácil graças à internet”, analisa a psicóloga Lídia Weber, da UFPR.

Anos 1900

No início do século XX, os casamentos de conveniência, aqueles arranjados entre os pais dos noivos, começaram a perder força. Os jovens passaram, então, a se conhecer em bailes, cafés, agremiações, confeitarias e piqueniques. Os que namoravam sério não tinham qualquer direito à privacidade. Só podiam trocar juras de amor eterno sob os olhares atentos dos pais da moça. Com violão em punho, os mais destemidos se arriscavam a fazer serenatas debaixo da janela de suas pretendentes.

PARA LER: A Parada da Ilusão, de João do Rio (1910)
PARA OUVIR: “Os Namorados da Lua”, de Chiquinha Gonzaga & Mário Pinheiro (1902)

Anos 1910

Os jovens estabeleceram um código quase imperceptível de sinais para flertar entre si. Entre os rapazes, dar uma baforada no charuto, limpar o suor da testa e coçar a ponta do nariz significava, respectivamente, desinteresse, expectativa e vigilância. Já as mulheres preferiam a linguagem das flores: rosa, lírio e tulipa, por exemplo, queriam dizer: “Temo, mas te espero”, “Começo a te amar” e “Declaro-me a ti!”. Só os homens podiam tomar a iniciativa.

PARA OUVIR: “Rosa”, de Pixinguinha & Otávio de Souza (1917)

Anos 1920

Para dar início ao namoro, os jovens recorriam à ajuda de uma alcoviteira, papel geralmente desempenhado por um membro da família (tia, prima ou madrinha, por exemplo), que servia de medianeira no relacionamento amoroso do casal. Ela fazia de tudo um pouco. Se a moça queria entregar uma carta de amor ao rapaz, chamava a alcoviteira. Se o rapaz queria marcar um encontro para tomar um sorvete ou assistir à matinê no cinema, tinha que fazer o mesmo.

PARA OUVIR: “Gosto que me Enrosco”, de Sinhô (1929)

Anos 1930

Se um rapaz se encantasse por uma moça, teria que pedir o consentimento dos pais dela para namorar. Se o consentimento fosse dado, os dois já podiam sair juntos. O rapaz, então, buscava a moça em casa e, depois, a levava de volta. Detalhe: os passeios deviam ser acompanhados por algum membro da família e só podiam durar até nove horas da noite. Depois disso, cada um para a sua casa. O primeiro contato sexual podia ser desastroso para o resto da vida de um casal.

PARA OUVIR: “Carinhoso”, de Pixinguinha & João de Barro (1937)
PARA ASSISTIR: Luzes da Cidade , de Charles Chaplin (1931)

Anos 1940

Os jovens passaram a namorar no portão de casa, onde eram ostensivamente vigiados pelos pais da moça. Nesta época, o namoro não ia muito além do beijo na mão. Beijo no rosto? Nem pensar! O tempo de namoro seguia padrões rígidos. Não podia demorar muito tempo para não levantar suspeitas sobre as intenções do rapaz e, também, para não comprometer a reputação da moça. Terminar um namoro era motivo de vergonha para a família da donzela, que ficava “desvalorizada” na praça.

PARA LER: Stela me Abriu a Porta, de Marques Rebelo (1942)
PARA OUVIR: “Atire a Primeira Pedra”, de Ataulfo Alves & Mário Lago (1944)
PARA ASSISTIR: Casablanca, de Michael Curtiz (1942)

Anos 1950

Do portão, o namoro migrou para o sofá da sala. Cinquenta anos depois, porém, a liberdade continuava vigiada. A família da donzela elegia um membro qualquer (geralmente a avó ou o irmão caçula) para “segurar vela” e impedir que o casal de namorados trocasse carícias por cima das roupas. Nesta época, as moças “mais dadas” já ganhavam apelidos pouco lisonjeiros dos rapazes como “vassourinha”, “maçaneta” ou “doidivanas”.

PARA LER: Amor, de Clarice Lispector (1960)
PARA OUVIR: “Minha Namorada”, de Vinícius de Moraes & Carlos Lyra (1960)
PARA ASSISTIR: A Dama e o Vagabundo , de Walt Disney (1955)

Anos 1960

A chegada da pílula anticoncepcional ao Brasil levou os namorados a acreditar que podiam manter relações sexuais sem se preocupar com as consequências. Em tempos de “Faça amor, não faça guerra” ou “É proibido proibir”, os jovens começaram a experimentar de tudo um pouco em festas, clubes e universidades. As moças que engravidavam, muitas vezes, eram obrigadas, pela própria família, a sair de casa e a se mudar de cidade.

PARA OUVIR: “Namoradinha de Um Amigo Meu”, de Roberto Carlos (1966)
PARA ASSISTIR: Love Story , de Arthur Hiller (1970)

Anos 1970

Os beijos tornaram-se mais demorados e as carícias, mais íntimas. Em contrapartida, os relacionamentos tornaram-se mais efêmeros. Ninguém mais parecia acreditar que um amor pudesse durar para sempre. A virgindade deixou de ser tabu entre os jovens. Alguns casais de namorados, ainda impedidos de transar pelos pais, recorriam a motéis. O livro O Segundo Sexo, escrito por Simone de Beauvoir, tornou-se referência para os movimentos feministas dos anos 1970.

PARA LER: História de Amor em Cartas , de Carlos Drummond de Andrade (1975)
PARA OUVIR: “João e Maria”, de Chico Buarque & Sivuca (1977)
PARA ASSISTIR: Grease – Nos Tempos da Brilhantina, de Randal Kleiser (1978)

Anos 1980

A descoberta do vírus da AIDS (e de outras Doenças Sexualmente Transmissíveis) obrigou rapazes e moças a repensarem seu comportamento sexual. Os jovens não podiam mais transar livremente. A “camisinha” passou a ser item obrigatório entre casais de namorados que pretendiam levar uma vida sexualmente ativa. Nesta década, o finlandês Jarkko Oikarinen criou o primeiro site de relacionamento: o antigo IRC (Internet Relay Chat). Sem querer, ele inventou o namoro virtual.

PARA LER: Emanuel , de Lygia Fagundes Telles (1981)
PARA OUVIR: “O Último Romântico”, de Lulu Santos (1984)
PARA ASSISTIR: Harry & Sally – Feitos Um para o Outro , de Rob Reiner (1989)

Anos 1990

Seja através de sites de relacionamento, seja através de salas de bate-papo, a internet estimulou encontros virtuais. No mundo real, os jovens passaram a conjugar o verbo “ficar”. Na balada, um único menino podia “ficar’ com várias garotas. Ou vice-versa. O objetivo parecia ser ficar com o maior número possível de parceiros numa mesma noite. Em vez de namorados, os jovens saem à procura de “ficantes”. Ou seja, de relacionamentos fugazes e sem compromisso.

PARA LER: Histórias de Gente e Anjos , de Lya Luft (2000)
PARA OUVIR: “A Namorada”, de Carlinhos Brown (1995)
PARA ASSISTIR: Mensagem para Você, de Nora Ephron (1998)

Anos 2000

Em vez de cartas de amor, os jovens passaram a escrever torpedos de amor. Pedir o telefone da garota mais bonita, por exemplo, caiu em desuso. A moda agora é: “Me passa o seu MSN?”. Segundo um estudo da Universidade de Cornell (EUA), 81% dos internautas costumam pregar mentiras virtuais. Eles, sobre a altura, e elas, o peso. Já a pesquisa Flertebook, promovida pelas agências Blue Id e New Vegas, revelou que 48,2% dos usuários do Facebook usam a rede social para… azarar.

PARA LER: Amor é Prosa, Sexo é Poesia, de Arnaldo Jabor (2003)
PARA OUVIR: “Já Sei Namorar”, de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown (2002)
PARA ASSISTIR: (500) Dias com Ela , de Marc Webber (2009)

Dias de hoje

GPS, aplicativos e redes sociais turbinaram a paquera virtual. Há serviços para todos os gostos: de sexo casual (“Pegava Fácil”) a relacionamentos “de fachada” (“Namoro Fake”). No mundo real, os jovens convenceram os pais a levar os respectivos parceiros para dormir em casa. Mas, para não virar bagunça, os pais estabeleceram algumas regras básicas de convivência, como não andar de pijama pela casa, nunca trancar a porta do quarto ou assaltar a geladeira à noite.

*Matéria originalmente publicada no Almanaque Saraiva – Edição de Junho de 2013

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