Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 15.01.2013 15.01.2013

A escritora Juliana Frank comenta sobre literatura, sexo e humor

Por Laíssa Barros 
 
Com o mercado editorial cheio de publicações eróticas e jovens escritores brasileiros ganhando reconhecimento e renovando o cenário literário do nosso país, Juliana Frank, 28 anos, se destaca nesses dois universos por conseguir misturar sexo, humor, profundidade e boa escrita.
 
Segundo Rinaldo de Fernandes, organizador da coletânea de contos eróticos 50 Versões de Amor e Prazer (Geração Editorial), que possui textos de Juliana, "atualmente um conjunto de livros que exploram o tema do erotismo vem sendo publicado, e com tanta oferta literária, é preciso ficar atento a representantes da literatura contemporânea, como Juliana Frank, que conseguem falar do tema com qualidade e força literária".
 
A escritora e roteirista, que mora em São Paulo, ficou conhecida após o sucesso de seu primeiro e único livro publicado até agora, Quenga de Plástico (7 Letras). No livro, a ex-atriz pornô Leysla Kedman narra com os maiores detalhes suas peripécias sexuais, sem medo e sem pudores. O estilo direto de narrar sem meias-palavras, o desprendimento e o tom de humor e ironia são caractéristicas que saltam aos olhos e revelam uma obra moderna, sem vergonha e com grande qualidade literária.
 
Quenga de Plástico mostra um domínio da autora a partir de uma escrita que não está coincidentemente em sintonia com o mercado, mas que tem o objetivo de colocar no papel questões e situações sexuais encontradas por todos através de reflexões de uma desbocada ex-atriz pornô. Na entrevista abaixo, Juliana Frank fala sobre seu processo de criação, literatura, seus novos livros, sexo e outros assuntos.
 

Como surgiu o livro Quenga de Plástico?

Juliana Frank. Não me recordo como surgiu. Faz muito tempo já. Fiquei satisfeita com o resultado final. As proporções afetam minha vida pessoal, as pessoas acham que, porque escrevi na primeira pessoa, sou a personagem. Acontece muito. Muitos casos, um dia relato. A Quenga é libertina. Queria uma personagem que soubesse rir da miséria alheia, da sua própria miséria. Que mudasse de assunto e fosse mais veloz que uma rapidinha.

Quais foram seus primeiros contatos com a literatura? Quais suas maiores referências literárias, aquelas que formaram você como pessoa e como escritora?

Juliana Frank. Eu cresci com a literatura me espiando. Fui criada pela minha mãe e por sete tias-avós. Todas elas eram muito fascinadas por literatura e histórias inventadas na hora. Era divertido ler, criar mirabolâncias com elas. E elas narravam casos e acasos. Hoje, sou influenciada pelos Russos e Franceses, Beats, Fantásticos, Surrealistas. Atualmente, estou lendo John Fante, Bierce, Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst e Marquês de Sade. Sou uma leitora hedonista incurável.

 
Como a literatura erótica entrou na sua vida?
 
Juliana Frank. De brincadeira, de deboche. Gosto de pensar no sexo, assim como em outros temas que para mim são relevantes. Não me apego só à literatura erótica, neurótica ou pornográfica. Desde pequena faço piada boba com sexo, mesmo antes de conhecer o sexo biblicamente, porque é o humor da minha família. Mas o que me atrai é: no momento sexual, nós entramos em contato com um lado primevo, ele não deve ser perdido. Por isso, minhas personagens são sádicas, perversas, “arruaçantes”. Gosto de brincar de soltar esse lado animal no papel.   
 
Capa do livro Quenga de Plástico
 
Na sua opinião, quais as características de uma boa escrita erótica? Quais suas maiores referências nesse gênero?
 
Juliana Frank. Prefiro os pornográficos. Fico fascinada quando um escritor escreve coisas que não penso em ler. Gosto do texto solto, da prosa livre. Não adianta muita coisa ter em mãos uma literatura sexual descritiva sem digressão. Temos A Religiosa, de Diderot; História de Ó; Tereza Filósofa; A Polaquinha, de Dalton Trevisan; Lúxuria, de João Ubaldo Ribeiro; todos os contos do Bukowski; todos os escritos do Marquês de Sade; o grandioso Nelson Rodrigues, que nunca escreve palavrão e é um obsceno absoluto. São os meus favoritos. As mulheres estão tomando a primeira pessoa, levantaram as ancas do banco dos réus, molharam a pena na privada do diabo, colocaram as tetas na mesa e mostram o que pensam sobre o sexo, é o momento.
 
Como você constrói seus textos? Como funciona seu processo de criação? O tom de humor é sempre natural ou você acaba puxando pra esse lado?

Juliana Frank. Não me considero engraçada. É só um deboche trágico mesmo. Eu não gosto de levar a vida a sério. Seriedade é recurso cognitivo pra médico e economista. Eu tenho esse fascínio pela vida, esse entusiasmo. Tudo o que eu vejo e que me parece absurdo me ajuda na máquina. Não busco o humor, às vezes o meu texto é muito triste, mas ainda não foi publicado. Nunca se sabe o que vem. Vou escrevendo, vou levando, agitando. Às vezes danço, quero meu texto com pulsão. Se eu estiver sem ideias, nem me sento à máquina. Não forço, não tento arrancar do limbo. Não tenho rituais. Tem dias que não paro de escrever. Tenho uns cinquenta cadernos escritos aqui, que prometo passar a limpo e me esqueço, porque aspiro a ideia fresca. Gosto de gostar do que estou escrevendo, acredito metafisicamente que essa sensação passa para o leitor. Se eu não me divertir escrevendo, não mostro. Se eu mexer e não ficar satisfeita, desisto. Tenho certeza que texto forçado exaure quem lê. Eu opero no meu registro; estou, no momento, hipnotizada nele. Me sinto livre escrevendo. Fui criada com liberdade. Posso brincar de fazer “literobocetismo” sem me preocupar. Minhas histórias dependem de mim, fico rindo sozinha e criando sobre o que me interessar ali, no momento. Escrevo para pessoas que vejo nas ruas. Sento e escrevo. Rabisco no caderno. Fumo uns cigarros, reescrevo. É simples assim. 

 
Por que você prefere as histórias mais curtas ao escrever?

Juliana Frank. Isso é um bom tema, gera discussão. Ninguém fica feliz com o tamanho das minhas histórias, só eu. Eu fui atriz e aprendi que o ator tem que saber a hora de sair. História que não vai embora, embolora. Pretendo escrever livros pequenos pela minha vida. Não anseio a obra calhamaçal. Não penso que meus temas possuem uma grande importância para ir adiante demais. Alguns escritores exageram, recontam a mesma ladainha centenas de vezes. Resta ao leitor ler pulando. Os meus livros já estão com os pulos.

 

Quais são seus próximos trabalhos?

Juliana Frank. Este ano vou publicar dois livros que estão prontos. Meu Coração de Pedra Pomes (Companhia das Letras) é um livro que acompanha minha personagem, Lawanda, pela sua vida de menina amalucada. Me inspirei na minha melhor amiga, Daniela, que coleciona besouros. Roubei muitas frases dela, do seu coração de pedra-pomes. Espero que ela não me processe. Esse livro tem pouco sexo. Estava cansada do tema. Quis falar da loucura, que é um tema que eu me sinto na obrigação de refletir. Precisamos dos loucos, não é? Já Cabeça de Pimpinela (7 Letras) é sobre uma moça desempregada, com problemas cognitivos graves. Fora os livros, escrevi minha primeira peça, Por Isso Fui Embora, que estreia em maio deste ano, e comecei a escrever um novo livro, Romance de Calçada, e a montar um livro de contos ineditos e já publicados.

 
Coletânea Erótica
50 Versões de Amor e Prazer (Geração Editorial) é uma coletânea de contos organizada pelo escritor Rinaldo de Fernandes, que selecionou 13 autoras que representam as gerações 70, 80, 90 e 00 da literatura brasileira contemporânea para contar histórias eróticas.
“O que está em voga agora é o fato de o erotismo estar sendo produzido mais ostensivamente por mulheres. As próprias mulheres estão muito curiosas pra saber como as autoras estão tratando desse tema. Há no livro contos mais tradicionais mesclados com outros que procuram inovar”, diz o escritor.
Consagradas, emergentes ou  jovens promessas, o que une todas as autoras do livro é a qualidade do texto a partir de temas eróticos e agrega a coletânea a um conjunto de livros que neste momento exploram o tema.
 
Rinaldo, que também produziu um ensaio como posfácio da obra para discutir os conceitos de erotismo adotados no livro, acredita que o erotismo, embora tenha algo de inexplicável, tem a ver com a sexualidade – portanto, é da ordem do humano – e que a literatura erótica tem força permanente na medida em que trata de algo que é inerente ao ser humano, ou seja, eventos que se situam no âmbito da sexualidade.
 

“O sexo é muito central em nossa vida. O erotismo nada mais é do que a representação artística dele, de forma mais implícita ou mais explícita, mais ou menos sugestiva, variando em graus”, diz o escritor, que aponta os contos “A Sesta”, de Ana Miranda, “Relatório Final”, de Márcia Denser, “A Chave na Fechadura”, de Cecilia Prada, “Romance de Calçada”, de Juliana Frank, “Penugem”, de Luisa Geisler, “Senhorita Bruna”, de Marília Arnaud, “Curiosidade”, de Tércia Montenegro, entre outros da coletânea, como verdadeiras obras-primas da literatura erótica brasileira.

 
 
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