Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.01.2015 20.01.2015

A dureza, a beleza e as peculiaridades de São Paulo nos livros

Maria Fernanda Moraes
No livro Caderno Inquieto, o poeta Tarso de Melo propõe uma analogia entre os livros e cidades. O poema homônimo diz: “e já disseram que a cidade é um livro, que a vida é um livro, que escrevemos uma e outra como podemos também lê-las (…) o sentido de tudo está no livro, viver é virar páginas, grifá-las”.
Pegando esse gancho e aproveitando o mês de aniversário de São Paulo, o SaraivaConteúdo relacionou algumas obras contemporâneas que trazem a cidade como personagem, como cenário ou como propulsora de histórias:
É uma terça-feira, dia 9 de maio de 2000, que abriga as 69 histórias de Eles Eram Muitos Cavalos. O autor já deixa isso claro no início do livro, com um cabeçalho, que ainda informa o leitor que trata-se de um dia de céu nublado, com temperatura mínima de 14° e máxima de 23°. As tramas são curtas e aparentemente sem ligação, até que se percebe que elas são, na verdade, pedaços do caos da metrópole paulistana.
As histórias vão construindo um romance cheio de sotaques diferentes, conflitos familiares e cotidiano das classes baixa, média e alta. Em cada uma, parte da cidade é revelada, como em “De cor”, onde o homem que caminha com o filho dirige empilhadeira numa transportadora no bairro do Limão; ou em “Nosso encontro”, em que Paulo Sérgio Módena, paulistano do Brás, mora num “apartamentinho em Perdizes (para compra; para venda é Pompeia)”. Muitas outras referências da cidade aparecem nas histórias, como a Praça Villaboim, um restaurante perto do Palmeiras, ou o chope e tira-gosto do Galinheiro Grill.
CORPO A CORPO COM O CONCRETO, BRUNO ZENI
Romário Ribeiro, o Roma, é um jornalista de 25 anos e morador da Pompeia, um bairro vizinho da Vila Madalena, que ele define como “boêmio e esclarecido”. Ele trabalha na Vila Olímpia, região cheia de edifícios pós-modernos descritos no livro como “palafitas de tecnologia avançada”. Roma protagoniza uma das duas histórias de Corpo a Corpo com o Concreto. A outra voz narrativa do livro é um morador de rua, Amaro, que se define como um “Eu cão-imundo”, como “Eu não-homem”.
As histórias são narradas em primeira pessoa e se relacionam: falam da vida suburbana, com um tom de nostalgia, que sobrevive “entre sinucas e escadarias e pichações de Pinheiros“. As vozes narrativas se alternam até que Roma passa a encontrar o mendigo pelo bairro e quer trocar impressões sobre a cidade, apesar de enfrentarem realidades contrastantes.
100 HISTÓRIAS COLHIDAS NA RUA, FERNANDO BONASSI
Como uma espécie de retrato instantâneo da realidade urbana, o livro de Fernando Bonassi reúne 100 microcontos sem nome, que não ocupam mais do que duas páginas cada um. Como o título sugere, são histórias aleatórias, que têm a cidade como cenário: “Puseram fogo no quarteirão inteiro e, agora que cortaram a luz dessa parte do bairro, a impressão é que a Celso Garcia está crepitando”, narra logo o primeiro conto.
Além das narrativas trazerem lugares familiares para os moradores da capital, o que faz com que o leitor se identifique com o sentimento de pertencimento à cidade é o choque cruel com a violência:
Tem alguém embaixo de uma Kombi na Radial Leste. É logo cedo numa terça-feira que vai se perder. Nem se forma congestionamento. Por dentro do carro, as pessoas percebem tarde. E já vão. Mesmo eu (sempre atento a essas coisas com mais que antecedência), primeiro penso que é um mecânico trabalhando em pleno rush, depois noto o filete desenhando um contorno de mapa no asfalto, muito vermelho para ser óleo do cárter.
Os contos reunidos neste livro foram escritos por Marçal Aquino entre as décadas de 80, 90 e 2000 e apresentam características semelhantes aos seus romances: narrativas concisas, quase cinematográficas, e personagens que não se encaixam no mundo em que vivem, cercados pela violência. A maioria dos contos traz conflitos rurais transportados para o ambiente urbano de São Paulo.
O conto que abre o livro, “Impotências”, representa muito o modo como a alma paulistana é tratada pelo escritor. O enredo fala da morte de seu tio, num hospício, e o autor fica refletindo sobre as várias coisas que o parente poderia ter feito em vida e não fez. Cita bairros da cidade, como o Jardim Guanabara, fala de alguns cruzamentos conhecidos como o semáforo da Rodrigues Alves e lembra de lugares-comuns do paulistano que nem precisam de explicação: “Meu tio nunca desceu para Santos – e pegou chuva – num fim de semana”.
O livro é uma reunião de contos curtos, cercados pela violência
Reinaldo Moraes revela o submundo da metrópole: drogas, bebida e sexo
PORNOPOPÉIA, REINALDO MORAES
Talvez um dos mais conhecidos desta leva de livros contemporâneos sobre a cidade de São Paulo, Pornopopéia retrata o submundo da capital, com bebidas, drogas e prostituição. Zeca, o protagonista, é um cineasta decadente que fez sucesso com apenas uma produção, é ex-diretor de películas pornôs e agora vive de filmes institucionais.
Ele tem mulher e filho pequeno que pouco aparecem na trama, e é na esbórnia que ele se encontra: prostitutas, travestis e traficantes são parte do cenário. A história se divide em duas partes. E é na primeira que aparecem os cenários e os diálogos do submundo da metrópole:
Teve uma época que ele marcava os apontos em botecos do centrão, sempre por volta de nove da noite. Tinha dado alguma treta na Pompéia e ele precisou se mandar de lá. A transação agora rolava pela Rego Freitas, Amaral Gurgel, Cesário Motta, Marquês de Itu, Major Sertório. A gente ficava tomando cerveja até o Miro dar as caras, durante meia hora, uma hora, até duas horas já esperei o Miro, frigindo na fissura, com a boca do lixo em volta fervendo de putaria, polícia e crime.
As crônicas, tão presentes no cotidiano das grandes cidades, não poderiam ficar de fora desta seleção. Este livro traz um apanhado do trabalho da escritora publicado em jornais como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e revista Piauí.
Em tom bem-humorado, Vanessa explora vários rincões da capital paulista. Usuária assídua do transporte público, ela dedica várias crônicas às peculiaridades que só acontecem dentro dos ônibus e já fez um estudo sobre os trajetos e nomenclaturas dos coletivos na cidade, chegando a conclusões filosóficas, como: “Não entendo por que na vida tudo passa, menos o 177H”. Outras indagações urbanas também são bem pertinentes: “Não dá pra entender como ainda não despoluíram o Tietê e o Pinheiros; nem por que só um em cada dez orelhões costuma funcionar”.
Há ainda que se ressaltar o seu carinho especial pelo bairro em que nasceu, o Mandaqui, na zona norte, personagem essencial em sua obra. Quem costuma ler suas crônicas nos jornais já conhece alguns ilustres moradores, como o Sr. Nakamura, que sobreviveu a uma hecatombe nuclear, ou ainda o Sr. Eliseu, dono da quitanda.
CAPÃO PECADO, FERRÉZ
Capão Pecado é o livro de estreia de Ferréz, um dos nomes representativos da literatura marginal. Conta a história de Rael, um garoto que queria ser escritor e se apaixona por Paula, namorada de Matcherros, seu amigo. A narrativa é ambientada em Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, e traz as gírias e a linguagem oral da periferia. Além do triângulo amoroso, a história mostra o cotidiano da favela, os pistoleiros de plantão, o envolvimento dos protagonistas com tráfico de drogas e assaltos.
Burgos puxou a pistola italiana Beretta calibre 22 da cintura e mandou ele dar o último trago de sua vida. Ele fumou, jogou a ponta no chão e caiu na quadra com um tiro no meio da testa. Burgos disparou somente uma vez, colocou a pistola na cintura novamente, pegou a pontinha no chão, voltou a acendê-la e saiu fumando pela favela.”
As crônicas de Vanessa Barbara vão desde os episódios em ônibus até o Mandaqui
Ferréz traz a oralidade e as gírias da periferia em Capão Pecado
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