Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 26.11.2013 26.11.2013

A dinâmica de livros interativos

Por Andréia Martins
 
Quantas das seguintes atividades você já pensou em realizar com um livro: levá-lo para o banho com você (e não vale ler na banheira)? Pegá-lo sem usar as mãos? Ou ainda usar duas páginas para escrever uma única palavra repetidas vezes, até preencher todo o espaço em branco? Nenhuma?
 
Bem, estimular todas elas foi o intuito da ilustradora canadense Keri Smith quando lançou Wreck This Journal, recém-lançado no Brasil como Destrua Este Diário (Intrínseca). Sua vontade era brincar com a ideia de fazer as pessoas comprarem um livro para depois destruí-lo.
 
Não apenas como diversão, mas também para ajudar a eliminar o bloqueio da página em branco, criando um título interativo que fosse a cara de seu proprietário, do início ao fim da leitura. Cada página – elas não vêm numeradas, outra tarefa que cabe ao dono executar – traz uma ordem a ser cumprida da forma que o “leitor” decidir. São comandos que desafiam a criatividade.
 
“Me interessei porque achei a ideia muito bem elaborada e ao mesmo tempo bem contraditória; afinal, um diário é para ser bem cuidado e guardado em segredo, e esse é para ser destruído. Sempre participei e gostei de atividades que exploram a criatividade, então eu realmente precisava fazer parte desse grupo de destruidores”, diz Bruna Caroline Gomes, estudante de 24 anos.
 
Como está estudando para prestar concurso público, ela diz que a obra é uma ótima forma de relaxar. “Tem momentos em que preciso me desligar de toda pressão e ansiedade e fazer algo descompromissado, e o livro me dá essa sensação de lazer. É possível usá-lo como diário, fazendo uma tarefa por dia, e adequar a atividade proposta ao que você desejar expressar, porque o livro possui várias atividades que se encaixam no seu dia a dia. Por exemplo, se está zangada, alegre, estressada ou se sentindo romântica, você pode encontrar uma boa atividade para expressar seus sentimentos”, explica.
 
A publicação também ajuda a praticar o desapego. ”Você literalmente vai rabiscar, amassar, cortar, colar e sujar [o livro], e isso vai contra o hábito das pessoas que cuidam dos seus livros com fossem joias preciosas, sem rasuras, sem orelhas nas páginas e, claro, sem empréstimos”, diverte-se a estudante.
 
Destrua Este Diário, que teve sua versão em português disponibilizada recentemente
 
Camila Lopes, artesã de 35 anos, sabe bem o que é ter toda essa cautela. “Sempre tive muito cuidado com meus livros. Sou o tipo de pessoa que nem gosta de emprestá-los [risos]. Mas com Destrua Este Diário, isso muda. É um livro feito para ser destruído sem medo, para ser personalizado e chegar ao final das páginas com a cara do dono! É genial. O autor acaba sendo apenas um coadjuvante nisso tudo, pois quem cria o livro de fato é o leitor”.
 
No caso da artesã, que trabalha com a criatividade, os chamados "título interativos" são sempre bem-vindos. “Costumo gostar desse tipo de livro, e foi a dinâmica sugerida neste um dos pontos que mais me chamaram atenção. Quebrar o habitual, personalizar, criar sem medo, não ter barreiras… Parece simples, mas é um grande exercício de autoconhecimento, que muitas vezes nos surpreende. Posso dizer que jamais serei a mesma após a 'leitura' deste livro”, brinca.
 
Das atividades propostas, Bruna conta que até agora gostou muito da página com o tema “Escreva Sem se Preocupar”. A página ganhou cores, trechos de duas de suas músicas preferidas e seu poema favorito de Cora Coralina.
 
Página do diário de Bruna, com a tarefa "Encha esta página de círculos"
Página do diário de Bruna, com a tarefa "Escreva sem se preocupar"
 
Já Camila, que acabou de adquirir a publicação, conta que pretende fazer mais de uma atividade por dia. “Existem tarefas mais simples, outras mais complexas, que naturalmente demandarão mais tempo para serem concluídas. Pretendo seguir a ordem do livro na execução de cada atividade, e acredito que conseguirei fazer mais de uma por dia, em momentos reservados para esse fim. Vai ser relaxante e muito divertido”, afirma.
 
Ambas concordam que, ao final do processo, a obra pode render algumas revelações pessoais. Mas isso a gente só poderá saber quando chegar ao final da "leitura".
 
NÃO BASTA DESTRUIR, TEM QUE COMPARTILHAR
 
Bruna curtiu tanto a ideia de destruir e criar seu próprio livro que resolveu compartilhar as páginas do seu diário em um perfil no Instagram, o @destruirpodesercriativo.
 
“Criei o perfil com a ideia de compartilhar a minha 'destruição' e também ficar conectada com as pessoas que estão dispostas a entrar nessa aventura literária. Muitas pessoas têm curtido as minhas fotos, e eu também tenho visto que muita gente está se divertindo com o livro”, conta ela.
 
Para os leitores tímidos ou que acham que não têm criatividade suficiente para preencher a obra, a internet pode ajudar – e muito. Dois Tumblrs em especial trazem boas dicas de como transformar e destruir as páginas do diário: Wreckthisjournal-ideas.tumblr.com e Ideasforwreckthisjournal.tumblr.com.
 
Veja abaixo alguns exemplos de “destruição” tirados dos Tumblr para algumas tarefas do Destrua Este Diário que pareciam impossíveis:
 
Destruição para a tarefa de colecionar fibras de algodão dos bolsos das roupas e colar na página
Destruição para a tarefa de fazer uma bagunça e depois limpá-la ou arrumá-la
Destruição para a tarefa de derramar o café na página e fazer algo útil com isso
Destruição para a tarefa de colar algo grudento na página do livro
 
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