Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.04.2012 17.04.2012

A difícil arte de rodar um filme em Hollywood

Por André Bernardo
 
Rodar um filme em Hollywood, a capital internacional do cinema, é o sonho de nove entre dez cineastas brasileiros.
 
Na sexta-feira passada, dia 13 de abril, esse sonho se tornou realidade para o pernambucano Heitor Dhalia, de À Deriva, que lançou, em circuito nacional, o suspense 12 Horas, sua primeira incursão pelo cinema americano.
 
Em 15 de junho, será a vez de Na Estrada, um road-movie dirigido por Walter Salles, de Central do Brasil, e estrelado por Sam Riley, Garrett Hedlund e Kristen Stewart.
 
Para 2013, estão previstas as estreias de Robocop, de José Padilha, 360, de Fernando Meirelles, e Open Road, de Márcio Garcia. No elenco de alguns desses filmes, astros e estrelas como Anthony Hopkins, Juliette Lewis, Jude Law, Rachel Weisz e Andy Garcia.
 
Para Dhalia, o sonho de filmar em Hollywood deixou de ser algo inalcançável em 2009, quando À Deriva foi bem recebido no Festival de Cannes. Logo, o diretor de Nina e O Cheiro do Ralo ganhou visibilidade na indústria americana e passou a receber convites de alguns produtores.
 
A cinebiografia sobre o escritor F. Scott Fitzgerald, entre outros, acabou não vingando, mas o thriller sobre uma garçonete que é perseguida por um serial-killer, sim.
 
Porém, para o sonho não se transformar em pesadelo, Dhalia precisou fazer algumas concessões. Ou “engolir alguns sapos”. Um deles foi não poder levar ninguém de sua equipe para trabalhar nos EUA. O outro foi não poder ensaiar com os atores antes de rodar cada cena.
 
“Lá fora, não tive muito espaço para escalar ou trabalhar com os atores. Muitos deles, por exemplo, só conheci no set. Todas as conversas que tive com a protagonista, Amanda Seyfried, foram acompanhadas pelo produtor. O que me ajudou é que ela é uma ótima pessoa. Então, foi menos um obstáculo para eu driblar”, consola-se Dhalia, referindo-se à atriz de Mamma Mia!, Cartas para Julieta e A Garota da Capa Vermelha, entre outros.
 
“De uma maneira geral, a questão maior é a falta de controle criativo. Nem liberdade para mexer no roteiro eu tive. Estava ali para cumprir um papel e foi exatamente isso o que eu fiz”, avalia o diretor, que já está com as atenções voltadas para seu próximo longa, rodado aqui mesmo no Brasil, sobre o garimpo de Serra Pelada.
 
Todo cuidado é pouco
Autor de filmes como O Jardineiro Fiel e Ensaio sobre a Cegueira, Fernando Meirelles admite que “não ter 100% do controle da língua” é algo que o incomoda muito quando roda um filme falado em inglês. Com exceção do orçamento – “os dos filmes que rodei fora são maiores do que os que fiz aqui” –, ele ressalva que o processo de dirigir um filme é o mesmo em qualquer lugar do mundo.
 
“Tocar um set no Brasil, Islândia ou Eslováquia é muito parecido”, minimiza. Mesmo assim, cauteloso, Meirelles trata de tomar algumas precauções.
Fernando Meirelles com o elenco de O Jardineiro Fiel
Como, por exemplo, evitar os infalíveis “malas sem alça” no elenco de suas produções. “Uma atriz pode até ter ganhado 58 Oscars, mas, se for chata, não entra. A vida é muito curta para se fazer de outra maneira”, garante.
 
A lista de cineastas brasileiros que já trabalharam no exterior é razoavelmente extensa. E inclui nomes como Andrucha Waddington, autor de Lope; Vicente Amorim, de Um Homem Bom; e Halder Gomes, de Cadáveres 2.
 
Para Gomes, a maior dificuldade enfrentada por um diretor brasileiro em Hollywood está associada à principal diferença entre Brasil e EUA: a fonte de captação de recursos. “No Brasil, os recursos são quase que totalmente incentivados. Isso deixa os realizadores à vontade para fazer os filmes com mais autonomia criativa. Já nos EUA, os recursos são provenientes de investidores privados. Por isso, eles exercem interferência em toda a cadeia produtiva de um filme: do roteiro à montagem”, compara.
 
A conquista do espaço
A exportação de talentos brasileiros para Hollywood não é um fenômeno exatamente novo. Em 1984, Hector Babenco, argentino radicalizado brasileiro, filmou O Beijo da Mulher-Aranha, que rendeu um Oscar de Melhor Ator para William Hurt.
 
Seis anos depois, foi a vez de Bruno Barreto se aventurar por Hollywood. Em 1990, dirigiu Assassinato sob Duas Bandeiras, que reuniu um elenco respeitável como Kevin Spacey, Robert Duvall e Andy Garcia.
 
Ao longo da carreira, Barreto conciliou produções nacionais, como Bossa Nova, O Casamento de Romeu e Julieta e Última Parada 174 com outras, internacionais, como Atos de Amor, Entre o Dever e a Amizade e Voando Alto. Em 1998, chegou a disputar o Oscar de Filme Estrangeiro por Voando Alto. Em 1998, chegou a disputar o Oscar de Filme Estrangeiro por O Que É Isso, Companheiro?
 
O currículo de Babenco não é menos invejável. Afinal, não é todo dia que um cineasta brasileiro se dá ao luxo de trabalhar, em um mesmo set, com Jack Nicholson e Meryl Streep – os atores recordistas em indicações para o Oscar.
 
Mas foi isso o que aconteceu em 1987, quando filmou Ironweed. Para não passar pelos mesmos apuros que seus colegas, evita trabalhar para estúdios. “Todos os meus filmes são independentes. Não trabalho para Hollywood. Trabalho para produtores independentes. Por isso, o corte final é sempre meu e nunca do produtor. É a maneira que encontrei para não ser humilhado por pessoas que não conhecem nada daquele ofício e, mesmo assim, insistem em mandar em diretores como se eles fossem motoristas de táxi”, explica Babenco.
 
Ou vai ou racha
 
Marcio Garcia (de óculos escuros) no set de Open Road
Sim, os perrengues existem. E não são poucos. Márcio Garcia que o diga.Quando soube que teria apenas 18 dias para filmar Amor por Acaso, estrelado por Juliana Paes e Dean Cain, quase caiu para trás. 
 
“No início, confesso que medrei. Pensei que seria impossível cumprir aquele cronograma. Mas era pegar ou largar”, lembra.
 
Por vezes, Garcia precisou rodar 15 cenas em um mesmo dia. Quando isso acontecia, salvo raríssimas exceções, cada cena era filmada uma única vez. 
 
Apesar do corre-corre, garante o ator e diretor, Amor por Acaso foi bem mais tranquilo que Open Road, seu próximo longa-metragem. “Quando se tem estrelas como Andy Garcia e Juliette Lewis no set, e pouco tempo para filmar, a pressão é ainda maior”, avalia.
 
Mas não é todo diretor que sonha em seguir carreira em Hollywood. Não a qualquer preço. Esse é o caso de Cacá Diegues, autor de Xica da Silva, Bye Bye Brasil e Deus é Brasileiro, entre outros.
 
“Já recebi alguns convites, me interessei por uns poucos e rejeitei a maioria. Não gosto de filmar coisas que não estimulem a minha curiosidade ou que não têm nada a ver comigo”, justifica.
 
A certa altura, Diegues tentou levar para as telas uma versão do romance Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier. Mas o projeto não saiu do papel.
 
Para ele, um cineasta brasileiro não precisa trabalhar com atores estrangeiros ou rodar um filme no exterior para ter reconhecimento internacional. “O reconhecimento internacional vem pela qualidade dos filmes. O resto são penduricalhos que podem ou não ajudar”, acredita. 
 
 
 

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