Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 17.09.2009 17.09.2009

A desintegração de uma família nos quadrinhos

Por Bruno Dorigatti

 

A história começa com um casal junto há 40 anos que decide se separar. Para anunciar a decisão, Maggie e David Loony reúnem os três filhos já crescidos, entre os 35 e 20 e poucos anos, na casa de praia para anunciar a decisão. Nos próximos seis dias em que todos passam ali reunidos – Dennis, o filho mais velho, a mulher e o bebê, Claire, a filha do meio e Jill, sua filha, e o caçula Peter, retrato como um sapo com mãos de personagem de desenho animado, como se fosse luvas – se desenrola Umbigo sem fundo, que acaba de ser lançado aqui pela Companhia das Letras, dentro do selo Quadrinhos na Cia. 

Concebido por Dash Shaw, jovem quadrinista norte-americano, a graphic novel foi incensada por lá quando saiu em 2008 pela Fantagraphics. E com certa razão de ser. Shaw segue à risca os preceitos de Will Eisner, e aproxima os quadrinhos da literatura, ao tratar de uma família um tanto disfuncional, com humor, melancolia, ironia, desprezo, tangenciando os reais motivos que levam os Loony a tomar a decisão, e a reação particular dos filhos à ela, de maneira rara e particular na construção narrativa. 

Aparentemente, o primeiro contato com o calhamaço de 720 páginas provoca certo estranhamento. Shaw narra a história utilizando recursos como cortes rápidos, intercala acontecimentos simultâneos, espaços em brancos, painéis pequenos que vão crescendo como em um close, silêncios e momentos em que as imagens falam por si, além da descrição de cenas e situações que poderiam passar despercebidas – como “mastiga, mastiga”, “aperta”, “esforço da panturrilha ao pisar numa duna” – uma técnica retirada dos mangás japoneses que Shaw admira. A leitura se faz de forma rápida e essa confluência entre um tempo curto e ao mesmo tempo extenso, onde cenas breves por vezes tomam muitos quadros, vai provocando um estranhamento ao mesmo tempo em que ajuda o leitor a se embrenhar na história. 

Shaw esteve no Rio Janeiro no último final de semana para a Bienal do Rio, onde participou de uma mesa ao lado dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Ba, e conversou com o SaraivaConteúdo sobre seu trabalho, a oportunidade que Umbigo sem fundo lhe proporcionou para se dedicar com exclusividade aos quadrinhos – ele que trabalhou como modelo vivo enquanto desenhava essa história –, a experiência com animação, entre outros assuntos. 

Os quadrinhos sempre fizeram parte da vida deste jovem que nasceu em Richmond, no estado da Virgínia. “Meu pai era um leitor de quadrinhos, então sempre tinha revistas em volta enquanto eu estava crescendo. Comecei a desenhar quadrinhos quando era muito novo e meus pais sempre me incentivaram muito. Comecei cedo e não parei mais”, conta ele. 

No começo, o quadrinista publicou suas primeiras histórias, beneficiado por uma rede que permite a impressão de pequenas tiragens. “Temos uma comunidade nos Estados Unidos que promove a autopublicação de quadrinhos. Eu desenhava, fazia uma versão numa copiadora e então imprimia algo como 50 cópias e colocava na loja de quadrinhos da minha cidade, ou em loja de discos que também vendiam quadrinhos.” 

No início da universidade – ele estudou ilustração e quadrinhos na Escola de Artes Visuais de Manhattan –, tomou conhecimento de um coletivo de quadrinhos, chamado Meathaus, que publicou algumas de suas histórias curtas em antologias. “Eu uso os quadrinhos como um lugar que gostaria de ir quando sento para desenhar, como um caminho de fuga da realidade, da minha vida normal e ordinária, e também para seguir os meus interesses e me divirto fazendo isso”, diz Shaw, que desenvolve seus roteiros conforme vai desenhando e criando suas histórias. 

“Alguns quadrinistas recebem roteiros e então têm que desenhar alguma coisa que eles não sabem como. Mas eu faço tudo sozinho, desenho e escrevo. E é sempre um desafio, para mim, ter que desenhar algum tipo de ambiente que não me sinta familiarizado.” 

Além das primeiras histórias que publicou por iniciativa própria, que hoje ele diz não gostar muito, Shaw desenvolveu, ao mesmo tempo em que criava Umbigo sem fundo, outro projeto de fôlego, publicado na web.  BodyWorld começou a ser publicada on-line antes de Umbigo sem fundo ter saído nos Estados Unidos. Nesta graphic novel, Shaw criou uma história futurista e sombria, que se passa na pequena cidade da floresta experimental de Boney Borough onde uma planta misteriosa, quando fumada, dá poderes telepáticos.  

Com a inesperada e barulhenta boa repercussão e atenção que Umbigo sem fundo teve, BodyWorld [ao lado] ganhará uma versão impressa em 2010 pela Pantheon, que conta em seu catálogo com nomes como Charles M. Schulz , Matt Groening, Art Spiegelman, Daniel Clowes, Chris Ware e Marjane Satrapi. 

“O que é uma oportunidade para mim de não ter que arranjar um emprego ou trabalho regular, e de me manter com os quadrinhos. Quando estava desenhando Umbigo sem fundo, trabalhei como modelo vivo para uma universidade local. Mas agora não tenho que mais que fazer isso, apenas trabalho nos meus quadrinhos e em animações o tempo inteiro. Sou muito afortunado por tudo isso.” 

Animação foi uma conseqüência natural, já que Shaw sempre gostou de desenho animado e de livros que tratam do assunto, como o clássico The Illusion of Life, que aborda os desenhos animados da Disney, considerado um dos melhores livros sobre animação de personagens, cuja versão definitiva, lançada em 1995, contém 576 páginas, com esboços de storyboards e seqüências de animação inteiras. 

“Fiz uma animação curta a partir de Umbigo sem fundo, foi a primeira que fiz desde o colégio, quando fiz algumas em stop motion. E também fiz outra, para BodyWorld, um pouco mais elaborada, colorida [veja as duas ao final do texto]. Depois disso, fiz uma série animada para a Independent Film Channel, que estréia em novembro.” A série, dividida em cinco episódios e que vai passar on-line, no site da IFC, é inspirada na nova graphic novel de Shaw, que também chega às lojas no mesmo mês, lá fora. The Unclothed Man in the 35th Century A.D. (O homem sem máscara no século 35, em tradução literal) sai pela Fantagraphics, a mesma que editou Umbigo sem fundo, e narra as aventuras de Rebel X-6, um homem que trabalha para uma organização anti-andróides em um futuro distante, cuja missão é disfarçar-se como um robô modelo – cuja diferença para os humanos está em não chorar, rir, ou apresentar algum comportamento falível – e subverter a proibição de que humanos posem como modelo na escola de arte. Uma ficção científica inspirada talvez em seu trabalho como modelo, quando precisava do trabalho para sustentar seu início como quadrinista. 

Ele deseja continuar trabalhando com animação, e considera o trabalho bem diferente de fazer quadrinhos, já que é sempre algo colaborativo e, portanto, sem a possibilidade de trocar um pelo outro. “Não existe a possibilidade, para mim, de ela substituir os quadrinhos, pois um dos meus principais prazeres é trabalhar nos quadrinhos, pelo fato que ele não precisa ser colaborativo. E minhas animações são feitas em uma escala muito pequena, faço todos os desenhos, dirijo, faço o segundo plano. Faço muito sozinho, mas ainda preciso um pouco de colaboração. E eu realmente não gosto das pessoas em volta de mim, não sou um diretor muito natural. É irritante ficar cobrando das pessoas, ‘cadê o arquivo de som?’ etc. Seria possível fazer tudo sozinho, mas eu teria que aprender a mexer em alguns programas de computador que não domino e não quero.  Com as colaborações, este trabalho acaba ficando melhor do que seria. E eu realmente gosto de quadrinhos feitos por uma pessoa, e gosto de fazê-los”, conta. 

O trabalho de Shaw por vezes se aproxima de um storyboard, com closes, ângulos, câmeras voando, mergulhos. “Me interesso por filmes, até porque eles são extremamente populares em grande parte de nossa cultura, temos que aceitar isso, e não tentar viver em um tempo como se eles não existissem. Fiz uma adaptação de um reality show chamado Blind Date [Encontro romântico com alguém desconhecido, em tradução literal], que temos nos Estados Unidos, muito popular, e que usa elementos de quadrinhos na edição, como legendas e textos na tela, e eles zombam das pessoas, fazem eles parecerem como idiotas. E na minha adaptação tirei essas coisas, e deixo somente o que eles dizem. E desenho a partir da tela, então tem um tipo de observação no estilo de desenho, que parte exclusivamente do ângulo que as câmeras do reality show fornecem. É uma maneira de me apropriar dessas coisas.” 

Falar de influências faz Shaw pensar em milhares de quadrinistas e artistas que ele gosta. “É preciso um conhecimento razoável da História dos quadrinhos.” Citaria alguém? “Bem, em BodyWorld, o design do personagem principal e outros personagens são inspirados em Dick Tracy, de Chester Gould, e em quadrinhos adolescentes, como Archie. Umbigo sem fundo usa algumas referências dos Simpsons e outros quadrinistas como Chester Brown, algo de quadrinhos japoneses, que lemos extremamente rápido, assim como Umbigo”, enumera. 

Umbigo sem fundo apresenta algumas características bem próprias na narrativa. “Eu queria algo extenso, com muitas páginas e que pudesse ser lido muito rápido. É uma combinação de curto e extenso. E a história se desenrola em apenas seis dias, o que é um tempo grande, mas o tempo é lento naqueles dias. É como se ação fosse lentamente descrita em um monte de pequenos painéis. Como a mulher que se despe lentamente em 48 painéis [exemplo abaixo]. A intenção destas coisas rápidas e lentas, ou curtas e extensas é apenas uma experiência de leitura incomum.” 


 

Dos brasileiros, conhece os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, que já freqüentam a Comic Con, conhecida feira de quadrinhos em San Diego, Califórnia, há alguns anos, além de Rafael Grampá, que teve a sua excelente Mesmo Deliverylançado por lá também. “Não conheço tanto como deveria, mas espero conhecer mais por esses dias.” 

BodyWorld,ele ainda não sabe se sairá aqui pela Companhia das Letras, “mas seria legal”, diz. Atualmente, Shaw não está no meio de nenhum grande trabalho, mas começando novos projetos, o que também não é comum, pois um projeto, que leva dois três anos, como BodyWorld e Umbigo, geralmente é feito junto com outro. Além de estórias curtas que faz junto com os projetos de mais fôlego.

> Confira um trecho da versão original de Umbigo sem fundo

> Leia na íntegra a graphic novel BodyWorld

> Assista às animações das duas graphic novels de Dash Shaw

Umbigo sem fundo 

BodyWorld 

> Veja duas páginas de Umbigo sem fundo

 

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