Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.03.2010 16.03.2010

A “”descoberta”” de Roberto Bolaño

Por Bruno Dorigatti
Ilustração de Cássio Loredano

E segue crescendo o mito sobre Roberto Bolaño. O escritor chileno morreu em 2003 – por conta da falência do fígado que não conseguiu transplantar a tempo, aos 50 anos – e seu baú de escritos, conforme vai sendo revelado, vai ganhando relevância há muito não vista no mundo literário. A bolañomania teve forte impulsão com a tradução de seus livros para o inglês, o que somente ocorreu após a sua morte. Um dos responsáveis por incensar o autor que morou um bom tempo no México, antes de se mudar para a Europa em 1977, é o sempre elogiado Os detetives selvagens, traduzido aqui por Eduardo Brandão e lançado pela Companhia das Letras em 2006, que tem editado o restante da obra – até agora, as novelas Noturno do Chile, A pista de gelo, Amuleto e Putas assassinas. O livro mais recente do chileno lançado no Brasil, Estrela distante, se passa, como grande parte de sua obra, no período obscuro da ditatura chilena de Pinochet e versa sobre poetas, escritores e o mundo literário. Aqui, Alberto Ruiz-Tagle, um estranho e autodidata poeta,  freqüentador de cursos de poesia e oficinas literárias, se confunde com o aviador Carlos Wieder, responsável por escrever no ar e com fumaça, versículos bíblicos e poemas em latim. Ao seguir seus rastros, o narrador vai desvendando a figura e sua ligação com a ditadura chilena e algumas das atrocidades cometidas por ela.

Já em Os detetives selvagens, livro que o tornou conhecido mundo afora, Ulises Lima e Arturo Belano são dois poetas que integram o realismo visceral e decidem investigar o que teria acontecido com uma poeta vanguardista do início do século XX, a mexicana Cesárea Tinajero. Composto pelo diário de um terceiro personagem, o jovem García Madero, e por depoimentos de 50 “”testemunhas””, a maior parte do longo volume de mais de 600 páginas, Bolaño se utiliza de alguns técnicas do romance policial, mas acaba por causar um efeito contrário ao da revelação do mistério e solução das causas, desvendando um mundo de incertezas que nos cerca. Ganhador do prêmio Rómulo Gallegos em 1999, foi eleito em 2006 como o livro chileno mais importante dos últimos 25 anos. 

Após o seu desaparecimento, manuscritos, cadernos, diários e dezenas de originais que parecem procriar em geraçao espontânea vêm aparecendo e sendo editados. Alguns recém-descobertos e a serem editados em breve são El Tercer ReichDiorama e Los sinsabores del verdadero policía o Asesinos de Sonora. O mais caudaloso deles é 2666, lançado em espanhol em 2004 e traduzido para o inglês em 2008, quando foi eleito um dos principais livros do ano por vários veículos e listas, ganhando no começo de 2009 o National Book Critics Circle Award, além de outros prêmios, como o Herralde, o da Fundación Lara, o Salambó, o Ciudad de Barcelona, o Santiago de Chile ou o Altazor. 

O romance de mais de mil páginas, dividido em cinco partes que o autor gostaria de ter visto editadas separadamente, gira em torno dos assassinatos não esclarecidos e com requintes de crueldade de centenas de mulheres numa cidade fictícia que emula a mexicana Ciudad Juárez, no México, hoje uma das mais violentas do mundo por conta da força do narcotráfico lá estabelecido. 

Segundo Hugo Torres, “”a violência e a morte são panos de fundo em 2666, que liga várias estórias através dos assassinatos de 300 jovens e pobres raparigas da cidade ficcional de Santa Teresa (que terá correspondência na real Ciudad Juarez, no México). A crítica respondeu de forma entusiástica. Houve quem falasse num momento definidor da literatura sul-americana, comparando esta obra de fôlego a uma outra – Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez””. 

2666 vem sendo considerado um dos maiores fenômenos literários desta década que vai se encerrando e, com sua tradução para o português, a inquietação deve chegar ao mundo lusófono. O livro foi lançado em Portugal em setembro de 2009. No Brasil, a Companhia das Letras promete o catatau para maio deste ano – a capa (ao lado) foi divulgada nesta terça, 16 de março. Em Portugal, mesmo com mais de mil páginas, foi o livro mais roubado do ano.

Em 2008, a espanhola Editorial Candaya, publicou Bolaño Salvaje, que reúne estudos críticos e textos de escritores sobre o autor chileno. O volume inclui o documentário Bolaño cercano (Bolaño de perto, em português), realizado por Erik Haasnoot, onde a mulher, os filhos e os amigos mais íntimos conversam sobre a sua vida e desvendam chaves de sua escrita. 

> Leia um trecho de 2666

Um sonho

Amalfitano sonhou que via aparecer num pátio de mármore cor-de-rosa o último filósofo comunista do século XX. Falava em russo. Ou melhor dizendo: cantava uma canção em russo enquanto o seu corpanzil se deslocava, fazendo esses, em direcção a um conjunto de majólicas listadas de vermelho intenso que sobressaía no plano regular do pátio como uma espécie de cratera ou latrina. (…) Quando o último filósofo do comunismo já estava finalmente a chegar à cratera ou à latrina, Amalfitano descobria com estupefacção que se tratava nem mais nem menos de Boris Yeltsin. É este o último filósofo do comunismo? Em que espécie de louco me estou a transformar se sou capaz de sonhar disparates? O sonho, contudo, estava em paz com o espírito de Amalfitano. Não era um pesadelo. Além disso, proporcionava-lhe uma espécie de bem-estar leve como uma pena. Então Boris Yeltsin olhava para Amalfitano com curiosidade, como se fosse Amalfitano a irromper no seu sonho e não ele no sonho de Amalfitano. E dizia-lhe: escuta as minhas palavras com atenção, camarada. Vou explicar-te qual é a terceira perna da mesa humana. Eu vou explicar-te. E depois deixa-me em paz. A vida é procura e oferta, ou oferta e procura, tudo se limita a isso, mas assim não se pode viver. É necessária uma terceira perna para que a mesa não caia nas lixeiras da História, que por sua vez está permanentemente a desmoronar-se nas lixeiras do vazio. Por isso toma nota. A equação é esta: oferta + procura + magia. E o que é a magia? Magia é épica e também é sexo, e bruma dionísiaca e jogo. E depois Yeltsin sentava-se na cratera ou latrina, mostrava a Amalfitano os dedos que lhe faltavam e falava da sua infância, e dos Urales, e da Sibéria, e de um tigre branco que errava pelos infinitos espaços nevados. Seguidamente tirava uma garrafa de vodka da algibeira e dizia:

– Creio que está na hora de beber um copinho.

2666, de Roberto Bolaño, pp. 267-268 (da edição portuguesa, publicada pela editora Quetzal)

> Confira o documentário Bolaño cercano:

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