Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 10.08.2009 10.08.2009

À deriva com Heitor Dhalia

PorCavi Borges
Fotos de divulgação

Desde o filme Casa de Alice não se via um elenco tãoafinado, com interpretações marcantes e dosagens certas de emoção e percepção. Oelenco e suas respectivas atuações são, disparados, o ponto alto do filme À deriva, terceiro longa-metragem docineasta carioca, criado no Recife, e radicado em São Paulo, Heitor Dhalia. Oelenco internacional, começando pelo francês Vicent Cassel (escritor) e seencerrando na californiana Camille Belle (amante de Cassel), contribui para estaafirmação, mas a estrela do filme é uma brasileira que responde pelo nome deLaura Neiva. Ela interpreta Filipa, 14 anos, a filha do casal Cassel e Débora Bloche é uma grata revelação. Uma atriz com potencial enorme. Ela conduz o filme, asnossas emoções e nos faz afogar com ela toda vez que mergulha em algumadescoberta. Laura Neiva se insere na categoria de jovens promessas do cinema,tais como Sue Lyon, a Lolita de Kubrick;Thora Birch, de Beleza Americana (dodiretor Sam Mendes); Liv Tyler, de BelezaRoubada (Bernardo Bertolucci); Isabelle Adjani, de Le Petit Bougnat (Bernard Toublanc-Michel) e, por fim, BrookeShields, de A Lagoa Azul (RandalKleiser).

O segundo ponto alto do filme aressaltar é a fotografia de Ricardo Della Rosa (de Casa de areia). A sua fotografia, aliada a um cenário paradisíaco,é primorosa. Cada plano é mais belo do que o anterior, e, como deve ser, ajudaa narrativa a avançar. Tudo é realmente lindo e maravilhoso, mas uma belafotografia apenas, como bem sabemos, não torna um filme imperdível ereferencial. O cenário faz lembrar Fernando de Noronha, mas não é. Tem um quede Mediterrâneo. Passeia pelos penhascos do pintor Caspar David Friedrich, claro, sem névoa e gelo. Noscréditos, temos a confirmação de que as locações eram mesmo em Búzios e Arraialdo Cabo. Mas o que leva um realizador autoral como Dhalia partir de uma praia parainiciar a elaboração de sua última obra? E ainda fazer questão de divulgar isso?Podemos pensar: depois de O cheiro do raloe sua estética do feio, seus planos fixos, a pouca grana e a produçãocooperativada, e as poucas locações, na sua maioria, interiores, ele resolveu nossurpreender agora com um visual de arrepiar, cada plano mais arrebatador do queo anterior, abuso de gruas e câmeras subaquáticas. Ao invés de tipos asquerosose maníacos; estampas saudáveis e humanas. Ao invés de mofo e ferrugem; praia epôr-do-sol. Ao invés de fedor; odor. Repetir fórmulas, jamais. Sai José RobertoEliezer, fotógrafo de Nina e O cheiro do ralo, e entra Della Rosa. Serealmente for essa a questão, é muito pouco, enquanto idéia estética, parasustentar um filme. 

Este tipo de raciocínio,inclusive, já foi utilizado recentemente e até com relativo sucesso. Podemos,inclusive, traçar paralelos. Podemos tentar entender as motivações estéticas deum realizador da mesma geração de Dhalia como Karim Aïnouz, por exemplo. Em Matame Satã, Aïnouz optou magistralmentepor uma câmera fechada, locações de interior e cenas noturnas. Claustrofóbico?Muito, mas totalmente pertinente ao personagem e a toda estética do filme.Perfeito. No filme seguinte, filmou O céude Sueli: diurno, aberto, muitas locações de exterior. O próprio conceitoembutido no título. Funcionou. No caso de Àderiva, a sensação que nos dá é de que a opção da beleza pela beleza é algoque se esvaziou em si, como se aquela locação fosse apenas um suporte, assimcomo a tela, a madeira, ou a simples parede servem de suporte para receber apigmentação e desaparecer imediatamente detrás da tintura.

Ilhas 

Ou seja, a questão chave de tudo estáno roteiro. Antes de continuar, no entanto, gostaria de fazer um pequeno parêntese.É fato que o Cinema Marginal se foi já há algum tempo com a morte de OzualdoCandeias, assim como o Cinema Novo virou história e o dito Cinema de Retomadanão passou de uma intenção, enquanto possibilidade de se tornar um movimentoque pensasse e elaborasse conceitos éticos e estéticos. O cinema brasileiropensante atual vive de ilhas: Karim Aïnouz aqui, Beto Brant ali, Cláudio Assisacolá. Kleber Mendonça chegando, Sérgio Machado pedindo passagem, Luís FernandoCarvalho de centroavante, enfim, penso que afora isso, e mais meia dúzia derealizadores da velha guarda, apenas as produções independentes têm apresentadouma maneira de fazer e pensar cinema que possa se aproximar do que entendemospor movimento. São novos diretores que se proliferam aos borbotões com seusfilmes de baixíssimo orçamento, locações únicas ou filmes de estrada e equipereduzida a quatro ou cinco pessoas, incluindo o elenco. Nesta esteira, podemoscitar alguns longas, tais como Ainda orangotangos,de Gustavo Spolidoro, A fuga da mulher gorila,de Felipe Bragança e Marina Meliande, Casade Sandro, de Gustavo Beck, Teste de elenco,de Ian SBF ou os longas dos gêmeos (citados por Eduardo Valente). Embora aindanão tenha força de movimento, nem muito menos nome – talvez se chame um diaMovimento do Cinema Barato, como pretenderam Marcelo Yuca e Julio Pecly – essesindependentes já têm mostras garantidas em festivais como Tiradentes, salas de cinemasespecíficas, como o Cine Glória, no Rio, e padrinhos e críticos com cacife degente grande, como Eduardo Valente e Kléber Eduardo. 

Outro dia uma pessoa do meiocinematográfico disse, durante uma reunião, que estas produções baratas eindependentes terão que se sustentar em cima de roteiros cada vez mais elaborados.Um roteiro que supra a carência de uma fotografia mais elaborada tecnicamente,por falta de recursos. Um roteiro que supra a impossibilidade de movimentoselaboradíssimos de câmera, com gruas, carrinhos ou mesmo tripés apropriados,que disfarce a deficiência do áudio e de uma produção possível e não ideal. Umroteiro que contenha em si a mágica de causar emoções a ferro frio, semnecessitar de muitos paramentos e penduricalhos, sem anestesia ou qualqueroutro tipo de subterfúgio. Um roteiro que sobreviva, inclusive, aos pseudo-atores.

Vale suspeitar que Heitor Dhaliatenha se descuidado do roteiro em função de uma produção com o padrão O2 dequalidade? Bem, vejamos. Uma família classe média alta vai passar as fériasnuma casa de praia. O pai é escritor e está terminando mais um romanceautobiográfico, no mesmo instante em que seu casamento se desmorona. Ele temuma amante belíssima e misteriosa. A mãe bebe feito um gambá e vive largada peloscantos ou caída pelo chão. O romance escrito é sobre um casal que está seseparando, óbvio. Nada criativo para quem, como diretor, delirou em Nina e conseguiu transformar uma bundaem obra de arte, em O cheiro do ralo.Tudo acontece, sempre, sob a ótica da filha mais velha, Filipa, uma moça vivendoa fase das descobertas sexuais. Engraçado foi o comentário de meu confessor, ocinéfilo Padre Eusébio: “Você não acha que este diretor abusa um pouco dos closesna bunda da adolescente Filipa, como antes já fizera em O cheiro do ralo? Não será obsessão?”.

 

Do Limite, de Mário Peixoto,à Lagoa azul, de Brooke Shields 

À deriva poderia render homenagens ao filme Limite, de Mário Peixoto, mas prefere mergulhar nas translúcidaságuas da Lagoa azul. Seria uma releitura,um remake livredo clássico romântico juvenil realizado em 1980? Aliás, em alguns momentos, setem a sensação de se estar assistindo uma bem cuidada e picante sessão datarde. O figurino de Alexandre Herchcovitch é menos egocêntrico e mais orgânicodo que, por exemplo, o figurino de Ocimar Versolato no filme A volta de Tieta, de Cacá Diegues. Ocomparativo é em função de ambos serem homens da moda, da alta-costura, e teremse envolvido com figurino para cinema. Neste caso, Herchcovitch é mais feliz ediscreto, não fica se exibindo para a película com soluções mirabolantes.

A questão chave do filme é: o queleva a menina Filipa de encontro ao sexo é a traição mútua dos pais. Mas, pouconos importa que o traidor seja o marido ou a esposa. É fraco o argumento de quea filha ninfeta precisa de decepções familiares para perder a virgindade. Éfraco, mas não chega a comprometer. Poderia inclusive ser um pequeno achado,não fosse tão decifrável desde o início. Para um roteiro que pretendesurpreender a cada 15 minutos, com pequenas reviravoltas e uma avalanche depistas falsas, acho que ele denuncia a perda da virgindade logo no primeirominuto e, no terceiro, entrega que o motivador serão as decepções familiares. Acada revelação, a ninfeta Filipa libera um naco de carne ao pretendente: boca,pescoço, seios, anca, pernas e por aí em diante.

 

Pistas falsas 

No entanto, as pistas falsasparecem ser o único ingrediente capaz de dar àquela massa de belas imagens umaliga mais consistente. Se esse filme fosse um pão seria pequeno por falta defermento e grande por excesso de farinha. Compreendemos farinha tudo aquilo queele tem de mais esmerado em sua produção, de mais irretocável em sua fotografia,de mais magistral em seu áudio, de mais afinado em seus atores e, por fim, demais paradisíaco em suas locações. Mas faltou fermento pra tudo isso crescer edar liga. Faltou roteiro. Para quem deu sinais claros de que optaria por umcinema de autor, Dhalia chutou o balde muito cedo. Não tem nada em À deriva que o diferencie de outrasgrandes produções nacionais, ditas comerciais, nem para mais nem para menos.

É um produto para se assistir umaúnica vez. Nada ali te convida a uma releitura. Nem mesmo o mar do nortefluminense, repito, tão lindamente fotografado. O que está à deriva ali é ocasamento dos pais da protagonista, e, claro, a própria Filipa. Mas a virada dahistória não se sustenta. O forte ficar fraco e o fraco ficar forte requer umatransição muito delicada. A água não sai de seu estado gelo e vira vapor semantes passar pelo líquido. Assim é a vida e a dramaturgia te cobra um preço xisao violar esta regra básica. O pai (Cassel) tentando roubar um beijo dedespedida da esposa (Bloch) é uma cena patética passível de ser revista pelodiretor e cortada para felicidade geral da nação. Para quem vivia bêbada pelochão, como a mãe, acamada, choramingando pelos cantos, uma simples revelação àfilha (e aos espectadores) não lhe dá o direito de se tornar, na cena seguinte,a mulher mais poderosa do mundo. Cadê a transição? Cadê o estágio líquido esagrado da pós-revelação? Um mergulho, uma brisa na ruiva cabeleira de DéboraBloch, um cigarro no batente da porta, um sacudir a poeira e dar a volta porcima. Qualquer coisa.

Alguém pode argumentar que Édipoperfura os olhos quando descobre a verdade. Tudo bem. Alguém pode argumentarque Filipa também perfura o hímen ao saber da traição materna. Mas, no caso deFilipa, ela já vinha perfurando simbolicamente o próprio hímen um pouco mais acada descoberta ao longo do filme. Mas a questão da falta de transição está especificamenteno pai e na mãe. Não acho que seja uma simples questão de interpretação. DéboraBloch e Vicent Cassel poderiam argumentar, espernear, é verdade, mas a decisãofinal é sempre do diretor e, no caso, roteirista. Falta, portanto, no roteiroescrito, uma transição mais aceitável para resolver a relação final do casal. Assimcomo Édipo, Felipa também se preparou ao longo da narrativa. Já sua mãe e seupai, não. Faltou, repito, uma cena transitória. Faltou praia, pois o que é apraia, cenário escolhido e determinante para o projeto, senão a ponte transitóriaentre o imenso e misterioso mundo das águas e o limitado mundo das grandesilhas terrestres? Entre o paraíso e o inferno sempre existirá o purgatório.Entre o branco e o preto, o cinza. Assim como o líquido une o sólido ao gasoso,a vigília cumpre o papel entre o sono e o despertar. Uma superprodução não poderia,a princípio, se descuidar de uma coisa dessas, de um preceito tão elementar,que é a mínima transição de personagens tão chaves para a trama. O prejuízo da nãoverossimilhança está no fato de a gente ser impelido, arrancado, a fórceps,mesmo não querendo, para fora da história. E aí, o que se pretendia pulo-do-gato,acaba se transformando numa frustrante pegadinha televisiva, deixando todosnós, espectadores, completamente à deriva.

> Assista ao trailer do filme

> Veja entrevista com o diretor e com as atrizes Débora Bloch e Laura Neiva

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