Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 18.12.2009 18.12.2009

A delicadeza de Tiê

Por Bruno Dorigatti
Fotos de Stefan Hess

> Assista à entrevista exclusiva com Tiê ao SaraivaConteúdo

Tiê é o nome de um pássaro. Significa também sabedoria emjaponês. “”Eu nunca ouvi o tiê cantando, mas eu sei que ele canta, porquetem várias músicas que falam sobre isso. Meu avô me deu uma vez um tiê-sangue,quando eu tinha 8 anos, e foi terrível a experiência. Porque, na gaiola, eleperde a cor vermelho-sangue em um mês. Me deu uma aflição aquele tiê na gaiola.Fui com a minha mãe até o Parque da Juréia [litoral sul de São Paulo] paralibertar o tiê. Uma aventura, com a gaiola na cabeça, os borrachudos nosatacando. Aí abre a gaiola, espera os outros tiês se aproximarem…”” 

Tiê também é o nome (e não o apelido) de uma jovem cantorapaulistana, nascida no bairro do Sumaré. Faz sentido. Cantora delicada, commúsicas singelas, canções muitas vezes sussurradas, e sem muito barulho, elavai se firmando no cenário musical e conquistando seu merecido espaço. 

Delicada também é sua voz, e, junto com a levada low-fi,dominada pela dupla violão e piano, suas músicas trazem arranjos incidentais eminimalistas que revelam um quê de romantismo. Em 2008, gravou e lançou Sweet Jardim (Tie/Warner Music) onde, além da levada folkromântica ao violão, Tiê também se arrisca no piano. Destaque para “Assinado eu”,“Chá verde” e “”Passarinho””, cuja letra, assim como nas demaismúsicas, tem forte verve autobiográfica. “Quando mamãe olhou pra mim, ela foi e pensou,que um nome de passarinho me encheria de amor. Mas passarinho, se não bate aasa logo pia, e eu, que tinha um nome diferente, já quis ser maria. Ah, como ébom voar.” Aliás, o disco, breve em seus 30 minutos cravados, que induz oouvinte a repeti-lo tão logo se encerra, é todo assim, uma conversa sussurradae alentadora ao pé do ouvido. 

Neta da atriz e crooner Vida Alves, protagonista do primeirobeijo na televisão, e filha da primeira vídeo jockey brasileira e tambémartista plástica, Tiê cresceu no universo artístico e sempre foi estimulada aexperimentar algum tipo de arte. Depois do balé, teve uma experiência comoatriz, aos 15 anos, em uma novela da finada TV Manchete, “”TocaiaGrande””, mas não gostou do ambiente esquisito, pesado, difícil. Nessaépoca, ela também modelava, experiência que ajudou no seu amadurecimento, aganhar logo o seu dinheiro, além de ter tido a possibilidade de conhecer oJapão.

Ao voltar da viagem, ficou com vitiligo, o que a levou aencerrar a carreira. Foi quando decidiu experimentar a canto. “Eu tinha umtimbre bom, mas não sabia cantar. Existe o talento também, mas sobretudo otreino. Qualquer coisa, a gente tem que treinar muito”, conta ela. A decisão dese dedicar ao canto veio em 1997, quando Tié ganhou o Fico (Festival InternoCultural do Colégio Objetivo). De lá para cá, 12 anos se passaram e “foi muitotreino para acertar as notinhas”, revela. Os instrumentos, ela só começaria atocar há um ano, por causa do disco. Antes disso, apesar da insegurança,continuou estudando e cantando em barezinhos e trabalhou com produção musical emNova York. 

Já de volta ao Brasil, abriu um brechó-bistrô ao lado daMTV, em São Paulo. Foi lá que conheceu as duas pessoas que mudaram a sua vida,Dudu Tsuda, integrante da banda Jumbo Electro, e Toquinho. “O Dudu aflorou o meulado autoral e o Toquinho foi meu curso profissionalizante. Fiquei dois anoscantando com ele. Foi nessa época que decidi aprender a tocar violão, senão iriadesistir. É mais difícil quando você não toca nada. Fiquei três meses em umintensivão de João Gilberto, aprendendo todas as notas, treinando, treinando, efoi quando eu conheci o Toquinho”, recorda. 

O músico foi almoçar no brechó-bistrô, e o garçom comentou que Tiê cantava. “Eu estava com um repertório de sambas antigos muito fresco na cabeça. E na hora ele pegou o violão no carro e a gente cantou  ‘Aos pés da Santa Cruz’, ‘Maria Joana’, ‘Camisa amarela’, ‘Nega do cabelo duro’. Ele a convidou para integrar a banda que o acompanha. Então, nos shows, ela começou a fazer um pout-pourri de sambas antigos e outras canções, bem tranqüilas também. 

Mas nem tudo foram flores. Tiê também passou pela conhecidaralação de cantar em Câmara de Deputados e churrascaria, sempre acompanhada porum amigo da faculdade, Demetrius Lulo. “A gente chegou a fazer lançamento deração na churrascaria. Uma loucura, eu não entendia. Os donos de pet shopanalisando a ração, as carnes passando, e eu cantando ‘Madalena, o meu peito percebeu’, hahaha. Enfim, era tãodivertido”, relembra Tiê, que por essa época começou a fazer jingles para a publicidade. Foi quando fechou o brechó e decidiurealmente viver da voz, não só da música, mas da voz, a qualquer custo. “Nãoqueria mais trabalhar com nada que não fosse isso. Porque sempre sentia quetirava um pouco do meu caminho.” A publicidade, por exemplo, ajudou a bancarseu primeiro disco, Sweet Jardim, quetraz canções em português, inglês e francês. “Queria ser locutora até o fim daminha vida. Ninguém vê a sua cara, você pode ir toda descabelada, faz trêsvezes e vai embora. É lindo”, enumera. 

A sonoridade econômica, ossilêncios, a delicadeza veio da sinceridade com que tudo deve foi feito. “O simples é mais rico. E dentro da minhacomposição, os acordes são todos naturais, as minhas músicas têm três, quatroacordes, não mais que isso. Eu não sou musicista, aprendi a tocar para comporas músicas do disco. Se eu colocar um super cara tocando violão e fazendo milacordes, destoa da letra e da intenção, acaba ficando cafona. Isso foi umasacada que o Plínio Profeta, o produtor do disco, me ajudou a ter”, conta Tiê. 

Ela se achava péssima aoviolão, hoje já se considera regular. “Só que eu sou muito cara de pau. E oPlínio resolveu manter isso, pois achou que destacaria muito mais a letra e aminha voz. Me mandou pra casa estudar, aprender a tocar e voltar pra gravar. Porquatro meses, estudava, passava as músicas o dia inteiro. Nesse momento, fuimuito disciplinada. Aprendi a tocar também um pouco de piano. Claro, aprendi obásico, não quero, de jeito nenhum, que achem que sou pianista, musicista”,reforça. 

Entre as músicas, a que elamais se afeiçoa é “Chá verde” (“”Eu,tentei evitar, liguei a tv e deitei no sofá. Desde que haja tempo prasonhar, e assuntos pra desenvolver, não é muito fácil desligar, me dá pena domeu chinês. Por ele eu passava o dia inteiro a meditar, bebendo chá verde eleme diz: fica feliz que vai funcionar (…)””), para qual chamou os amigos para cantar com ela, TulipaRuiz, Tatá Aeroplano, Thiago Pethit, Naná Rizzini e seu irmão Gianni Dias.Quando o disco ficou pronto, no final de 2008, TiÊ se questionou se deveria seexpor tanto assim, já que as composições são essencialmente biográficas. “Eufalei ‘vou’, era isso que procurei. E realmente consegui o resultado dessaprocura. Foi demais, não poderia ter sido melhor”, conclui Tiê, que aguarda para breve o nascimento de sua filha Liz.

Tiê, seus silêncios esussurros, é excelente para se ouvir no inverno, numa casa de campo, debaixo dacoberta com a cara metade. Mas também cai bem para aqueles que desejam apenasum alento, um sossego e uma paz nestes dias que correm em ritmo cada vez maisacelerados.

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