Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.07.2013 23.07.2013

A crônica nossa de cada dia

Por Maria Fernanda Moraes
 
O crítico literário Antonio Candido escreveu certa vez que a crônica não é um gênero maior. “Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse”. E remediou: “Graças a Deus. Porque sendo assim ela fica mais perto de nós”.
 
E quando ele diz “perto de nós”, refere-se ao sentido literal. É exatamente assim que funciona: você abre o jornal todo dia e parece que o escritor que fica ali, parado naquela esquina de sempre, puxa um papo com você, fala sobre o pão na chapa da padaria, do placar do jogo de ontem, sobre como as pessoas andam apressadas na rua. Tudo isso é matéria imprescindível da crônica.
 
Ben-Hur Demeneck, jornalista e cronista, costuma dizer que a crônica é anfíbia: fica entre o oceano da literatura e a terra firme do jornalismo. E pode circular pelos dois, sem problemas. “A crônica tem um tom confessional, de poder dizer coisas muito próximas da vida do autor. Nenhum assunto é menor para a crônica”. Outro fator de aproximação apontado pelo jornalista é a relação com a cidade, o encanto pela rua e pelos tipos que circulam por ela.
 
Mas não é de hoje que esse gênero é popular entre os leitores. Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga são todos exemplos de grandes escritores que se dedicaram a esse ofício.
 
E hoje também há muita gente boa publicando crônicas. Antonio Prata é um dos representantes da nova geração de cronistas que tem ganhado o público. “O Xico Sá é um exemplo de quem sabe o que está fazendo e que veio para ficar. Há também grandes figuras estabelecidas nas letras e no jornalismo que não deixam a peteca cair, como Ruy Castro, Ignácio Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Affonso Romano Sant´Anna”, elenca o jornalista.
 
Ben-Hur explica que ainda que a forma da crônica possa ser renovada, a alteração mais interessante em relação a como era publicada antes está em seu conteúdo, ao evidenciar as relações das pessoas entre si, delas com a cidade e, agora, delas com as máquinas. “Para começar, sumiu o tema ‘falta de assunto’, que era tradicional entre cronistas. O próprio leitor de crônica talvez queira um texto de fácil leitura, mas vai querer sempre ser surpreendido com algo bonito, inteligente. Se for atualizado, vai virar assunto de sua conversa”, explicou.
 
Há ainda alguns rincões da crônica, como na área dos esportes. O termo “crônica esportiva” é geralmente usado para uma narrativa cronológica de fatos de um jogo, mas apenas com o interesse de informar, dar outra perspectiva. Nada que se compare à crônica que fazia um Nelson Rodrigues, conforme lembra Ben-Hur. “Ele conseguia reelaborar aquele conteúdo, fazendo a sua arte com as palavras. Um exemplo é quando ele bate boca defendendo a decisão de anular um pênalti contra o Fluminense, o seu time. Ao ser confrontado com a prova em vídeo, ele responde com esta pérola: ‘Se o vídeo diz que foi pênalti, pior para o videoteipe. O videoteipe é burro’. Ainda que tenha sido numa mesa-redonda, esse é espírito da crônica. Ou melhor, isso, sim, daria uma crônica”.
 
O SaraivaConteúdo pediu dicas de leitura ao jornalista. Mas antes de sugerir autores, Ben-Hur fez uma ressalva preciosa: “Recomendo às pessoas lerem cronistas de diferentes cidades. E também mandarem cartas para os editores quando gostarem de um texto. O cronista vive coletando elogios, mas tendem a não ficarem documentados na redação. Quando posso, sempre leio pessoas que estão falando de suas cidades. Lembro de alguns cronistas especiais como Miguel Sanches Neto, que publicava na Gazeta do Povo e mora no Paraná. O romancista Cristóvão Tezza tem publicado crônicas no mesmo jornal. Em Santa Catarina tem também um bom movimento, figuras antológicas como Flávio José Cardozo e Regina Carvalho”.
 
Acompanhe as dicas: 
 
1. NA WEB
É interessante um projeto como o portal Vida Breve, que tem atualização diária dedicada apenas à crônica. E estamos falando de colaboradores como Humberto Werneck, organizador de livros de crônicas de Otto Lara Resende e biógrafo da geração de autores mineiros, para falar pouco.
 
Indico para qualquer leitor o Rubem Braga. Qualquer livro dele. Ele se tornou o principal nome da crônica. Eu gosto da poesia presente no seu texto, daquela sensação de algo raro diante de você. Quando o autor escreve personagens, percebemos quanto ele gostava de pessoas.
 
Carlos Drummond de Andrade dispensa apresentações. Ainda mais com um belo título como esse.
 
Aproveito para mencionar Paulo Mendes Campos, autor que está sendo relançado. É interessante a sua leitura diante de temas como morte, amor, desejo e vida. Não à toa, esse conjunto de textos foi chamado de “crônicas metafísicas”.
 
Livro reúne as melhores crônicas do velho Braga
João do Rio escrevia sobre o cotidiano do Rio de Janeiro
Para Gostar de Ler Crônicas tem diversos volumes
 
5. COLEÇÃO “PARA GOSTAR DE LER CRÔNICA”, DA EDITORA ÁTICA
Indico qualquer livro de crônicas dessa coleção, que reúne em cada volume crônicas de diversos autores. É um bom começo para o leitor.
 
Luis Fernando Veríssimo é divertidíssimo, esbanja criatividade, e toda a sua cultura é usada contra qualquer possibilidade de ser chato.
 
Quem quiser conhecer uma crônica de um Rio de Janeiro que se inspirava em Paris, mas era periferia do capitalismo, leia o João do Rio. Ele mostrou como a cidade procurava um refinamento, mas não apagava suas desigualdades. O autor faz um inventário de tipos.
 
Indico também as crônicas do uruguaio Eduardo Galeano. Em seus textos, há uma presença muito grande dos sonhos, das utopias. Nesse livro, o tema é o futebol, e ele se aproveita de seu olhar de repórter para recriar a realidade que não cabe na notícia.
 
Para quem gosta de crônicas bem-humoradas, Veríssimo é a indicação
Outra boa opção são as Crônicas de futebol: Eduardo Galeano
As crônicas de Paulo Mendes Campos falam sobre morte, amor, desejo e vida
 
 
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