Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 21.03.2012 21.03.2012

A cor, o tom e a temperatura do teatro paraense

Por Iveilyze Oliveira 
 
Quando o jornalista, ator e diretor Claudio Marinho, 38, chegou a São Paulo em 2006, teve uma ideia ousada e um grande desafio: criar um grupo de teatro que pudesse revelar a tradição cultural de Belém, sua cidade natal. Era o começo de uma trajetória de muitas emoções.
 
Desde a época em que se formou em Teatro pela Universidade Federal do Pará, Marinho é adepto do método “Fé Cênica”, de Constantin Stanislavski, que é a capacidade que o ator tem de convencer o público que os fatos fictícios são reais.
 
“Assim era o projeto da companhia. Eu acreditava em algo que ainda estava apenas no plano das ideias, mas era preciso querer fazer para materializar”, conta Marinho.
 
Em 2007, essa dinâmica inspirou o diretor a dar nome ao grupo mesmo sem ter selecionado os atores para o projeto. “Foi um começo difícil: primeiro, conhecer como funcionava o teatro em São Paulo e quebrar a imagem preconceituosa sobre o sotaque característico do norte. Depois, escolher os profissionais que pudessem se dedicar de corpo e alma à proposta”, enfatiza.
 
A primeira a integrar a Cia Fé Cênica foi a atriz paulista Viviane Bernard, 33, que atuou com Marinho na peça 'Agorafobia' de Antônio Netto, em 2006. Em seguida, também descoberto no ramo teatral, o ator paulistano Geraldo Machado, 45. “Me identifiquei com a seriedade do trabalho” diz Geraldo.
 
A Cia fez a primeira apresentação com a peça 'Fogo Cruel em Lua de Mel', do dramaturgo paraense Nazareno Tourinho, em 2007. “Foi um impulso forte e verdadeiro”, relembra Marinho. Essa montagem teve quatro temporadas em São Paulo durante dois anos.
 
A Arte do Espetáculo Regionalista
 
Claudio Marinho, fundador da Cia Fé Cênica
Crédito: Lenise Pinheiro
Após a primeira apresentação, a Cia Fé Cênica criou o projeto "Trilogia Cênica Paraense – um mergulho na dramaturgia produzida no Estado do Pará".
 
A trilogia propõe um diálogo dos autores amazônicos com a produção teatral paulistana, abordando questões existenciais nos gêneros da tragicomédia (aproximação entre a tragédia e comédia) e comédia dramática (drama abordado de forma engraçada).
Os atores consideram que as possibilidades em propor um diálogo produzido em Belém têm sido de fácil acesso. 
 
Para eles, tudo é regional, com temas que podem ser abordados em qualquer parte do mundo. “São Paulo oferece muitas alternativas culturais. A dificuldade é encontrar o canal certo pra atrair esse público e encontrar o espaço, divulgação e estrutura”, diz Marinho. Viviane pondera que, mesmo sendo um trabalho “de formiguinha”, é rara uma recepção apática.
 
Para Geraldo, é interessante analisar as diferenças de comportamento da plateia. “Em cenas cômicas, as pessoas não riam e, nas dramáticas, elas gargalhavam. Foi estranho no começo, mas percebemos que cada atitude depende da disposição do público”.
 
Encenaram peças dos autores paraenses Nazareno Tourinho ('Fogo Cruel em Lua de Mel' – 2007 a 2009 – participação da atriz Noedja Bacic), Saulo Sisnando ('As Ruminantes' – 2009) e Carlos Correia Santos ('A Fábula das Águas' – 2011 – primeira peça da Cia. Fé Cênica destinada ao público infantil, com direção de Rodrigo Palmieri) e a comédia dramática 'Perfídia Quase Perfeita'.
 
No momento, a crítica teatral avalia a proposta regionalista paraense de forma tímida. A Cia considera um processo importante, mas que o corpo crítico precisa de novas pessoas e um espaço maior nos veículos.
 
“Os críticos acompanhavam todo o processo de criação e eram mais respeitados até mesmo pelos grupos. São tantos espetáculos que é impossível se dedicarem apenas a determinada peça e estudar profundamente grupos como nós. Falta um olhar mais amplo”, analisa Marinho, que não considera a Cia alternativa.
 
“Muitos utilizam o nome de teatro alternativo, teatro-arte ou teatro de pesquisa pra gerar expectativa, pra atrair o público. Termos pra dizer que um trabalho é melhor que o outro. Todo grupo é de pesquisa, pois há uma busca pra chegar ao objeto, é uma linha que conduz o trabalho”, explica Geraldo.
 
Eles consideram que, independente da titulação que os grupos assumem, a questão da linguagem deve ser acessível e com um conteúdo que qualquer um entenda. Marinho gosta que o ator crie, ouse, mergulhe, entenda todas as possibilidades que o texto oferece e valorize suas origens. “É um processo que leva ao amadurecimento”, afirma.
 
Temporada com gosto de Tacacá
É assim que a Cia. Fé Cênica define o sabor da primeira temporada da comédia dramática 'Perfídia Quase Perfeita' em Belém, nos dias 23, 24 e 25 de março, no Centro Cultural SESC Boulevard.
 
A peça é ambientada em uma radionovela dos anos 1950. A trama joga com os conceitos de verdade e mentira, ilusão, questões éticas e o poder de manipulação entre Cezinha (Geraldo Machado) e Dagmar (Viviane Bernard).
Tacacá é um caldo salgado típico da região norte.
 
“Tacacá tem gosto de tacacá. Ir pra Belém mostrar nossa peça tem esse gosto especial, que só provando pode-se explicar. É uma conquista”, emociona-se Marinho.
 
A Cia Fé Cênica continuará a promover um diálogo da dramaturgia paraense com o público e garante que as próximas apresentações em São Paulo terão um gosto surpresa.
Viviane e Geraldo em cena 
Crédito: Lenise Pinheiro
 
Perfídia Quase Perfeita
Onde: Centro Cultural SESC Boulevard – Belém/Pará
Quando: Dias 23, 24 e 25 de março às 20h.
Quanto: Entrada franca
 
 
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