Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.09.2009 04.09.2009

A construção poética de uma trajetória

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva com Affonso Romano de Sant’anna ao SaraivaConteúdo 

Para o poeta Affonso Romano deSant’Anna, “a morte é uma construção que se faz em vida”. A sua produçãopoética e crítica – se encontram nos caminhos diversos de sua trajetória – fazemparte dessa tentativa de registrar as idiossincrasias da experiência humana. 

“A literatura, por exemplo, apoesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a próprianarração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobriraquele vazio. A impressão que o escritor tem – não sou só eu, qualquerescritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem – quando produzuma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor,só existe quando for transformada em palavras”. 

Um dos intelectuais mais atuantesdo Brasil, Romano de Sant’Anna se relaciona com o tempo buscando imprimir suavisão de mundo através de versos e textos ensaísticos, num constante estímuloao pensamento crítico. Confessando que estava cansado de “ler de joelhos”, opoeta sai à procura de um diálogo, em pé, com autores que pensam a sociedade atual. 

“Na universidade se lê tudo dejoelho o tempo todo: Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que oprofessor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essaspessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem queter uma redação própria”, afirma o autor de Oenigma vazio (Rocco, 2008), entre outros títulos de ensaios, crônicas epoesias. 

Diante de uma intensa relação como tempo, Affonso Romano de Sant’Anna relembra o início de sua carreira, quandoresolveu sair de Belo Horizonte, aos 17 anos, acompanhado do irmão mais velho,e levar alguns versos para avaliação do poeta Manuel Bandeira, no Rio deJaneiro. 

“Entrei lá e entreguei para ele ospoemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que não gostei até: “Olha, seeu não gostar eu digo, hein…”, relata o poeta que foi considerado pelocrítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no que serefere ao desenvolvimento de uma “linhagem poética”. 

A memória, cada vez mais presenteem sua vida, nos faz compreender que “cair no tempo é parar de deslizar nasuperfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noçãode tempo”, como declara o poeta.

 

Quandojovem você reuniu seus versos e levou ao poeta Manuel Bandeira. Como foi essahistória? 

Affonso Romano de Sant’Anna. Isso eramuito aquela ansiedade do jovem escritor – ele precisa de um aval, precisa decontato com um grande escritor, que diga de alguma maneira, uma palavra sobreseus escritos. Então, naquela coisa provinciana, meio adolescente, até umacerta meiguice, eu sai de Juiz de Fora e fui ao Rio de Janeiro. Tive umencontro com Drummond também, que até fiz uma crônica sobre isso, na mesmaocasião. E com o Bandeira, foi uma coisa muito meiga ir ao apartamento dele, o“poetão” estava lá de robe, fazendo um café num canto, conversando com umapessoa. Fui com meu irmão mais velho, que era uma espécie guardião… 

Você tinha 17 anos? 

Romano de Sant’Anna. Tinha 17anos, com a audácia dos 17 anos. Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Eledizendo, de uma maneira muito seca, que eu não gostei: “Olha, se eu não gostareu digo, hein…” Eu pensei comigo, na minha vaidade de adolescente: “Claro queele vai gostar, vai cair de quatro”. Na verdade, passado alguns dias, eu acheique ele tinha se esquecido de me responder. Daqui a pouco, chegou uma carta,uma letra bonitinha e bem feita, envelope de seda… Eu abri, levei para quartopara ler aquela coisa, o nome dele como remetente. Papel de seda. Começavaassim: “Achei muito ruins os teus versos”. [risos] Foi muito engraçado porqueele dizia “gostei de uns poemas assim e tal”, e copiou com a mão uns versos queele tinha gostado. Que era até de um poema que depois reaproveitei e publiqueimais tarde, um poema que tinha tudo a ver com a circunstância. Imagina. O poemase chamava “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Aquela coisa, você com17 anos, imaginando quando tiver 50, 60, 70 anos quanto teria escrito…Naquele tempo eu escrevia muito. 

Qual foi a importância dessa crítica doBandeira? 

Romano de Sant’Anna. Foifundamental. Porque eu já era o maior poeta da minha casa. Eu já era o maiorpoeta da minha rua. Eu já era o maior poeta do meu bairro. Eu já era o jovemtalento da minha cidade. Então, eu precisava que alguém me dissesse a verdade.Não bastava essa coisa afetiva ou familiar, dos amigos… E um poeta te dizer:“Olha você vai ter que aprender, rapaz. Algumas coisas têm que ser devagar. Temtalento e tal, mas vamos lá…” Eu gostei muito, não fiquei chateado, acheiaquilo um grande estímulo.

Você sempre quis ser poeta? 

Romanode Sant’Anna. Eu comecei meio sem saber o que eu estava fazendo,escrevendo umas coisas… E como eu tive a coragem também de publicar meustextos em jornal, aos 16/17 anos, fui abrindo caminho… 

Como você lida com a relação da memória em suaprodução poética?

Romano de Sant’Anna. A memória estáse tornando mais presente de uns tempos para cá. Porque você quando se é jovemestá envolvido com o presente e pelo futuro, o passado é uma aquisição, opassado é uma conquista. Eu costumo dizer, quem tem até 25 anos vive no espaço.Você começa a viver no tempo depois dos 30. Cair no tempo é parar de deslizarna superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da próprianoção de tempo. Enquanto o indivíduo não descobre que ele é um ser temporal,portanto sujeito à morte, e que as coisas são precárias, ele não está vivendo,está deslizando por aí. A literatura, no meu caso, é um aprofundamento dessaquestão do tempo, uma bifurcação que eu me encontro com o amor e a morte. 

Comolidar com o amor, a morte e o passar do tempo? 

Romanode Sant’Anna. É uma relação progressiva nos dois sentidos. Euacho que você tem que construir a sua morte, não pode deixar para pensar namorte depois de morto. A morte é uma construção que se faz em vida, a morte fazparte da vida. A menos, que você morra num desastre, num acidente, com umadoença de repente… Mas mesmo assim é uma construção, no sentido que você estároubando a destruição com uma certa construção. A literatura, por exemplo, apoesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a próprianarração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobriraquele vazio. A impressão que o escritor tem – não sou só eu, qualquerescritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem – quando produzuma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor,só existe quando for transformada em palavras. O que você não registrou existeimponderavelmente, egoisticamente, na sua cabeça, na sua memória. O que vocêregistrou é a sua vida concreta e pública. E literatura é isso, sua expressãoverbal tornada de utilidade pública. 

Alémda produção poética, sua produção crítica é bastante intensa. Há alguma divisãonesses trabalhos? 

Romanode Sant’Anna. É meio misturado, sabia? Na minha poesia, porexemplo, tem uma face muito crítica, ela é até ensaística. Eu me lembro de umlivro que publiquei nos anos 60 para 70, um livro chamado Poesia sobre poesia, onde os poemas são ensaios, comentários sobreprodução patética da poesia do meu tempo. Então, essa vizinhança existe. Porexemplo, tenho ensaios sobre a interpretação da obra da Clarice onde eu useiuma estratégia, que acho muito sedutora e resultou muito bem, comecei aescrever usando a linguagem, parafraseando um dos contos dela. A maneira maiscorreta, digamos, de entrar na obra do autor, dentro da linguagem dele. Isso eutenho feito de diversas maneiras no ensaio. 

Como Drummond, por exemplo… 

Romanode Sant’Anna. O Drummond tem muito disso, mas tem uns ensaios,sobre Jorge Amado e outros, em que adotei essa estratégia intencionalmente. Etêm outros ensaios que são mais clássicos. Nesse último livro, Oenigma vazio (Rocco, 2008), que é um comentário crítico sobre o malentendido da arte contemporânea, eu entrei nos textos de Octavio Paz, RolandBarthes, Jacques Derrida, Focault, Lacan… Habitar esses textos para ver ascontradições desses textos. Eu sempre digo: Trata-se de não ler esses autoresde joelho. Eu cansei de ler autores de joelho. 

Vocêjá leu muitos autores de joelho? 

Romanode Sant’Anna. Na universidade se lê tudo de joelho o tempo todo:[Walter] Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que oprofessor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essaspessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem queter uma redação própria. 

Háquem utilize a vida como resultado final de um livro, sem trabalhar alinguagem… 

Romanode Sant’Anna. Nós vemos isso na Flip. Para falar a verdade, essacoisa do MárioBellatin, dessa outra Sophie Calle, evários personagens que perambulam pela Flip, pertence a um gênero, que foicriado pela pós-modernidade, onde não se sabe mais o que é literatura e o que éespetáculo. É um gênero, se deve analisar isso, produto da época. É bom pensarcriticamente sobre isso, se você tirar a parte biográfica, espetacular, fica otexto. Será que o texto resiste? Ele tem autonomia para resistir? Você pega oBellatin, que estava com uma falsa mão: um gancho, um falo, ou umvibrador…  Isso é a notícia. As pessoasvão assistir porque ele fez uma performance de tal ordem, a biografia. Aspessoas vão atrás do supérfluo para chegar à literatura. Alguém hoje meperguntava: “Você acha que quando Fernando Pessoa escrevia plantava bananeiras,botava roupas, fazia muito barulho? Não. Ele escrevia em silêncio. Drummondescrevia em silêncio. Quando eu digo que essas manifestações são uma questão deépoca, não estou censurando, não. Estou tentando colocar isso no devido lugar.Um dos problemas da chamada sociedade atual e contemporânea é que as pessoasnão têm mais discernimento de estabelecer categorias. Não significa que ascoisas tenham lugar fixo, mas as coisas pertencem a tempos e espaços diversos.As coisas não se equivalem: A não é igual a B, uma banana não é uma laranja…Há que estabelecer categorias para entender o sistema. Uma das coisas maissimbólicas da nossa época diz respeito à famosa Teoria do Caos. A físicadescobriu nos anos 70 que o caos não era caótico, o caos tinha uma estrutura.Um cidadão determinado chegou a fazer uma equação do caos, o caos pode serresumido a uma fórmula. Ao se perceber que o caos tem uma estrutura, um certosentido, você começa a ver as coisas com mais clareza. O analista, o teórico, oartista é o indivíduo que tenta entender o caos. Alguns tentam ordenar o caos.O artista, eu enquanto poeta, ordeno o caos metaforicamente, através demetáforas. O cientista através de fórmulas. O analista através do texto e docontexto. O nosso desafio é enfrentar os enigmas, por isso eu fiz esse livro, Oenigma vazio (Rocco, 2008). Há enigmas que são cheios, o enigma deÉdipo era um enigma cheio. Estava lá a Esfinge na entrada da cidade, o Édipochegou, como chegaram outras pessoas, a Esfinge fazia uma pergunta. Quem sabiaresponder a Esfinge deixava passar, quem não sabia a Esfinge comia. Mas o enigmatinha um significado. Hoje, em nossa sociedade, têm uns enigmas que nãosignificam nada. Ou seja, são falsos enigmas, pseudo-enigmas. 

Porexemplo? 

Romanode Sant’Anna. Por exemplo: a nossa sociedade cultua muito aaparência, a imagem. E a maioria das pessoas é conduzida pela aparência, pelaimagem. O que seria “conteúdo”, interior, estrutura, passa a não ter nenhumaimportância. Não significa que a aparência não tenha nenhuma importância. Masjá diziam os filósofos, na esteira de Heidegger, por exemplo, que o princípiomínimo de sabedoria é você entender o jogo entre a aparência e essência. Todasas coisas que existem aparentam, tem aparência. Mas as coisas são mais do que asimples aparência que elas têm. A sociedade que nós temos hoje está levando aspessoas ficarem presas no aspecto, no sentido “aspectual” da coisa. Elas sesentem confusas, lêem jornais e não entendem o que está acontecendo. É umatempestade de informações. Ou seja, ler o mundo não é uma tarefa fácil, não. 

Oque você diria para um jovem de 17 anos que o procurasse com o original de umlivro? O que precisa para ser um autor? 

Romanode Sant’Anna. Você sabe que isso até acontece? Volta e meiaaparece um com alguma crônica que escrevi. “Olha eu li essa sua crônica…”Eles pensam que sou o Manuel Bandeira e tentam reproduzir o ritual. [risos] Eudiria uma coisa muito simples: Primeiro, se você quer ser escritor, tem queler. Se você não for leitor não pode ser escritor. A relação leitor/escritor éuma relação auto-acumulativa. Borges é um exemplo disso: escritor/leitor.Machado era um escritor/leitor. Depois, o jovem tem colocar na cabeça oseguinte: essa é uma relação em longo prazo. Nem todo mundo nasce pronto. Nemtodo mundo é Rimbaud, faz o essencial. A corrida em longo prazo. Eu tive várioscolegas que começaram comigo na literatura e tinham um talento incrível, masnão deram em nada. Entra outro problema: você tem que se estruturar tambémpsicologicamente. O Allen Ginsberg tem aquele célebre poema: “Eu vi os melhorespoetas da minha geração se perderem” [“Eu vi os expoentes de minha geraçãodestruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”]. É necessárioaté um certo discernimento entre esse negócio da aparência e da essência. Asociedade te chama para um brilho fácil. Se eu quiser tirar a roupa, em Paraty,vai fazer mais sucesso do que publicar um livro.

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