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A complicada história dos mais de 70 anos do Capitão América

Por Marcelo Rafael
 
[MATÉRIA ATUALIZADA EM 16/04/2014]
 
O envelhecimento e a morte são questões delicadas no mundo real. No universo das HQs, especialmente nas de super-heróis, algumas vezes, o tempo passa e a morte chega para alguns poucos. Mas, “vira e mexe”, é possível voltar dos mortos ou refrear (e muito) o envelhecimento. Como no caso do Capitão América, que estreia seu segundo filme solo pelos estúdios da Marvel.
Quem acompanhou os longas (Capitão América – O Primeiro Vingador e Os Vingadores) ou sabe muito pouco sobre gibis de super-heróis sabe que Steve Rogers é um militar do passado que recebeu o soro do supersoldado e que foi “trazido” ao nosso presente.
Nas HQs do campeão dos EUA, no entanto, a história não é tão simples assim. Vários outros homens vestiram o traje da bandeira norte-americana. Entre eles, o personagem-título da nova produção, O Soldado Invernal.
Na cronologia atual da Marvel Comics, Steve Rogers acabou sendo congelado acidentalmente durante a II Guerra Mundial, foi descongelado (também por acidente) pelo herói Namor, participou do início dos Vingadores… foi morto… ressurgiu… e retomou o traje da bandeira dos EUA.
Para entender melhor esse imbróglio, é preciso mexer com o tempo, voltando atrás na História. Na nossa, da vida real, e na das HQs.
LÁ NO PASSADO
Em 1941, quando o Capitão América foi criado, alguns meses antes do ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor (estopim da entrada dos EUA na II Guerra), havia um boom de super-heróis de todos os tipos. Como “Sentinela da Liberdade”, trajando a bandeira de seu país e inclusive socando Adolph Hitler, Steve Rogers fez sucesso como o Capitão América.
 
O fato de ter dado uns sopapos em Hitler e ainda estar vivo até hoje é uma das marcas do Capitão, um herói deslocado no tempo. Isso também é abordado no filme
Nessa época, era comum também, por questões de identificação com o público, que os heróis tivessem um parceiro mirim (conhecido pela palavra “sidekick”). O Batman tinha o Robin; o Arqueiro Verde, o Ricardito; o Aquaman, o Aqualad; e até o Tocha Humana original (o robô, não o que aparece no filme Quarteto Fantástico) vivia às voltas com um moleque chamado Centelha.
O de Rogers era James Buchanan Barnes, mais conhecido como Bucky, e que surgiu logo no 1º número de Captain America (1941). “[Era] aquilo que dava mais humanidade a ele e fazia com que as histórias ficassem mais atrativas para as crianças”, conta Jota Silvestre, jornalista, roteirista de HQs e editor do blog Papo de Quadrinho.
Com o fim da II Guerra, no entanto, o gênero de super-heróis decaiu. “Muitas revistas foram canceladas. A do Capitão América foi uma das canceladas sem mais nem menos”, explica Silvestre.
Uma breve tentativa de trazer de volta o brilho dos personagens dos anos 1940 foi feita na década de 1950, mas sem sucesso. Até que, em 1964, Stan Lee resolveu criar os Vingadores e inserir o Sentinela da Liberdade na equipe.
Foi Lee quem bolou a tal história do congelamento, descongelamento e inserção nos Vingadores. A suspensão das histórias em 1940 não trazia nada disso, tendo sido abrupta. “Ele [Lee] trouxe o Capitão de volta e criou o que a gente chama de ‘retcon’: ele foi lá no passado, mexeu na cronologia e recriou o passado do personagem”, conta Silvestre.
Aquele Capitão América que agia com Bucky, na revista efêmera dos anos 1950, foi levado em conta e, posteriormente, criaram-se outros “retcons” para explicar quem era o cara que se passava pelo Sentinela enquanto Steve Rogers estava congelado.
Mas e o menino Bucky? Bom, esse havia morrido mesmo, assim como o Tio Ben, de Homem Aranha: para nunca mais voltar. “Isso aumentou a carga dramática do personagem. Em muitas das histórias dele nos Vingadores, ele tinha essa lembrança que o amigo dele morreu. Ele se sentia meio culpado”, explica Silvestre.
 
Bucky e Centelha ao lado do Capitão, Tocha Humana e Namor nos anos 1940, com um boom de parceiros mirins
ENQUANTO ISSO, NO PRESENTE…
Isso até os anos 2000… quando Ed Brubaker assumiu os roteiros de Capitão América. E, assim como outros, Bucky “voltou dos mortos”.
Brubaker transformou Bucky no Soldado Invernal, em uma história elogiada por fãs e especialistas e vertida agora para a telona. “Eu não gosto de personagem que fica voltando à vida toda hora. Parece enganação com o leitor. Mas a saga do Soldado Invernal foi tão bem escrita… Me convenceu. Do tipo: ‘Nossa, é possível!’”, conta Daniel Nacarato, 30 anos, “marvete” aficionado desde os 14.
Segundo Silvestre, que já viu o filme, a história também está bem contada na telona. “Quem não está nos gibis e vai hoje para o cinema vai entender muito bem o que aconteceu. A pessoa não se perde e, se for para os quadrinhos, não tem problema”, afirma. “Está muito bem resolvido”, finaliza.
Nacarato, que ainda vai ver o longa, não concorda. “A Marvel lança os filmes porque ela quer chamar mais gente para ler os seus gibis; ela é uma indústria de quadrinhos, não de filmes. Só que uma pessoa que vai ler Capitão América hoje porque foi ontem assistir ao filme não vai entender nada!”, afirma.
Esse é um problema recorrente quando os quadrinhos transpõem mídias. E ainda mais quando se trata de uma história tão imbricada como a de Steve Rogers e Bucky. “A pessoa fica com aquela ilusão de que o personagem tem o mesmo visual, as mesmas características psicológicas que viu no filme e, quando vai ler o gibi, não é assim. Às vezes, não é nada assim”, diz Nacarato.
Um exemplo simples disso é o uniforme. Em sua 3ª produção como Capitão, já é o 3º uniforme usado pelo ator Chris Evans.
“Quem começa a ler gibi tem que ter muita disposição para ir para trás, para ler um pouco do que já aconteceu”, comenta Nacarato, que correu atrás de HQs antigas e hoje possui a coleção quase completa do que foi publicado sobre o Capitão no Brasil.
“Para um personagem que foi criado na década de 1940, que depois volta na década de 1960 e está em pé até hoje… Como todos os personagens da Marvel e da DC… Não dá para esperar uma cronologia coerente”, afirma o fã.
Já Jota tem outra opinião: “Se o leitor for lá atrás e vir as histórias dos anos 1940, é claro que vai ter um choque, mas no quadrinho atual não tem problema nenhum”.
Tanto para especialistas quanto para fãs, o longa tem uma função: entreter. “Minha expectativa para o filme é me divertir e ver como eles vão resolver em 2 horas toda a questão do Bucky”, conta Nacarato.
 
Soldado Invernal
 
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