Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 30.04.2013 30.04.2013

A cidade de Berlim como inspiração na música

Por Andréia Martins
 
A capital alemã carrega uma vibração única. No passado, depois da efervescência cultural da República de Weimar, Berlim enfrentou duas guerras e viu um muro dividir a cidade em duas partes.
 
Hoje, suas ruas e bairros preservam referências históricas em todo lugar, mas o passado de conflitos está muito longe.
 
A cidade é uma referência cultural na Europa e se tornou inspiração para muitos músicos estrangeiros, que encontram nela o cenário ideal para criar.
O cantor David Bowie é um desses. Não à toa, este ano ele escolheu homenagear Berlim em seu mais recente disco. “Where Are We Now” (veja o clipe abaixo), primeiro single de seu novo álbum, The Next Day, evoca as memórias do cantor num clima de nostalgia.

Bowie morou na cidade alemã entre 1976 e 1979 e, nesse período, gravou três discos, Low, Heroes e Lodger, produzidos por Brian Eno e conhecidos como a trilogia de Berlim. As músicas beberam na fonte do que era popular por lá naquele momento: o pós-punk, a música industrial e a eletrônica, com forte influência do Kraftwerk. Em 1982, Bowie gravaria outro disco na cidade, Baal.

Sua ida para Berlim teve a ver com o interesse pela história e pela música locais, bem como para dar um tempo da badalação, já que estava vivendo um período crítico em relação às drogas. Sua passagem por Berlim, na mesma época em que o cantor Iggy Pop esteve por lá, rendeu à cidade um novo roteiro turístico: Berlin Bowie Walk, um tour pelos lugares que o cantor costumava visitar.
Além disso, um filme sobre o período de Iggy e Bowie na cidade durante os anos 70 já está em fase de produção. Com direção de Gabriel Range, o provável título do trabalho é Lust For Life, mesmo nome do álbum que Iggy lançou em 1977.
BERLIM: ANTÍDOTO CONTRA O BLOQUEIO CRIATIVO
Quem também buscou refúgio na capital alemã foram os irlandeses do U2. A banda passava por um completo bloqueio criativo no final dos anos 80, depois do sucesso do disco The Joshua Tree, que atingiu o topo das paradas nos Estados Unidos. Depois de cambalearem de um estúdio para outro, a banda arrumou as malas e foi para o Hansa Studios, em Berlim.
 
Cena do documentário From the Sky Down com o U2 retornando ao Hansa Studio, em Berlim
 
Era um período da reunificação alemã, e Bono e The Edge queriam novos ares para a sonoridade da banda, enquanto o baterista Larry Mullen Jr. e o baixista Adam Clayton queriam seguir na linha do disco anterior. 
A banda quase acabou. Foram salvos por uma sessão improvisada que resultaria na música “One”, um dos carros-chefes do futuro disco, Achtung Baby. A cena foi registrada no documentário From the Sky Down, lançado pela banda em 2012. Com a inspiração de volta, o grupo retornou a Dublin para gravar todo o álbum.
Entre as outras bandas que também gravaram no lendário estúdio estão o Depeche Mode, Nick Cave and the Bad Seeds, Marillion, Siouxsie and the Banshees, Snow Patrol, Supergrass, R.E.M. e a cantora KT Tunstall.
VIDEOCLIPES
Passada a crise de inspiração, o U2 voltaria a Berlim para gravar o clipe de “Stay (Faraway, So Close)”, do disco seguinte, Zooropa. Dirigido por Win Wenders, o vídeo foi gravado em três dias e mescla cenas de um filme do diretor e da banda atuando com anjos da guarda de seus instrumentos. Além disso, a produção faz um belo tour pela cidade, mostrando os anjos do monumento Coluna de Vitória.
Os anjos de Berlim voltariam a “figurar” em outro videoclipe, desta vez da cantora Alanis Morissette, para a música “Guardian” (assista abaixo), de seu último disco, Havoc. O clipe traz a cantora usando asas e, segundo a própria Alanis, é uma homenagem ao filme Asas do Desejo, de Wenders, sobre os anjos ”vigiando” a cidade.
“Morei em Berlim por três anos quando mais jovem, e acho que esse vídeo é uma extensão do significado da música, da relação entre ser um guardião e ser pai e mãe”, disse ela em uma entrevista ao SaraivaConteúdo em 2012.

UM CASAL EM BERLIM

Lou Reed não foi a Berlim, mas criou um de seus principais discos inspirado na cidade. Berlin, de 1973, é o terceiro álbum solo de Reed, um dos melhores quando se trata de um trabalho conceitual. A cidade (e o muro) serve de pano de fundo para as histórias de um casal de namorados em crise, contadas em letras que falam sobre drogas, depressão, prostituição e violência.
 
A capa de Berlin, disco que Lou Reed lançou em 1973
 
Músicas como “Sad Song”, “Lady Day” e “Caroline Says II” refletem o cotidiano dos grandes centros urbanos, da marginalidade, do caos. No entanto, quando foi lançado, o disco foi um fracasso de vendas, e Reed precisou esperar décadas para o álbum ser reconhecido como um de seus principais trabalhos. Em 2007, foi homenageado com o documentário Lou Reed’s Berlin, dirigido por Julian Schnabel.
 
 
 
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