Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 31.01.2011 31.01.2011

A canção popular no Brasil

   Em foto na casa de Vinicius de Moraes, em 1965, encontro histórico de nomes seminais da música brasileira, como Braguinha,
   Zé Ketti, Tom Jobim, Paulinho da Vila, Caetano Veloso, Deodato, Torquato Neto e Chico Buarque, entre outros

   Por Leonardo Davino*
   Foto: Reprodução 

Aprofessora de antropologia Santuza Cambraia Naves tem contribuídosignificativamente para os estudos e pesquisas sobre a canção popular no Brasil:seu maior interesse e motivo de investigação e de escrita. Em seus títulos anteriores– O violão azul: modernismo e músicapopular (Editora da FGV, 1998), Dabossa nova à tropicália (Zahar, 2001), AMPB em discussão: entrevistas (Editora da UFMG) e Velô (Língua Geral, 2009), entre outros, Santuza já afirmava suacompetência intelectual, distante do ranço academicista, para ensaiar sobre um assuntotão caro à grande número de leitores e tão rico em possibilidades deabordagens, mas, ao mesmo tempo já tão desgastado pela mesmice metodológica e deenfoque. Porém, em seu mais recente livro – Cançãopopular no Brasil (Civilização Brasileira, 2010) – questões nodais do tema sãoalinhavadas e confrontadas por uma tese norteadora: a categoria da “cançãocrítica”. 

O títulodo livro que, a princípio, parece pretensioso diante da grandiloquência doobjeto e do pequeno volume que o leitor tem nas mãos, ganha surpreendentes sentidos,ao longo da leitura, pela verve aguda e acessível das argumentações. Longe depretender recontar a história,Canção popular no Brasil estabelece uma genealogia da canção a partir do recorteda autora. No livro interessa certo “componente crítico” desenvolvido no interiorda canção popular que é veiculada através da indústria fonográfica e dos meiosde comunicação de massa. 

Munidadeste seu dispositivo metodológico, Santuza caminha junto ao objeto: no chão dobarracão de zinco sem telhado. Ou seja, sem (pré)conceitos, deixando a cançãodizer sobre si; permitindo que superfície e profundidade tenham o mesmo pesopara a conclusão (sempre parcial) do empreendimento. Importa destacar que jánas primeiras páginas do livro a autora – generosa – mune seu leitor comconceitos dos mais respeitados pensadores sobre canção no Brasil. Com maestriae linguagem acessível, ela entrega núcleos duros de teorias complexas:justapondo Mário de Andrade, José Ramos Tinhorão, Augusto de Campos, Luiz Tatite José Miguel Wisnik, entre outros, com o honesto e claro objetivo de iluminar,não apenas ao leitor, mas a si: à sua reflexão. 

Ao focarem um aspecto da canção, Santuza promove um jogo com as forças teóricas,descentrando qualquer suposta visão de história universal e apontando novas perspectivas.Não pretende responder, mas suspender o juízo de perguntas, tais como: acanção, como a conhecemos, está morrendo? Como não poderia deixar de ser, seuconhecimento de Antropologia atravessa todos os argumentos, acrescentando rigore flexibilidade à tese desenvolvida. Santuza sabe que a história não nascepronta, como tenta mostrar certo didatismo, por isso não trabalha sobre apureza, nem sobre a solenidade dos acontecimentos. A autora faz uso de datasapenas como recurso para situar melhor no tempo gestos cancionais que circulame reincidem no Brasil: espaço das fronteiras borradas entre um período e outroda nossa “grandeza épica de um povo em formação”: tradição como novidade. 

Mesmoquando defende que a “canção crítica”, sua chave de leitura, tem seuaparecimento marcado no final dos anos 1950, com a profusão dos comentários dosaspectos da vida dentro das letras, destacando a bossa nova e o surgimentodaquilo que a autora chama de “artista intelectual”, não há o esquecimento dasmarchinhas, verdadeiras canções reflexivas, nem de seus antecedentes. Santuzavê tanto nos artistas oriundos das camadas populares, quanto nos artistas da bossanova, o mesmo desejo de complexificação do país. Aliás, aqui talvez resida aimportância maior do livro: não se limitar ao período bossa nova e posteriores.Ao contrário do que acontece na maioria dos discursos acadêmicos, que usa talperíodo como marco definitivo de evolução e modernidade, e apaga a beleza doque aconteceu antes de seu advento, usando tal beleza como mero elemento(inferior) comparativo, Santuza agrega à sua genealogia da canção popular osvários eixos significativos de nosso amplo percurso crítico e cultural.

Obviamentecada momento exige determinado investimento do artista. Os apelos externos mudamcom o tempo e precisam ser captados e traduzidos, como por exemplo a urgênciada “canção politizada” dos anos 1960, com as “informações políticas e culturaisde um momento marcado pela busca de igualitarismo social, de liberdade políticae pelo sentimento de brasilidade”. 

O livro Canção popular no Brasil observa acircularidade do processo coletivo de composição: do lundu (que é dança e écanto) ao rap; pontua a penetração social e a criação imagética do rádio;analisa a revolução engendrada pela televisão; pinça as diferentes performances(jeito de corpo além da voz) dos artistas e suas ressonâncias no comportamentoda sociedade; e ilumina questões sobre a segmentação da canção e sobre os novossuportes técnicos. Com sua construção de uma genealogia afetiva que preserva aprofundidade dos temas, Canção popular no Brasil é mais um livro da Coleção Contemporânea (Civilização Brasileira) e jásai como peça obrigatória na estante de todo pesquisador e/ou amante de cançãopopular: aquela (“submúsica”, como Mário de Andrade definiu, ou não) que tocano rádio, no rádio do nosso coração brasileiro e suplanta nossas necessidadestropicais.

* Publicado originalmente n’ O Globo. Leonardo Davino é mestre em Literatura Brasileira com a pesquisa sobre Canção eTeoria da Literatura e autor do projeto/blog 365 Canções


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