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A brasilidade rítmica das mulheres instrumentistas

Por Iveilyze Oliveira
 
Em matéria de música, existe povo mais animado que o brasileiro? O país é conhecido pelos seus ritmos envolventes, músicos talentosos e instrumentos variados.
 
“O estilo musical brasileiro é pulsante e reconhecido especialmente através do samba, mas não podemos esquecer dos instrumentos que estruturam essas apresentações e que fazem parte do nosso folclore. Somos repletos de uma musicalidade tropical e com profissionais que executam com técnica essa brasilidade”, explica Ana Barioni, jornalista e pesquisadora musical pela Universidade de São Paulo.
 

Cada região do Brasil possui ritmos musicais próprios, representados por instrumentos típicos. Além disso, há uma participação cada vez maior de mulheres nas comunidades em que vivem.

 
Instrumentistas que executam um trabalho de vocação, com aperfeiçoamento e com o objetivo principal de dialogar com o público e contar a história de um povo. 
 
O INSTRUMENTO
 
Transmitir na música um sentimentalismo verdadeiro, uma linguagem com elementos regionais e temáticas próprias, não é tarefa realizada do dia para noite. São necessários anos de estudo e vivência diária com o instrumento, principalmente quando o foco é mostrar com técnica a sofisticação da música.
 
É o caso das instrumentistas que conversaram com o SaraivaConteúdo para falar sobre suas vocações. Ilcéi Mirian traz do samba paulista o ritmo do cavaquinho; Nilze Carvalho mostra nas noites cariocas o chorinho do bandolim; já a curitibana Grace Filipak Torres se apresenta com o piano, anulando a ideia de que é um instrumento apenas para eventos eruditos.
 

Para Ana Barioni, infelizmente, poucas são as mulheres que ficam em evidência como instrumentistas, mas não por falta de talento. “Os nomes aqui citados são interessantes, pois cada uma dessas instrumentistas possui uma estética peculiar, que só acrescenta em nossa atual história musical”, diz a jornalista que, no momento, pesquisa para uma revista paulistana os ditos populares do Brasil representados na música.

 
A cavaquinista Ilcéi foi acostumada desde criança a ouvir um seleto repertório nos bailinhos na casa da avó. Essa paulista de Campinas fez vários shows temáticos, como os tributos a Adoniran Barbosa e Clara Nunes, além de lançar os discos Samba de Batom (2002) e Minha Identidade (2010). Não abandona por nenhum segundo o fiel companheiro, o cavaquinho, instrumento que é utilizado principalmente no samba.
 
Ilcéi se alegra com a receptividade do público, mas sente falta de uma abertura maior às instrumentistas no mercado musical para que esse mesmo público tenha acesso à música popular.
 
                                                                                       Crédito/ Divulgação
Ilcéi Mirian
 
“Para a grande mídia, o que importa é a música de consumo rápido, o que não é o caso do Samba Tradicional. Às vezes, nos sentimos remando contra a maré. É um trabalho que vem aumentando em quantidade e qualidade. É uma evolução natural em nossa sociedade. Acredito que haja uma renovação, mas, na área do samba, ainda temos que aprender a divulgar mais a nossa arte instrumental”, lamenta.
 
Ao som do bandolim, a carioca Nilze Carvalho iniciou a carreira internacional. Aos 15 anos de idade, já tocou ao lado de grandes nomes da música brasileira. O instrumento em formato de pera – junto com o cavaquinho, a flauta e, muitas vezes, a guitarra – forma uma típica apresentação de chorinho.
 
“O bandolinista do choro tem conseguido conciliar muito bem as novas técnicas e maneiras de tocar o repertório tradicional. Juntar técnica e sensibilidade sempre agrada bastante o público. Antes, só víamos mulheres na música erudita. Hoje, encontramos violonistas, guitarristas, baixistas, bateristas, percussionistas e sopristas dividindo espaço que somente homens ocupavam”, explica Nilze, que acaba de lançar o CD O Que é Meu pelo selo Biscoito Fino, com um eclético repertório popular que passa pelo samba, choro, baião, rumba, frevo e fox.
 
Inspirada pela prática musical de grandes compositores como Bach, a pianista Grace Torres já participou de apresentações eruditas e populares, e acredita que a abordagem da música popular por meio do piano ainda é um mito.
 
“Não tem nada de novo. Existem muitos pianistas famosos que ingressaram na linguagem popular por seus próprios caminhos, que, às vezes, eram feitos a partir de um estudo formal com muita prática e, em outras vezes, a partir da observação e audição. São pessoas como Chiquinha Gonzaga, Nat King Cole, Elton John, Ray Charles, Tom Jobim, César Camargo Mariano, Egberto Gismonti, entre outros”, analisa a instrumentista, que também produz shows com o seu grupo de música popular, o FATO, e se prepara para divulgar o DVD FATO – da tamancalha ao sampler em comemoração aos 18 anos do grupo.
 
O PREÇO DE SER UMA INSTRUMENTISTA
 
No dia a dia de uma instrumentista há várias possibilidades de atuação, pois o cenário contemporâneo da música exige flexibilidade. Para Grace, não é diferente. “Para ser somente pianista, o mercado está, como sempre, muito concorrido. Tem que passar horas ao piano diariamente, ler e fazer aulas com professores de alto gabarito. É uma vocação. Infelizmente, o Brasil ainda não valoriza os seus bons músicos como poderia, a exemplo de outros países. Para alguém que tenha uma formação musical sólida e não tenha essa vocação verdadeira e solitária de pianista de concerto, é possível diversificar a sua atuação (como eu faço), pois não fica refém de um único nicho de mercado”, diz a pianista.
 
Ilcéi Mirian avalia os contextos e processos necessários para a formação e continuidade da nossa tradição musical. Acredita que, além do interesse pela música, é necessário um apoio das escolas.
 
“Temos várias instituições e ONGs que trabalham neste sentido, mas a música tem que ter espaço na vida das pessoas desde cedo. Não significa que todos se tornarão músicos, mas com certeza a concentração e disciplina que a música exige fariam muito bem à vida de qualquer criança. Um ambiente criado exatamente para aprender, descobrir, aperfeiçoar e lapidar. Não me refiro somente ao fato de aprender um instrumento ou a oportunidade de ser apresentado a algum, mas também à história da nossa música, para a preservação da memória cultural e musical de uma nação tão rica quanto a nossa”, incentiva a cavaquinista e também pesquisadora sobre MPB. 
 
                                                                                              Crédito/ Joaquim Nabuco
 
Para Nilze Carvalho, a palavra-chave para ser uma instrumentista e fazer um belo trabalho é versatilidade. “Gosto tanto de tocar como de cantar, de música popular, regional e pop. Isso faz com que eu transite bem na cena musical atual. Já o mercado de trabalho para a bandolinista — ou para o músico em geral — continua restrito. Quando se é músico acompanhante, as possibilidades são maiores, mas o solista sofre um pouco mais. Cantando ou tocando, eu gosto de ter liberdade”, empolga-se a instrumentista, que também participa do grupo Sururu na Roda, destaque na cena musical carioca.
 
 
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