Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.03.2011 23.03.2011

A beleza e o inferno de Roberto Saviano

Por Bruno Dorigatti

Foto de divulgação 

Roberto Saviano vive escondido há cinco anos. E sob escoltaconstante dos carabinieri, polícia italiana sem similar por aqui, que atua nadefesa nacional, segurança pública, e como polícia militar e políciajudiciária. O motivo: ter se infiltrado em um dos grupos mafiosos italianos, aCamorra, que age em sua terra natal, Nápoles, região sul da Itália e, a partirda experiência, ter escrito a respeito. Gomorra (Bertrand Brasil, 2008), o livro de estreia do jornalista, alcançou osucesso esperado de uma obra ousada como esta. Traduzido em 40 países, vendeuaté o momento 3 milhões de exemplares ao redor do planeta, foi adaptado para oteatro e para o cinema, cujo filme com o mesmo título arrebatou o Grande Prêmiodo Júri no Festival de Cannes, em 2008. 

Ali, não vemos o glamour e o requinte tão rebatidos ereafirmados em obras como O poderosochefão, seja o livro de Mario Puzo ou a trilogia de Francis Ford Coppola.Em Gomorra, Saviano vai fundo nosmeandros e esquemas da máfia situada ao sul de seu país, mas que atua hoje deforma global. Recolhe o lixo tóxico produzido no norte industrializado do país,e com legislação mais rígida, e o enterra no sul, além de controlar orecolhimento do lixo produzido em sua região. Participa ativamente do esquemade falsificação de alta costura – inclusive com seus vestidos chegando aotapete vermelho do Oscar, via atrizes famosas – que inclui o trabalho escravode mão-de-obra chinesa. Sem falar no controle de ramos importantes daconstrução civil, como a produção de cimento. Se no século XX a máfia seocupava de negócios ilegais, como o jogo, o contrabando de bebidas (proibidanos Estados Unidos entre 1920 e 1933, momento em que Al Capone floresce e seestabelece) e o tráfico de drogas, neste início do século XXI e desde o finaldo anterior é cada vez maior a participação de grupos mafiosos em negócios legaise muito lucrativos. Investigação muito bem apurada e arriscada, que lhe custoua liberdade de ir e vir e o anonimato. Hoje uma pessoa conhecida, paga o preçopor isso. Um preço alto, diga-se. 

Esta é apenas uma das constatações que podem ser inferidas naleitura de seu novo livro, que acaba de ser lançado no Brasil, A beleza e o inferno (Bertrand Brasil),com tradução de Karina Jannini. O livro reúne artigos, perfis e reportagenspublicadas na imprensa europeia entre 2004 e 2009, além de dois textos até entãoinéditos: o prefácio que abre o livro, em tom emocionado, onde agradece o apoioque tem recebido e critica aqueles que tentam diminuir o seu trabalho, bem comoos conformados para quem nada é possível fazer para mudar a situação em queencontra sua terra e o sul da Itália de maneira geral; e o perfil de MichelPetrucciani, exímio pianista que desafiou todas as probabilidades ao se tornarum grande músico mesmo tendo nascido com um doença rara e de nome complicado –osteogênese imperfeita –, que deixa os ossos frágeis, desgastando e rompendo asarticulações. 

São os perfis, aliás, que constituem uma das melhores partede A beleza e o inferno, ao abordar avida de pessoas como Lionel Messi, hoje o melhor jogador de futebol do mundo,mas que também enfrentou problemas com os hormônios de crescimento quandocriança. De jornalistas italianos que bravamente enfrentaram a onipotência damáfia ao denunciá-la e acabaram pagando com a vida, caso de Giancarlo Siani. DeDonnie Brasco, alcunha que assumiu Joe Pistone, do FBI, ao se infiltrar namáfia ítalo-americana por seis anos, retratado em filme de Hollywood. Ou Anna Politkvoskaia,jornalista russa executada em 2006 por denunciar a atuação mafiosa etotalitarista de Putin, então primeiro-ministro russo. 

Interessante também é acompanhar a vida reclusa e cheia decuidados que Saviano passou a ter depois de Gomorra,como quando foi a Cannes para participar do festival onde o filme foi premiado.Não é um lamento arrependido; ele não é inocente ao ponto de não saber o queestava fazendo quando decidiu escrever seu relato sobre o trabalho com a máfia.Transparece no texto certa amargura, mas ele acredita ter valido a pena. Apesardos que o acusam de buscar os holofotes, a fama e a celebridade, há esperançano apoio que recebeu e recebe mundo afora, seja de conterrâneos seus, de seusleitores anônimos ou dos 17 escritores premiados com o Nobel que lhe prestaramsolidariedade em manifesto assinado por milhares de pessoas. Ele esteve naSuécia e descreve as sensações de adentrar local tão mitológico e cercado deaura como a Academia Sueca, onde participou de um debate com Salman Rushdie,que passou por situação semelhante ao ser condenado à morte pelo fatwa do aiatolá iraniano Khomeini,depois de ter blasfemado Alá em Os versossatânicos

O escritor e jornalista também volta à carga aos mafiosos,onde atualiza a atuação deles, seja no comércio de cocaína ou nos negóciossupostamente legais do lixo ou da construção civil, que pouco ou nadarepercutem na imprensa italiana, porque cada vez mais associadas com o poder políticoe econômico. Segue fazendo aquilo que sabe, aquilo que pode. “Escrever, nestesanos, me deu a possibilidade de existir”, é a frase que abre o livro. Essaexistência incômoda de Roberto Saviano deve ser louvada, em tempos que poucosousam dizer o que deve ser dito, sem meias palavras. O italiano sabe dos riscosque corre e talvez isso que faça com que siga adiante. Que sirva de exemplo,mesmo em tempos sombrios como o nosso. Que seja lido, para que tomemosconhecimento das tristes e cruéis engrenagens que giram o mundo nos dias dehoje.

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