Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 17.04.2011 17.04.2011

A arte Ná Ozzetti de se reinventar

Por Diego Muniz
Foto: Marcos Hermes

É quase uma regra da indústria fonográfica: quando uma cantora comemora algumas décadas de carreira, ela faz um show ao vivo e registra os seus maiores sucessos. Na festa para celebrar os 30 anos de estrada de Ná Ozzetti a ordem foi outra. A paulistana acaba de colocar na praça o CD Meu Quintal (Bondará), composto quase que exclusivamente por canções inéditas.

O quintal de Ná vem cheio de amigos, parceiros e músicos que fazem parte da história da cantora e compositora. “Gosto de trabalhar como se estivesse na intimidade da minha casa, com os chegados e todos os elementos que fazem parte desse quintal”, revela a cantora que assinou, em parceria com Luiz Tatit, Dante Ozzetti, Arthur Nestrovski, Zélia Duncan e Alice Ruiz, entre outros, 11 das 12 composições.

No estúdio foi acompanhada pelos músicos Dante Ozzetti, seu irmão, Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho, parceiros do projeto anterior, o CD Balangandãs, que abordou o repertório Carmen Miranda. Como resultado: um trabalho coletivo com e contemporâneos.

Por que lançar um disco de inéditas para celebrar seus 30 anos de carreira?
 
Ná Ozzetti. Porque tinha muita vontade de fazer esse disco com minhas canções neste momento, além de dar continuidade a um projeto que venho desenvolvendo com esses músicos, que conceberam comigo o trabalho. Sempre que tenho oportunidade, gosto de me dedicar a um novo projeto, então a data comemorativa veio a calhar com minha relação com a música.
 
O que te inspirou a fazer este novo CD?

Ná Ozzetti. A primeira coisa foi a vontade de dar sequência aos trabalhos com esse quinteto (Dante Ozzetti, Mário Manga, Sérgio Reze, Zé Alexandre Carvalho e eu), iniciados em 2004, mas concretizados em 2008 com o show Balangandãs. Então comecei a compor as canções pensando neste CD (Meu Quintal) e propus as parcerias com o Luiz Tatit, Alice Ruiz, Makely Ka, entre outros.
 
Teve uma sensação diferente de lançar um trabalho que comemora os 30 anos de carreira?

Ná Ozzetti. Sim, claro. Principalmente porque tem um gostinho de novidade, ou seja, é tudo inédito, gosto disso.
 
Uma das marcas do Meu Quintal é a criação coletiva. Como foi a produção e gravação?

Ná Ozzetti. Temos trabalhado juntos nos últimos anos e acabamos desenvolvendo, além de uma sonoridade característica, uma relação musical entrosada. Para o CD, convidei o (Mario) Manga para produzir. Foi ele quem escolheu o estúdio de gravação e sugeriu o Homero Lotito para mixar e masterizar. O Dante e o Manga dividiram os pré-arranjos, a partir dos quais trabalhamos coletivamente até chegarmos à forma em que foram gravados.
 
Sonoramente, o trabalho parece muito contemporâneo. Qual caminho você buscou para este disco?

Ná Ozzetti. O da simplicidade. O trabalho todo foi pensado na sonoridade da banda, nos instrumentos que usamos: violão, guitarras, bateria, baixo acústico, também violoncelo e violão tenor em duas músicas, e a voz. Cada um de nós cuidou de sua performance e de seu instrumento, sempre pensando no todo.
 
Como foi a escolha do repertório? Que tipo de canção você tentou privilegiar?

Ná Ozzetti. Não pensei em direcionar o repertório. As canções foram surgindo a partir de ideias musicais, de forma livre.
 
As parcerias nas composições também estão bem presente. Como é sua forma de criação?

Ná Ozzetti. Com alguns parceiros, como Luiz Tatit, Zélia Duncan, Makely Ka, fiz a música primeiro e eles escreveram as letras a partir das melodias. Com o Dante e o Tatit, que compuseram A Velha Fiando, o processo é o mesmo. Já a Alice Ruiz, o Arthur Nestrovski, o Neco Prates e a Carol Ribeiro me deram as letras prontas e eu criei as melodias a partir destas.

Como foi compor com tantas pessoas diferentes?

Ná Ozzetti. Com todos tenho uma relação antiga de amizade e trabalho, e todas essas pessoas citadas também costumam interagir umas com as outras. É uma grande troca, o que acho muito enriquecedor. Adoro trabalhos coletivos, como você já deve ter percebido.
 
Você percebeu, neste CD, um amadurecimento artístico e de relação com a canção popular?

Ná Ozzetti. Bem, 30 anos de carreira, já estava na hora de amadurecer (risos). Mas sinto que vai ficando mais fácil chegar ao resultado desejado sim. A sensação de indescritível prazer ao realizar um projeto novo sempre esteve presente desde o início da carreira, mas a forma de me relacionar com o trabalho foi mudando ao longo desses anos. A intensidade se manteve, mas de forma diferente.

As comemorações dos 30 anos de carreira se estenderam a outros projetos?

Ná Ozzetti. Sim. Fiz dois shows, nos dias 13 e 14 de abril, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que celebraram o lançamento do Meu Quintal. Pretendo levar a outras cidades e chegar perto do maior número de pessoas possível. Em junho, tenho uma apresentação marcada em Portugal.

Por que o nome Meu Quintal?

Ná Ozzetti. Quando o Luiz Tatit mostrou a letra desta canção achei o título muito sugestivo. De certa forma, veio a calhar com o conceito do CD e a maneira como gosto de trabalhar, como se estivesse na intimidade da minha casa, com os chegados e todos os elementos que fazem parte desse quintal. Também me remeteu ao processo criativo, herança da infância que tive nos quintais que frequentei. Mas o quintal da letra do Luiz é um quintal que cada ouvinte deve imaginar por si.


Crédito da foto: Gal Oppido

 
Você já trabalhou como professora de canto. Como isso ajudou na sua carreira de cantora?

Ná Ozzetti. Talvez tenha aprendido mais com meus alunos do que eles comigo. Cada aluno é um universo único que temos que desvendar e trabalhar. São tantos elementos reunidos, timbre, personalidade, musicalidade, físico, entre outros. Temos que desenvolver uma sensibilidade grande para perceber e respeitar o grande potencial individual de cada um, e fazê-lo crescer, aflorar. Um trabalho de longo prazo.
 
A cada dia parece que surgem novas cantoras de MPB, mas comemorando 30 anos são poucas. Como você vê o mercado hoje e qual o seu lugar nele?

Ná Ozzetti. Tenho gostado muito das produções que acompanho e estão surgindo artistas que têm surpreendido pela qualidade. Obviamente, não é tudo o que há no mercado que me atrai, então prefiro me concentrar nesses que me identifico, que não são poucos. Quanto ao meu lugar, continuo trabalhando como sempre trabalhei, estimulada pelo prazer e gosto pela arte, realizando projetos, me relacionando com o público. Meu envolvimento com o mercado é especificamente artístico.
 
Quando você pensa nos 30 anos fazendo a música, o que passa na sua cabeça?

Ná Ozzetti. As melhores experiências, as que ficaram, que acrescentaram algo para meu desenvolvimento. Com relação aos meus próprios trabalhos, sinceramente não sei avaliar, não tenho esse distanciamento. 

Quais momentos você considera importante e por quê?

Ná Ozzetti. Todos os discos lançados, desde os do Rumo, são os momentos mais importantes, pois são o resultado de um envolvimento total com cada projeto específico. E os shows, mas esses foram muitos, nem dá pra citar aqui.
 
Dos 30 anos o que mais você aprendeu?

Ná Ozzetti. Acho que tenho ainda muito que aprender.
 
Após 30 anos como é subir ao palco?

Ná Ozzetti. Cada vez melhor pra mim.

Recomendamos para você